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Outubro/Dezembro
2004

Destaque
A experiência filipina
Angelina Galang


Angelina P. Galang
Não há dúvida de que os problemas ambientais mundiais estão se agigantando. Aquecimento global, buraco na camada de ozônio, poluição, baixa fertilidade do solo, desmatamento, erosão, assoreamento do leito dos rios, baixa diversidade biológica, resíduos tóxicos — a lista é interminável.
Atividades industriais e econômicas são as principais responsáveis. Por outro lado, também não há dúvida de que o progresso seja necessário, especialmente para os países cujas condições econômicas impedem o desenvolvimento total das potencialidades humanas de seus cidadãos. O crescimento econômico é compatível com a proteção ambiental? A questão talvez seja mais bem colocada desta forma: o desenvolvimento econômico é possível sem proteção do ambiente? Minha resposta: não, se quisermos que o desenvolvimento seja sustentável. Investimentos em medidas sócio- econômicas são inúteis se as fontes de recursos naturais das quais o homem depende continuarem em crescente deterioração.

:: Educação ambiental

O desenvolvimento sustentável deve levar em conta vários aspectos, mas uma das estratégias mais básicas é a educação ambiental. Muita destruição ambiental acontece por ignorância. As pessoas precisam perceber a natureza e se conscientizar da gravidade da situação. Todas as formas de educação devem ser utilizadas porque todos os setores devem ser alcançados. Para o propósito deste artigo, eu gostaria de dividir a educação em
três tipos: formal, não-formal e informal/pública. A formal é aquela que se desenvolve nas escolas e universidades: sistemática, com atividades programadas ao final das quais se adquire um grau ou outra qualificação. A nãoformal, como os seminários especiais e workshops, são atividades programadas, mas de curta duração e da qual não resulta um diploma. A informal ou pública, realizada pelos veículos de comunicação, envolve mensagens curtas em pôsteres, adesivos e artigos de jornal.

A educação formal pode assegurar que todos os envolvidos recebam o conhecimento, habilidades e motivação para cuidar do planeta Terra. Esse tipo possui um grande potencial devido às muitas horas de contato disponíveis para a formação dos estudantes. Os que irão liderar nações no futuro precisam ser bem preparados.

A educação para o desenvolvimento
sustentável não deve se ater à problemática ambiental.
Deve incentivar as pessoas à busca de alternativas
para soluções em que todos ganhem e que sejam
ambiental e economicamente viáveis.

Entretanto, os líderes e adultos de hoje não devem ser negligenciados — podem não ter recebido educação ambiental formal porque esse é um campo relativamente novo. Treinamentos curtos e informais são apropriados por causa da escassez de tempo dessas pessoas. Os seminários e workshops podem ser bem focados em conteúdos e perspectivas, podem ser adequados a grupos específicos e ter aplicação imediata.

:: Mensagens dos meios de comunicação


Aqueles que não estão sendo educados em escolas ou em treinamentos continuados para adultos precisam ser atingidos por campanhas de informação públicas. Os meios de comunicação podem alcançar grandes camadas da população. Mas o desafio fica maior quando o público é amorfo, sem características semelhantes. É difícil de se determinar quem recebe as mensagens ambientais. A comunicação é unilateral. O feedback, muito menos do que a troca de idéias, é raro. Além disso, há muita competição entre tipos de mensagens. Elas devem atrair a atenção do público que prefere não ouvir más notícias.

Nas Filipinas, desde 1997, um decreto presidencial institucionalizou a educação ambiental. As escolas devem integrar essa educação em seus currículos sempre que for apropriado. Muitas procederam a essa integração por meio da introdução de cursos específicos sobre o ambiente. Outras integraram conceitos ambientais em cursos já existentes, como em ciências ou ciências sociais. Programas tradicionais de treinamento profissional estão incluindo aspectos ambientais em seus currículos, de modo que advogados possam aprender sobre leis ambientais, arquitetos façam projetos que respeitem o ambiente e engenheiros projetem construções que minimizem o desperdício e uso de materiais e energia e promovam o descarte apropriado de material não-reciclável. Um bom número de instituições oferece programas ambientais nos níveis de bacharelado, mestrado e doutorado, a fim de atender às necessidades dos profissionais atuantes na área ambiental.

Os meios de comunicação têm estado mais atentos ao ambiente. A educação pública é incentivada em artigos de jornais, rádio e TV. O jornalismo investigativo aponta atividades e abusos que destroem nossos importantes ecossistemas. A Divisão de Administração do Departamento do Ambiente e de Recursos Naturais possui um escritório de educação ambiental que regularmente divulga pôsteres, calendários, brochuras, adesivos e outros itens visando à conscientização pública.

:: Atividades das ONGs

O setor mais dinâmico é o das organizações não-governamentais. Elas estão envolvidas de fato na educação pública e apóiam a educação formal, mas sua contribuição mais importante é não-formal. Várias organizações que defendem causas ambientais gerais e específicas estão incansavelmente realizando seminários e workshops por todo o país. Clamam a todos os tipos de público — comunidades carentes, governos locais, congregações religiosas, organizações civis, corporações, líderes religiosos, meios de comunicação, grupos de mulheres e de jovens etc. Algumas das causas defendidas são: gerenciamento de resíduos sólidos, gerenciamento dos recursos da comunidade (de áreas florestais e costeiras), agricultura orgânica, os problemas das minas nas Filipinas, tecnologia destrutiva versus tecnologia ecológica e desenvolvimento sustentável.


A EDS trata tanto de
padrões de consumo e igualdade quanto da proteção ao ambiente.
No nosso país, assim como em qualquer outro lugar do mundo, temos que trabalhar duro para que todos abracem o paradigma ecológico. Embora os avanços tecnológicos melhorem a qualidade de vida do ser humano, destroem nosso ambiente e as fontes de recursos naturais. Ainda assim, essas questões não são vistas como prioritárias por muitos cidadãos.

:: Soluções boas para todos

A educação para o desenvolvimento sustentável não deve se ater à problemática ambiental. Deve incentivar as pessoas à busca de alternativas para soluções em que todos ganhem e que sejam ambiental e economicamente viáveis. Há muitos exemplos de que o cenário em que todos ganham não é tão impossível quanto se pensa. A administração adequada de resíduos sólidos é uma dessas lições.

O manuseio convencional do lixo envolve o descarte simples em áreas afastadas da população. Método que reflete uma maneira linear de lidar com os recursos naturais. Pegar da natureza, manufaturar, descartar os resíduos em um depósito de lixo. Esse paradigma não era questionado enquanto a população era pequena e os recursos
naturais e o espaço eram abundantes. Mas, agora, essa prática resultou em problemas. Lugares para depósito de lixo são difíceis de encontrar; não existem mais áreas “afastadas” das comunidades. O custo de carregar o lixo para lugares afastados onera os orçamentos governamentais. Mais importante, recursos são desperdiçados, já que grande parte do vidro, plástico, borracha, papel etc, pode ser reciclado, e todos os biodegradáveis podem ser usados para enriquecer o solo.


Cestos de coleta de
lixo reciclável, na
Faculdade Miriam,
cidade de Quezon.
A administração correta do resíduo sólido segue o padrão cíclico da natureza. O lixo deve ser revertido para o estado em que possa ser novamente uma fonte — ou em fábricas, como matéria–prima, ou no solo, como fonte de nutrientes. É assim que muito dinheiro e recursos são poupados. Paradigma ambiental e economicamente vantajoso.

O tratamento correto do resíduo sólido ilustra uma solução universal para um problema em princípio insolúvel. Outras questões ambientais poderiam ter direcionamentos similares se alguns líderes comunitários e empresários dedicassem tempo e esforços à causa. Mas o interesse e desejo de fazê-lo começa com o esclarecimento. A educação é a chave. Vamos fazer nossa parte e espalhar a iniciativa pelo mundo. Procuram-se educadores ambientais para o desenvolvimento sustentável.

Angelina P. Galang é diretora-executiva de Estudos Ambientais da Faculdade Miriam. Ela foi até recentemente presidente da rede de Educação Ambiental das Filipinas e tem cinco netos.


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