A Reserva Natural de Baimaxueshan (BMXS) fica no Distrito de Deqin, uma área remota da Província Yunnan, próxima à fronteira da Região Autônoma Tibetana da China. Picos nevados se elevam sobre um alto platô que forma a bacia de três grandes rios asiáticos, o Yang-tsé, o Mekong e o Salween.
Aproximadamente 60 por cento do Distrito de Deqin é formado por florestas e ele é uma das 200 eco-regiões designadas pelo WWF como de importância global. A variedade de espécies dentro da Reserva é enorme, com 922 tipos de plantas que fornecem o habitat para mais de 100 espécies da vida selvagem, incluindo o macaco de nariz arrebitado de Yunnan, o leopardo da neve, o leopardo nublado e a Macaca Assam — todos bem protegidos na China.
Um líder de projeto do
WWF em uma vila da
Reserva Natural BMXS.
A maior ameaça à riqueza dessa espécie é a atividade humana. A caça ilegal, o desmatamento para agricultura, pasto, para extração de lenha e produtos de madeira, bem como o livre trânsito de animais domésticos como iaques, vacas, bodes e ovelhas, todos tiveram sua participação. Mais recentemente, enchentes do Rio Yang-tsé em 1998 causaram grandes desastres e foram atribuídas ao desmatamento das margens.
Como resultado, as florestas naturais da China nas bacias do Yang-tsé e do Rio Amarelo foram completamente fechadas para exploração comercial a partir de 2000, embora o corte de florestas “coletivas” para as necessidades de subsistência das comunidades locais ainda seja permitido.
Uma comunidade sob ameaça Grande parte das terras da Reserva Natural de BMXS é ocupada por uma diversidade de pequenas comunidades étnicas tibetanas amplamente espalhadas pela área. Essas comunidades encontramse entre as mais pobres da China. Seu modo de vida é baseado na agricultura de subsistência, no plantio e na coleta de produtos florestais, o mais importante dos quais é o cogumelo matsutake, colhido nas florestas perenes de carvalho durante a época das chuvas. Como resultado de pressão governamental, a criação de cabras, antes extensa, foi drasticamente reduzida, pois esses animais podem danificar o meio ambiente. Da mesma forma, as comunidades foram encorajadas a abandonar e a reflorestar campos marginais nas encostas mais altas.
Sempre houve conflito entre a Reserva e as comunidades locais que viviam dentro da área protegida, mesmo em seus primórdios. As comunidades e as autoridades estavam em rota de colisão.
Tornou-se claro que o sucesso de qualquer atividade de conservação do meio ambiente na área dependeria do apoio e participação da população local. Simplesmente conscientizar e aplicar a lei não funcionariam; a educação tornou-se imperativa.
O WWF China vinha se envolvendo com a área de Baimaxueshan desde 1992, cooperando com pesquisas sobre o macaco de nariz arrebitado de Yunnan e treinando os funcionários da Reserva. No entanto, a partir de 1996, uma nova dimensão foi adicionada: a educação ambiental.
O Programa de Educação do WWF China iniciou uma série de iniciativas escolares e de educação comunitária. Desde o início, a participação da população local e dos funcionários da reserva foi fundamental.
:: Projetos-modelo
Inicialmente, a comunidade administrativa de Yeri foi escolhida para atuar como modelo e local de demonstração. Essa comunidade é formada pela vila de Yongdui e mais 23 vilas menores. Em outra parte da Reserva, o projeto também envolveu atividades-modelo de proteção ambiental com monges budistas. O objetivo dessa iniciativa piloto foi mobilizar os monges para que levassem mensagens ecológicas e de conservação à comunidade, bem como “praticar o que pregavam”, por exemplo, com o plantio de árvores e a administração de uma montanha sagrada juntamente com a Reserva. Desenvolveram-se planos para estabelecer um Instituto da Comunidade Tibetana de Baimaxueshan, próximo ao Mosteiro de Dongzhuling. Um edifício ecologicamente correto foi projetado e a intenção é que o Instituto funcione como uma eco-escola comunitária modelo em todos os aspectos.
:: Participação é a solução
Monges ensinam
crianças a cuidar
de brotos.
No cerne do projeto encontra-se um processo de aprendizado participativo que possibilita às pessoas identificarem, analisarem e direcionarem as questões e problemas em sua vida e ambiente. O Programa de Educação do WWF China apoiou a instalação de dois Centros de Aprendizado Comunitários (CACs) na comunidade Yeri. Cada CAC possui um comitê de sete membros eleitos pela comunidade.
Os CACs preocupam-se especialmente no aprendizado de toda a comunidade e na reflexão sobre questões sociais e ambientais, resultando em decisões coletivas e ações para melhorar o meio ambiente e a conservação da região.
Uma das principais iniciativas culturais no CAC de Yongdui foi o revivescimento da língua e cultura tibetanas. Por solicitação da comunidade, o CAC oferece aulas de alfabetização na leitura e escrita da língua tibetana e também age como um foro para eventos culturais que destacam a música e dança tibetanas. Essa iniciativa não só construiu um sentimento de auto-estima e realização dentro da comunidade, como também libertou a empatia espiritual com o meio ambiente natural, inerente na língua, cultura e religião tibetanas. Esses fatores culturais foram vitais para ajudar a mudar o contexto social no qual a comunidade vê as questões ambientais.
Os processos educacionais propiciados pelo estabelecimento dos CACs resultaram também em diversas iniciativas ambientais na comunidade. Uma grande porção de terras florestais pertencente à comunidade foi voluntariamente fechada para qualquer forma de utilização. O plantio voluntário de árvores pela comunidade em encostas íngremes e instáveis também foi levado a cabo, em adição a iniciativas de plantio de árvores apoiadas pelo WWF China. Salgueiros foram plantados nas margens do rio para fornecer madeira combustível e a colheita dos cogumelos matsutake foi organizada comunitariamente.
Mas que não haja ilusões. A comunidade deixou
bem
claro que sua motivação não está fundada no
altruísmo...
Fazem por eles mesmos e para as
gerações futuras.
A comunidade também está avaliando seu uso da madeira para construção e combustível. Formas de diminuir a quantidade de madeira necessária estão agora sendo consideradas: por exemplo, a prática muito comum de renovar as placas de madeira nos telhados a cada ano resultou num pedido de auxílio no fornecimento de telhas. Para resolver a questão da dependência excessiva da comunidade com relação à madeira para combustível, iniciou-se um processo de instalação de sistemas à base de biogás em cada domicílio da comunidade.
Nogueiras também foram plantadas em uma encosta acentuada na vila de Yongdui para geração de renda, e ainda foi dado treinamento básico em veterinária a representantes da comunidade.
:: Fazendo por eles mesmos
O resultado de toda essa mudança social foi uma marcante melhoria no relacionamento entre as autoridades e a comunidade: de fato, desde o começo do projeto em 2000, nenhum membro da comunidade foi preso por infringir as leis de conservação. A Polícia Florestal, funcionários da Reserva e a comunidade trabalham agora em parceria em muitas questões de conservação.
Mas que não haja ilusões. A comunidade deixou bem claro que sua motivação não está fundada no altruísmo. Eles não estão fazendo isso pelo governo ou para evitar enchentes. Nem pela Reserva Natural ou para que o WWF preserve os habitats e a vida selvagem; a vida selvagem é freqüentemente um “estorvo”, com lobos atacando seu rebanho doméstico no outono e ursos destruindo suas colheitas de milho. Fazem por eles mesmos e para as gerações futuras. Sua motivação é totalmente pelo interesse próprio, seja espiritual e cultural (revivendo a língua e cultura tibetanas), econômico (pela geração de renda e o aumento dos produtos extraídos da madeira, cada vez mais escassos), ou de segurança (reduzindo o perigo de deslizamentos que ameaçam suas terras e casas e garantindo o fornecimento futuro de água).
Mas, servindo a seus próprios interesses, a comunidade ajuda também os objetivos ambientais e de conservação mais amplos. Iniciou-se um processo que catalisou uma mudança na forma como as pessoas vêem seu meio ambiente local e que, em um período muito curto de tempo, teve um impacto muito real na conservação dentro da área. E porque a comunidade tem “propriedade”, tanto o processo como seus resultados são sustentáveis.
Hamish Aitchison é o coordenador de educação
internacional do WWF-UK.
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