Uma solução para guerras constantes
Dr. Linus Pauling, Jr.

Na véspera da abertura da exposição "Linus Pauling e o século XX" no Caltech (Califórnia, EUA), Linus Pauling Jr. (filho do dr. Linus Pauling) refletiu sobre suas experiências com a SGI. Ele considera a filosofia da SGI como uma solução para a guerra.

O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, é a pessoa mais notável, percebi isso quando me encontrei com ele no ano passado. Fiquei particularmente impressionado pela sua capacidade de dialogar com as pessoas e trazer à tona o melhor que elas podem produzir, mais até do que acreditam que possam realizar. Atuo como psiquiatra há 35 anos ou mais, e claro, é parte do meu trabalho entrar em contato com as pessoas, para ajudá-las a usar os seus próprios recursos para desenvolver suas próprias vidas. O presidente Ikeda é um filósofo, não um psiquiatra, mas ele tem essa habilidade de entender o íntimo das pessoas. Meu pai era um cientista, entretanto eu me tornei psiquiatra para estudar o inconsciente da mente humana, que é invisível. Baseado na minha experiência, sei como é difícil entrar em contato com a camada mais profunda da mente das pessoas, e como é difícil trazer à tona aquilo que ainda nem reconheceram em si mesmas.

Antes de morrer, meu pai se encontrou com o presidente Ikeda, e falou dele pra mim em muitas ocasiões. Fiquei particularmente impressionado quando no escritório do meu pai, na época que comecei a trabalhar lá, no fim de 1991, vi uma pilha de livros: eram vários volumes do livro sobre a paz publicado em conjunto pelo presidente Ikeda e por meu pai, A Lifelong Quest for Peace ("Uma vida em busca da Paz").

Percebi que meu pai entregava uma cópia daquele livro às pessoas que iam visitá-lo, e que tinha grande orgulho de ter participado da publicação com o presidente Ikeda.

Ele e meu pai se complementavam de muitas maneiras. Meu pai não era um filósofo, mas era um cientista treinado. Ele dependia muito de informações concretas e se sentia desconfortável lidando com a emoção humana individual. O presidente Ikeda, por outro lado, se sentia muito confortável lidando com abstrações. O ponto onde eles se encontravam era a visualização criativa sobre os prejuízos que poderiam advir à nossa sociedade se as coisas dessem errado e que esforços deveriam ser feitos para melhorar o futuro.

Meu pai, com um background científico que trata com fatos e estatísticas, e o presidente Ikeda, com o seu treinamento filosófico de tratar com conceitos, se uniram, levando estes dois pontos de vista a um entendimento mútuo, que se interiorizou em cada um deles. Eu acho que isso ajudou muito meu pai. Eu gostaria que ele tivesse tido essa experiência mais cedo em sua vida, para ter podido direcionar-se a uma abordagem mais filosófica. Eu sei que meu pai não tinha muita consideração pelas teorias do inconsciente de Sigmund Freud e se sentia desconfortável quando confrontado com evidências do inconsciente em ação. Era difícil para ele olhar para si mesmo, e eu acho que o presidente Ikeda foi capaz de tornar mais fácil para ele entender a si mesmo e revelar o que ele pensava sobre esses assuntos.

A exposição nacional "Linus Pauling e o século XX" foi bem recebida pelo público em São Francisco e na baía. Eu quero expressar minha profunda admiração pelo presidente Ikeda, que propôs esta exposição à organização, e a todos os membros da SGI, que o apoiaram totalmente. A próxima parada da exposição, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, (de 16 de maio a 19 de junho), será especialmente significativa porque é o fim de um ciclo. É o retorno simbólico do meu pai à sua alma mater, onde ele concluiu seu Ph.D. e lecionou durante décadas.

Por meio dos meus contatos com a SGI, co-patrocinadora da exposição, aprendi um pouco sobre seus conceitos e suas atividades. Depois de conhecê-la, fiquei muito impressionado com a transformação da organização ocorrida sob a liderança do presidente Ikeda, particularmente seu crescimento e a sua qualidade. Fiquei muito surpreso com a dedicação dos voluntários. Eu soube que o Centro Cultural de São Francisco, da SGI-USA, tem somente três funcionários pagos; todos os outros que trabalham lá e todas as pessoas que trabalharam na exposição em São Francisco (no pavilhão de Exposições Herbst International, durante os meses de setembro e outubro de 1999) são voluntários. Demonstrar este grau de entusiasmo, lealdade e dedicação não é comum, em nenhuma organização. Também acho que a filosofia da SGI é muito boa e construtiva. Se mais pessoas no mundo inteiro estivessem abertas à contemplação da vida e do futuro da civilização, a SGI seria ainda mais popular do que é hoje.

Quero mencionar alguns pontos da filosofia da SGI que me impressionaram.

Os seres humanos têm a tendência a rejeitar outros grupos como diferentes ou como inimigos, o que é uma reação natural e inata de auto-defesa. Conseqüentemente, qualquer sociedade tende a ser competitiva e combativa. Esta é a razão pela qual nossa história apresenta constantes guerras, alimentadas pelas rupturas e antipatia, mais do que pela solidariedade e harmonia.

Posso dar outro exemplo de porquê as coisas não dão certo. Nos idos de 1964, eu marchei com Martin Luther King Jr. e seus seguidores da cidade de Selma até Montgomery, no Alabama. Na primeira parte da marcha, enquanto estávamos saindo da pequena cidade de Selma, pessoas ficaram paradas às portas de suas casas. Muitas das casas tinham bandeiras da Confederação penduradas. Era uma demonstração do fato de que aquelas pessoas estavam defendendo seu direito de ver as coisas de modo diferente dos participantes da marcha, a despeito do fato que a Guerra Civil Americana tivesse ocorrido cem anos antes. Também havia crianças lá, e eu vi um garoto, de seis ou sete anos de idade, vestindo um uniforme militar e carregando um rifle de madeira. Ele estava apontando seu rifle de brinquedo para os participantes da marcha que passavam em frente a sua casa. Eu podia ver estes pequenos garotos sulistas sendo ensinados a pensar que pessoas que pensam diferente e tem cores de pele diferentes são inimigos que devem ser mortos. Alguns dias depois, na mesma estrada, um defensor dos direitos humanos foi morto por um rifle empunhado por um adulto, que sem nenhuma dúvida foi levado a isso, exatamente como o menino que eu tinha visto antes.

Senti que a fim de evitar que tais coisas acontecessem e a fim de parar a tendência instintiva de ver as pessoas que são diferentes de você como seus inimigos, a educação deve começar muito cedo. Aprendi que esta é uma prioridade da SGI. Soube que o conceito da SGI é basicamente que por meio da compreensão e da realização interior, e do senso de valorizar a própria vida é que alguém pode se desenvolver. Eu admiro muito isso. Entretanto, os doze milhões de membros da SGI não são realmente suficientes. O número de pessoas que pode sentir auto-realização e por meio dela aceitar os outros tem de se tornar muito, muito maior. A SGI tem demonstrado como isso pode ser feito.

[Reeditado de um artigo veiculado na edição de 23 de abril de 1999 do World Tribune, da SGI-USA, com permissão do editor e do autor.]


Construindo pontes com a China
Cai Delin, ex reitor da Universidade de Shenzhen, na China

Dr. Cai Delin proferiu este discurso em Sendai, Japão,em Julho de 1998. No discurso, ele explica a importância histórica da proposta do presidente da SGI, Daisaku Ikeda, para a normalização das relações diplomáticas entre a China e o Japão, feita numa época (1968) em que a relação entre os dois países era quase inexistente.

Em 8 de setembro de 1968 cerca de vinte mil estudantes assistiram a uma palestra do sr. Ikeda na décima primeira reunião geral da divisão dos jovens, na qual ele enfatizou a importância da normalização das relações diplomáticas sino-japonesas. Naquele ano, ele também contribuiu com um longo artigo na edição de dezembro do Asia Monthly, chamado "Uma proposta para a normalização das relações sino-japonesas".

A proposta do sr. Ikeda foi extremamente abrangente e profunda. Era centrada em um plano com três pontos: a normalização das relações diplomáticas, a restauração da China como membro legítimo das Nações Unidas e a extensiva promoção da economia sino-japonesa e intercâmbio cultural.

Ele sustentou que o reconhecimento oficial da República Popular da China era um requisito fundamental para o progresso. Enfatizou ainda que as Nações Unidas estariam errando seriamente ao ignorar uma nação tão grande quanto a China, com sua população de 710 milhões de habitantes e mais de três mil anos de história.

Ele expressou seu desejo de conversar com líderes de estado chineses e japoneses, na primeira oportunidade, como um passo à frente na normalização das relações. Ele os exortou a conversarem diretamente um com o outro sob uma perspectiva de longo alcance, para alcançar um campo comum, e então prosseguir com assuntos específicos. Esta proposta era inteiramente consistente com o pensamento do premiê Chu Enlai.

Os acontecimentos que se seguiram provaram que ele estava certo. A China conseguiu uma posição nas Nações Unidas três anos mais tarde, em 1971. O Primeiro-ministro Kakuei Tanaka e o Ministro do Exterior Masayoshi Ohira visitaram a China em 1972, assinaram a Declaração Conjunta China-Japão e realizaram a normalização das relações diplomáticas.

Fiquei muito impressionado com a visão do sr. Ikeda. A sua declaração de 1968 foi —até onde eu sei — sem precedentes. Quanto mais eu estudo os fatos daquele período, mais eu percebo agudamente que o sr. Ikeda demonstrou não somente uma grande sabedoria, mas de fato, também uma grande coragem.

Imagem da China

Em 1968, a Revolução Cultural já estava em seu terceiro ano. A Gangue dos Quatro havia obtido controle sobre o país inteiro, e a China estava em profundo caos.

Eu mesmo fui privado da liberdade durante este período confuso.

A China também vivia profundas tensões com seus vizinhos. O único acordo que sobreviveu foi o acordo com o Japão, que já tinha expirado no fim de 1967. Existia um rumor que a Gangue dos Quatro mandaria tropas para Hong Kong, e em 1968, as relações sino-soviéticas também tinham se agravado consideravelmente.

A imagem da China na comunidade internacional foi extremamente negativa, e a sociedade chinesa estava tomada por tumulto e descontentamento. A despeito destas circunstâncias, o sr. Ikeda discerniu a verdadeira natureza do período histórico. Ele estava convencido de que os problemas domésticos na China tomariam um rumo positivo, e afirmou que a solução da questão chinesa era uma chave vital para a paz no mundo.

Eu imagino que naquela altura, havia uma parcela da população japonesa que trabalhava ativamente pela melhoria das relações sino-japonesas. Todavia, foi extremamente valioso que uma pessoa como o sr. Ikeda se levantasse contra a corrente negativa da época, dissesse a verdade e inspirasse as pessoas, insistindo, mesmo face a ameaças e hostilidades.

A proposta do sr. Ikeda reverberou na sociedade japonesa. A imprensa imediatamente relatou o fato, e um renomado crítico japonês, Yoshimi Takeuchi, descreveu a idéia do presidente Ikeda como "um raio de esperança", afirmando: "Na superfície, sua declaração era destinada aos membros de uma organização religiosa, mas na sua essência ele levantou uma questão crucial que é relevante a todos os japoneses, independente do credo religioso."

Vencendo a oposição

Entretanto, a proposta do sr. Ikeda deve ter tocado partes nevrálgicas do Japão e dos Estados Unidos. A sua crítica às políticas anti-chinesas causaram grande desconforto diplomático e preocupação.

No entanto, não era possível retroceder o curso da história. A voz das pessoas, como representadas pela palestra do sr. Ikeda, foram imediatamente reportadas ao premier Chu Enlai em Pequim. E esse foi um impulso importante, que incitou o premier Chu a promover a amizade entre a China e o Japão, um dos seus mais acalentados objetivos.

Houve uma pessoa que exaltou amplamente a proposta do sr. Ikeda e o recomendou ao premier Chou-Kenzo Matusmura, do Partido Liberal Democrático. O sr. Matsumura estava preparando sua quinta visita à China quando ouviu falar da declaração do sr. Ikeda e disse que sentiu ter ganho "milhões de aliados". O sr. Matsumura resolveu encontrar-se com sr. Ikeda.

Eles se encontraram em 11 de março de 1970. O sr. Matsumura encorajou o sr. Ikeda a visitar a China: "Alguém como você deve ir. Vamos juntos." Acredito que o sr. Matsumura estava ansioso para apresentar o sr. Ikeda ao premier Chu o mais rápido possível. Na sua idade avançada de setenta anos, ele achou ter descoberto uma pessoa em quem confiar a tarefa de construir a amizade sino-japonesa. Mas o sr. Ikeda respondeu que a restauração das relações bilaterais deveria ser levada a cabo no nível político, e não por um líder religioso. Ele sugeriu que seria mais adequado que membros do Partido Komei ( "Governo Limpo") fossem, e prometeu visitar a China na época apropriada.

Representantes do Partido Komei fizeram três visitas à China antes de julho de 1972, encontrando-se com Chu Enlai. Estas visitas tiveram um papel importante nas decisões do governo do Primeiro Ministro Tanaka, no que diz respeito às relações futuras com a China.

Quando reconhecemos a importância e o significado da proposta do sr. Ikeda, devemos considerar não somente o seu conteúdo, mas também o fato de ter efetivamente atuado pelo restabelecimento das relações bilaterais Japão-China. Ele se mostrou não somente um pensador, mas um homem de ação.

O sr. Ikeda contribuiu notavelmente com as relações sino-japonesas. É minha convicção que a importância de seu papel será cada vez mais glorificada, com a passagem do tempo.

Destaques dos intercâmbios entre a Soka Gakkai e a República Popular da China desde 1974:

Delegações de jovens da Soka Gakkai visitaram a China oito vezes desde 1979, e as delegações femininas fizeram três visitas. A divisão educacional e a divisão de médicos da Soka Gakkai também visitaram o país. A Federação Nacional de Jovens da China visitou a Soka Gakkai oito vezes.

A Universidade Soka tem atualmente intercâmbios com as Universidades de Pequim, Fudan, Wuhan, Shenzhen, Xiamen , Zhongshan , Jilin e Shanghai . O primeiro intercâmbio oficial de estudantes , enviados pelo governo chinês, chegou à Universidade Soka em abril de 1975.

Duas grande exibições chinesas foram levadas ao Museu de Arte Fuji de Tóquio (TFAM): a "Exibição de Dunhuang", em 1985, e "Tesouros do Museu do Palácio", em 1995. A exposição "Obras Primas da Pintura à óleo européia" foi levada pelo TFAM para a Galeria de Arte Chinesa em Pequim, e em Hong Kong em 1997.

A exibição "Armas Nucleares — Ameaça ao nosso mundo" foi levada em Pequim em 1986.

A Associação de Concertos Min-on tem realizado intercâmbios entre o Japão e China envolvendo 27 companhias especialmente das áreas de música, canção e dança, desde 1975.

O presidente da SGI visitou a China onze vezes desde a sua primeira visita em maio de 1974. Ele realizou seis palestras nas maiores universidades e manteve diálogos com Ba Jin, presidente da Associação de Escritores Chineses, e com o autor Jin Yong. O sr. Ikeda também manteve diálogos com Zhao Puchu, presidente da Associação Budista de China, e Chang Shuhong, presidente honorário do Instituo de História e Cultura de Dunhuang .

Desde 1984, vinte e dois livros do sr. Ikeda foram publicados na China.

Re-impressão da edição de janeiro de 1999 da revista SGI Quarterly, sob permissão do Escritório Internacional de Relações Públicas da Soka Gakkai.



O Budismo Japonês e o Renascimento Americano
Dr. David L. Norton


Dr. Norton, professor de filosofia na Universidade de Delaware, em Newark, EUA, morreu em 24 de julho de 1985, causando sofrimento e pesar em todos os que o conheceram. Em comemoração ao primeiro aniversário de sua morte, e como um tributo a uma vida dedicada à excelência e integridade, a SOKA NET apresenta esta versão resumida do seu trabalho, veiculado originariamente em sete partes em 1993, na Soka Gakkai News – um predecessor da revista SGI Quarterly.

Minha intenção neste escrito é examinar profundamente as correlações entre a filosofia do renascimento americano, representado pelos escritos de Emerson e Thoreau, e as doutrinas do budismo japonês. Este budismo é muito mais próximo do que o indiano, o chinês ou as formas tibetanas de budismo, porque o budismo japonês é inequivocamente "afirmador da vida", e a sua preocupação humanística com a qualidade da vida vai mais além, atribuindo aos indivíduos o papel de agentes do aprimoramento. No Japão, é a escola Nitiren que mais fez pela democratização da idéia da natureza de Buda, afirmando a possibilidade de atingir o estado de Buda dentro de cada ser humano.

A questão central da antropologia filosófica de Emerson é que sendo um ser humano, o indivíduo é possuidor de "genialidade"; ou seja, " que a idéia do divino que cada um de nós representa" mais do alguma qualidade excepcional que alguns poucos possuem. Portanto, ao democratizar esta genialidade, ele eliminou o abismo entre os "que têm" e "os que não têm", e o substituiu por um espaço transponível por aqueles que estão seriamente interessados em localizar a sua própria genialidade e aqueles que não estão. Por esta razão ele visualizou a "felicidade" como um compromisso de busca de auto-conhecimento, mais do que um equilíbrio hedonista entre prazer e dor.

Ao falar de "genialidade" como uma questão de vocação ou de "missão", Emerson introduziu o conceito de "verdades pessoais" que são feitas pelas nossas respostas às escolhas que fazemos na vida e portanto contém um senso de direção. As filosofias que priorizam este tipo de verdade pessoal chamarei de "filosofias de vida". Ao invés de perguntar "O que é verdade?" eles perguntam "Por quais verdades devo ser responsável?", que, por sua vez, é baseada na questão "Por quais valores devo ser responsável?"

A resposta oferecida – semelhantes entre si, embora advindas de cenários culturais diferentes – tanto pelo budismo japonês quanto por Emerson, representante do renascimento americano é: aqueles valores que representam o desenvolvimento das potencialidades inatas, chamadas respectivamente de natureza inata de Buda e de "genialidade". De acordo com Emerson, uma vida que concretize sua genialidade realiza uma satisfação dupla: vivencia uma satisfação interior ou felicidade que atende a uma vida auto-realizadora e concretiza um objetivo valioso no mundo. Daisaku Ikeda expressa a mesma idéia: "... A Soka Gakkai considera que o pensamento religioso e a filosofia são os mais nobres valores da vida individual, e que, juntos, se tornam a base de uma sociedade nova e melhor.

A Soka Gakkai clama por uma "revolução humana", que é, no fundo, a transformação das pessoas de uma vida direcionada ao exterior para uma vida centrada no interior. A premissa deste clamor é a presença inata em todas as pessoas das potencialidades que necessitam ser atualizadas. A admoestação de Emerson "Confie em si mesmo" é um clamor pela mesma revolução. As revoluções solicitadas por Emerson e pela Soka Gakkai estão no auto-conceito dos indivíduos em direção da auto-motivação e auto-direcionamento. Tanto o budismo quanto Emerson e Thoreau fornecem à essa necessidade de exploração, a certeza de que existe algo crucial a ser descoberto, conhecido como verdade interior, existente na forma de potencialidades inatas ainda adormecidas sob as camadas da identidade socialmente conferida.

Emerson usa o termo Over Soul ("Sobre-Alma") para se referir à realidade última da qual a genialidade particularizada de cada pessoa é um aspecto. Ele é panteísta, assegurando que a divindade existe dentro de todas as coisas, e que somente aí pode se realizar. De maneira similar, no Budismo Mahayana, a obtenção da iluminação não é uma liberação do mundo existente, mas sim a obrigação de ajudar os outros na busca pela sua própria iluminação. De acordo com Nitiren, a realidade última é Nam-myoho-rengue-kyo, que, da mesma maneira que a Over Soul de Emerson, não é confinado à humanidade ou ao mundo orgânico, mas penetra toda a existência. Em suma, tanto o Budismo Mahayana quanto o pensamento de Emerson evitam o dualismo que concebe a salvação da vida humana em termos do que lhe é oposto, e clama pela renúncia deste mesmo aspecto. Ambas são verdadeiras filosofias de vida.

Emerson reconhece que a vida é inerentemente criativa (e quando ela destrói está preparando uma nova criação), onde a criação é entendida como a transformação das possibilidades em realidade (e não como a criação de alguma coisa a partir do nada). Similarmente, Nam-myoho-rengue-kyo é a lei ou princípio universal da vida criativa, e todos os seres humanos são responsáveis pela concretização das suas potencialidades como criadoras de valores. Estas potencialidades são a natureza de Buda, e a sua concretização é a obtenção do estado de Buda. A democratização da natureza de Buda consiste na atribuição dos seres humanos como ensinado no Sutra de Lótus.

Mas estas filosofias são, em outras palavras, doutrinas teleológicas, que afirmam que o fim último ou a idéia resultante do desenvolvimento de uma entidade está inserida nela desde o seu início, mas implicitamente. Pessoas que aceitam a oportunidade de levar sua vida de modo auto-motivado e auto-direcionado se tornam agentes, e não mais meros espectadores. Porque estão totalmente comprometidos com a vida que conduzem, eles produzem mais valores para o enriquecimento dos outros, experimentam mais satisfação pessoal de auto-realização, e aumentam a valorização da vida do outro.


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