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Outubro/Dezembro
2004

Destaque
Uma década de oportunidades
Daniella Tilbury e Dimity Podger


Daniella Tilbury

Dimity Podger

A Educação para o Desenvolvimento Sustentável, por vezes referida como EDS, refere-se a aprender para mudar. Ela fornece uma oportunidade para que pessoas e grupos sociais reflitam, aprendam e mudem, de forma que possamos avançar para mais perto de um mundo sustentável. Como processo, ela não somente informa, mas também motiva e, mais importante, leva as pessoas a tomarem decisões em relação a questões sobre qualidade de vida.

A EDS cristalizou-se como resultado de acordos internacionais e um clamor global pela busca ativa do desenvolvimento sustentável. Inicialmente entendida como educação sobre sustentabilidade, ela cada vez mais é reconhecida como algo além da simples propagação de informações, graças à Agenda 21 e, mais recentemente, à Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em Johannesburgo em 2002.

:: Desenvolvimento sustentável

Desenvolvimento sustentável possui significados diferentes para povos de diferentes culturas, experiências e interesses. Muitos entendem desenvolvimento sustentável como um processo de administração adaptável e de sistemas de pensamento que requerem criatividade, flexibilidade e reflexão crítica. Trabalhando em conjunto e interagindo disciplinas, os grupos sociais aprendem uns com os outros ao considerarem as opções e suas conseqüências para o futuro.

A EDS preocupa-se em como estimular e guiar a participação e o aprendizado. É fundamental para a EDS aprender a acessar e influenciar sistemas sociais para a participação do público na tomamissa da de decisões.

Uma educação com o objetivo de alcançar a sustentabilidade difere dos enfoques anteriores de educação ambiental, uma vez que visa desenvolver relações mais próximas entre a qualidade ambiental, a eqüidade humana, direitos humanos e paz e suas conseqüentes implicações políticas. As principais preocupações da EDS incluem questões como segurança dos alimentos, pobreza, turismo sustentável, eqüidade urbana, a condição feminina, equilíbrio comercial, consumismo verde e saúde pública, assim como alterações climáticas, desflorestamento, esgotamento dos recursos naturais e perda da biodiversidade. Questões sobre qualidade ambiental e desenvolvimento são vitais para a EDS, pois ela baseia-se na pretomamissa de que não podemos ter qualidade ambiental sem eqüidade humana.

Existem aspectos fundamentais do processo da EDS que encorajam as pessoas a explorarem a complexidade e complicações da sustentabilidade, bem como as forças econômicas, políticas, espirituais, culturas e ambientais que promovem e impedem o desenvolvimento sustentável. São os seguintes:

• Foco no futuro e a habilidade de criar condições sustentáveis de construção do futuro para a mudança e uma melhor qualidade de vida.

• Menor ênfase no desenvolvimento da conscientização e nas alterações comportamentais e maior ênfase na escolha do estilo de vida.

• Desenvolvimento de habilidades e conhecimento para que cidadãos socialmente críticos lidem com assuntos complexos.

• Maior foco na mudança social, estrutural e institucional em vez de na mudança pessoal.

• Maior foco na mudança de modelos mentais.

:: DEDS

O projeto da Unesco para a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, publicado em 2003, argumenta que a EDS precisa tratar da minimização da pobreza e não somente de questões sobre biodiversidade.

Ratificou-se que a EDS se refere a aprender a evitar a destruição de ecossistemas, ameaças à biodiversidade, perda de florestas e viveiros de peixes, poluição do ar e da água. Mas também trata de questões de direitos de propriedade intelectual, consumo excessivo, pobreza crescente, ineqüidades, exclusão e alienação, conflitos sociais e violência, Aids, saúde, comércio e assistência social, bem como a erosão cultural. A Década oferece uma grande oportunidade de melhorar nossa qualidade de vida — para isso precisamos refletir não somente sobre as relações entre o homem e o ambiente, mas também as relações entre os próprios seres humanos.

A EDS defende que todos os participantes, especialmente os “multiplicadores” — aqueles que podem atingir um grande número de pessoas —, envolvamse intensamente na tomada de decisões para construírem um mundo sustentável. A estratégia de visar os multiplicadores objetiva elevar a capacidade de tantas pessoas quanto possível, para que participem na tomada de decisões sobre questões e problemas que necessitem de direcionamento e de trabalho em conjunto para a implementação. Entretanto, durante a última década, os multiplicadores dentro da sociedade civil, incluindo os grupos religiosos, não têm recebido muita atenção.

:: Contribuição das comunidades religiosas

No entanto, as comunidades religiosas realmente têm um importante papel a desempenhar na EDS. Elas estão profundamente engajadas num trabalho que contribua para o desenvolvimento sustentável por meio de iniciativas globais e populares, educação comunitária, parcerias e implementação de políticas. Como afirma Gary Gardner, do Worldwatch, os grupos religiosos possuem a capacidade de formar visões de mundo, têm autoridade moral e acesso a recursos materiais, além de uma ampla base de adeptos e capacidade de mobilização comunitária.

A Unesco tem salientado a necessidade do envolvimento desses grupos na Década. Envolver os grupos religiosos oferece uma oportunidade de desenvolver o apreço pelo significado da espiritualidade para o desenvolvimento sustentável, além de fortalecer o poder da religião para inspirar comprometimentos de longo prazo a um grande número de pessoas. Por exemplo, os ensinos das comunidades religiosas que encorajam a moderação em todos os sentidos podem contribuir para minimizar o consumismo crescente e as práticas nãosustentáveis.

“Educação é...
a chave para o desenvolvimento sustentável e a
paz e a estabilidade dentro e entre os países.”
(Marco de Ação de Dakar, abril de 2000)

As comunidades religiosas estão começando a se engajarem na EDS de diversas formas: algumas com iniciativas específicas estimuladas pela declaração da Década, outras por meio de parcerias com entidades seculares.

Uma recente associação entre organizações religiosas e seculares é a Parceria dos Estados Unidos para a Década da EDS. A atual parceria inclui os Líderes Universitários para um Futuro Sustentável, o secretariado da Carta da Terra nos Estados Unidos, a Assembléia Nacional Espiritual do Baha’i dos Estados Unidos, o Conselho Nacional para Ciência e Meio Ambiente do Conselho Nacional de Igrejas, entre outros. E as filiações continuam a aumentar.

:: Engajando-se na EDS

Nos próximos seis meses, duas iniciativas serão realizadas durante as quais, a interação entre fé, religião e a EDS será o objetivo principal. A primeira é a conferência internacional “Educação para um Futuro Sustentável”, que será realizada em Ahmadabad, na Índia, e que incluirá uma trilha envolvendo fé e EDS. A conferência é promovida pelo Centro de Educação Ambiental e patrocinada pela Unesco, Unep e pelos Ministérios do Desenvolvimento dos Recursos Humanos e do Ambiente e Florestas do Governo da Índia. A segunda é o Seminário sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável, uma iniciativa conjunta do Fórum Internacional do Meio Ambiente (IEF) e da entidade Educadores para o Desenvolvimento Econômico e Social (EDES), programado para dezembro. O tema do seminário é como a comunidade Baha’i pode contribuir para a Década e como a EDS desafia a prática da educação na comunidade.


Charges podem se mostrar eficazes para transmitir
mensagens sobre EDS.
A EDS, com seu foco na capacitação das pessoas pelo desenvolvimento de suas potencialidades e habilidades no esclarecimento de valores e na reflexão crítica, e no engajamento de pessoas em diálogos francos, é uma oportunidade para que instituições, indivíduos e comunidades aumentem sua capacidade de contribuir para uma melhor qualidade de vida.

“Como a EDS desafia a cultura e a prática das comunidades religiosas para contribuir com o desenvolvimento sustentável?” — esta é uma questão importante, a qual as comunidades religiosas estão começando a se fazer. Há ainda muitas iniciativas de inspiração religiosa e baseadas na ética que tratam de objetivos similares, embora não possam ser denominadas de EDS. Relacionado a isso, há uma outra questão importante: “Como as próprias comunidades religiosas podem, por si sós, contribuir com a EDS, e assim, também com uma estratégia para a construção de um mundo sustentável?”

A professora associada Daniella Tilbury é diretora do Instituto
Australiano de Pesquisas em Educação para a Sustentabilidade
(ARIES) da Universidade Macquarie,em Sydney.Ela é a presidente
global em EDS da Comissão para Educação e Comunicação da IUCN. Dimity Podger é candidata a PhD na Universidade Macquarie e
pesquisa questões citadas neste artigo. Ela contata pessoas
envolvidas em organizações religiosas e em
EDS.dpodger@gse.mg.edu.au


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