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Outubro/Dezembro
2004

Destaque
A década da educação para o desenvolvimento sustentável
Richard Clugson

A mudança fundamental para a humanidade no século XXI é construir um mundo pacífico onde as sustentabilidades ambiental, social, cultural e econômica sejam cotidianas. Para isso, precisamos mudar nossa perspectiva econômica e valorizar o pleno desenvolvimento humano, em um ecossistema saudável, e ainda eliminar os subsídios de práticas insustentáveis, mudar os padrões de produção e consumo para reduzir a pobreza e apoiar as diversidades cultural e biológica, a justiça social e as futuras gerações.

A Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (DEDS), janeiro de 2005 a dezembro de 2014, será uma oportunidade valiosa para os educadores de todos os tipos colaborarem na criação de um futuro sustentável. Este artigo cita um resumo do Projeto de Implementação Internacional (PII) para a década, elaborado pela Unesco, para estimular um debate sobre a sustentabilidade e a natureza da educação para esse fim.

:: O importante papel da Unesco


Em 2002, reconhecendo que o desenvolvimento sustentável é uma urgente necessidade social e ecológica e que a educação é indispensável para isso, a Assembléia Geral das Nações Unidas declarou a abertura da DEDS e designou a Unesco como a principal agência para sua promoção. Foi, então, solicitado à Unesco que elaborasse o PII, visando estabelecer o relacionamento da DEDS com outras iniciativas globais, especialmente a Educação para Todos, a Marco de Ação de Dakar, a Década das Nações Unidas para a Alfabetização (UNDL) e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Também se espera que a Unesco faça recomendações aos governos sobre como promover e desenvolver a integração da educação para o desenvolvimento sustentável (EDS) e suas respectivas estratégias e planos de ação.

A estratégia da DEDS afirma:

“A educação para o desenvolvimento sustentável é vista como um processo de aprendizado sobre como tomar decisões que considerem os futuros da economia, da ecologia e da igualdade de todas as comunidades no longo prazo. Construir esse pensamento orientado para o futuro é a tarefa-chave da educação.”

É reforçada, então, a noção de que a melhor forma de progresso requer uma educação que cultive o respeito pela diversidade, maior preocupação nas relações entre seres humanos e mundo animal e mais responsabilidade ecológica e social.

Já foi elaborado um relatório-esboço de referência do Programa de Implementação Internacional, que recebeu mais de 2 mil sugestões de participantes; o PII foi apresentado na Assembléia Geral em 2004; e a Unesco elaborou um plano de iniciativas nacionais e esforços regionais e desenvolveu material de divulgação.

O conteúdo e métodos de muitas formas de educação
e treinamento, bem como as mensagens proferidas
pelos meios de comunicação, têm nos condicionado
a viver de maneira irracional.

:: O que é desenvolvimento sustentável?

O sucesso da DEDS depende, em parte, de como partilhamos uma visão comum sobre o significado de desenvolvimento sustentável (DS) e sobre o conteúdo educacional e os processos efetivos para se atingir os objetivos. Como observa a Unesco, “o próprio conceito de DS é vasto e vago — qualquer um pode utilizar seu próprio significado”.

A definição mais utilizada de DS surgiu no relatório de 1987, “Nosso Futuro Comum”, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMAD). DS é o “desenvolvimento que vai ao encontro das necessidades do presente sem comprometer a habilidade das futuras gerações de satisfazer suas necessidades”.

Essa declaração busca encontrar o equilíbrio entre proteção ambiental e maximização de desenvolvimento econômico, especialmente nos países não desenvolvidos. A CMAD estabeleceu o desafio ao qual a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco’92, respondeu. Mais de 170 países adotaram então a Agenda 21, um abrangente conjunto de metas para a criação de um mundo, enfim, equilibrado.

A Declaração de Política de 2002, da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, afirma que o DS é construído sobre “três pilares interdependentes e mutuamente sustentadores” — desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental. Esse paradigma reconhece a complexidade e o interrelacionamento de questões críticas como pobreza, desperdício, degradação ambiental, decadência urbana, crescimento populacional, igualdade de gêneros, saúde, conflito e violência aos direitos humanos.

O PII apresenta quatro elementos principais do DS — sociedade, ambiente, economia e cultura.

Sociedade: uma compreensão das instituições sociais e seu papel na transformação e no desenvolvimento.

Ambiente: a conscientização da fragilidade do ambiente físico e os efeitos sobre a atividade humana e as decisões.

Economia: sensibilidade aos limites e ao potencial do crescimento econômico e seu impacto na sociedade e no ambiente, com o comprometimento de reavaliar os níveis de consumo pessoais e da sociedade.

O quarto elemento — a cultura — é geralmente omitido como parte do DS. Entretanto, valores, diversidade, conhecimento, línguas e visões de mundo associados à cultura formam um dos pilares do DS e uma das bases da EDS.

:: Debate contínuo

Contudo, ainda existe considerável debate sobre o significado de DS, abrangendo desde a ênfase na ecoeficiência e no crescimento econômico sustentável à preocupação com a natureza espiritual de nossa crise global.

A ecoeficiência reconhece que, para sustentar o crescimento econômico de um planeta finito, nossa capacidade de produzir bens e fornecer serviços requer um crescimento múltiplo (talvez dez vezes mais) em eficiência no uso de materiais. Sua ênfase mais importante é melhorar a produtividade por meio da ampla difusão de tecnologias “verdes” inovadoras.


Os Escoteiros da
Terra são um
novo movimento
para crianças e
jovens nos
Estados Unidos
que se baseia na
Carta da Terra.

Daisaku Ikeda, presidente da SGI, enfatiza a importância dos valores espirituais no ensaio “Educação para um Futuro Sustentável”. Ele cita a Declaração de Thessaloniki (Grécia, 1997): “A sustentabilidade é, numa análise final, um imperativo moral e ético em que a diversidade cultural e o conhecimento tradicional precisam ser respeitados.”

Ikeda reconhece a necessidade de um conjunto de valores comuns, tal como a Carta da Terra, e declara: “No âmago dos valores que buscamos, deve haver profunda reverência pela vida. Esse respeito e reverência podem despertar nas pessoas um sentimento de conexão com todas as formas de vida com que partilhamos essa Terra hoje, bem como um senso de unicidade com as futuras gerações.”


:: A Carta de Terra

A Carta da Terra procura sintetizar a diversidade de perspectivas com relação ao desenvolvimento sustentável numa visão comum. Ela é uma declaração internacional dos princípios fundamentais para a construção de um mundo justo, prudente e pacífico. É o produto de um diálogo intercultural mundial sobre os objetivos e valores comuns integrando o ambiente e as dimensões econômicas e sociais de nossas preocupações globais. Iniciada na Eco’92, levou uma década para ser concluída.

A 32ª Conferência Geral da Unesco adotou recentemente uma resolução que reconhece a Carta da Terra como importante conjunto ético para o DS e uma valiosa ferramenta educacional. A Unesco está planejando usá-la como instrumento educacional durante a DEDS.

Os primeiros quatro princípios desse documento fornecem um resumo de sua visão ética:


Mary Shumo,
especialista em
educação ambiental
na Tanzânia (terceira
a partir da direita)
com mulheres da
Zâmbia.

1. Respeitar a Terra e a vida, reconhecendo a independência e o valor intrínseco de todos os seres;

2. Cuidar da comunidade, da vida e de toda a sua diversidade;

3. Buscar a edificação de sociedades livres, justas, participativas, sustentáveis e pacíficas;

4. Garantir a abundância e a beleza da Terra para as gerações atuais e futuras.


A promessa da Carta da Terra é fornecer uma visão ética com desenvolvimento sustentável, estabelecendo um corpo consultivo global amplamente participativo. Ela pode ajudar a articular um novo raciocínio para as políticas econômicas e sociais orientadas não para ganhos econômicos de curto prazo, mas para o pleno florescimento da vida.

Como afirma Steven Rockfeller, presidente do comitê de elaboração da Carta da Terra: “A carta focaliza os desafios e escolhas sociais e ecológicas, questões críticas para a humanidade, e enfatiza que, numa análise final, o problema é ético.” (Veja em www.earthcharter.org)

:: O desafio educacional

O desafio é chegar a uma visão comum do significado de DS e a uma agenda prática para isso. O processo da Carta da Terra, os resultados das várias reuniões de cúpula das Nações Unidas e dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio oferecem um conjunto de princípios, objetivos e ações práticas para esse enfrentamento. Uma das tarefas da DEDS é consolidar esses importantes esforços globais em um programa coerente e administrável. Outra é moldar a educação, o treinamento e as iniciativas de consciência pública que preparam os indivíduos, as organizações e os governos para uma vida sustentável nos diversos contextos sociais e culturais.

O conteúdo e os métodos de muitas formas de educação e treinamento, bem como as mensagens proferidas pelos meios de comunicação, têm nos condicionado a viver de maneira irracional. Como salienta Robert Bellah em sua obra Habits of the Heart, todas as religiões e filosofias nos ensinam que não se pode viver bem por meio de consumo desmedido — mesmo que essa seja exatamente a mensagem pregada a nós pela propaganda e pela economia globalizada.

A EDS nos incentiva a comportamentos e práticas
que nos levem a viver de forma plena sem privação
do básico.

A questão crítica é: que tipo de educação é necessária para que trilhemos nossos vários caminhos, culturais ou de outra natureza, rumo à sustentabilidade?

Em seu PII, a Unesco declara que a educação para o desenvolvimento enfatiza fundamentalmente valores, com especial atenção para o respeito. “Respeito pelos outros, das gerações de hoje e futuras, pela diferença e diversidade, pelo meio ambiente e pelos recursos do planeta que habitamos. A educação nos possibilita a autocompreensão e a compreensão dos outros e de nossas relações com os ambientes natural e social, o que serve como base durável para a construção do respeito. Junto desse senso de justiça, responsabilidade, exploração e diálogo, a educação para o desenvolvimento sustentável nos incentiva a comportamentos e práticas que nos levem a viver de forma plena sem privação do básico.”

De acordo com a Unesco, a EDS abrange:

Interdisciplinaridade e holismo — ensino do desenvolvimento sustentável atrelado ao currículo como um todo, não como matéria separada;

Direcionamento — partilha dos valores e princípios que fundamentam o desenvolvimento sustentável;

Pensamento crítico e resolução dos problemas — confiança no direcionamento dos dilemas e desafios do desenvolvimento sustentável;

Método múltiplo — palavra, arte, drama, debate, experiência, diferentes pedagogias que modelam o processo;

Tomada de decisão participativa — envolvimento dos iniciantes nas decisões sobre seu próprio método de aprendizado;

Relevância local — direcionamento das questões locais e globais e utilização de linguagem comum aos iniciantes. A educação para o DS é destinada a todos, e sua perspectiva de aprendizagem é para a vida inteira, envolvendo os espaços possíveis para o aprendizado, formal ou informal, da infância até a fase adulta. A EDS defende a reorientação das abordagens educacionais — curriculares, de conteúdo, pedagógicas e os exames de avaliação. Os espaços de instrução podem incluir o ensino informal, organizações comunitárias e a sociedade civil local, o lugar de trabalho, a educação formal, o treinamento técnico e vocacional, organismos de cunho político e muito mais.

Cada um de nós é desafiado a reformar os vários sistemas educacionais que tocam a nossa vida, em nossas várias comunidades. Cada um de nós é desafiado a se relacionar com os outros no amplo contexto da educação sustentável.

Obtenha mais informações em www.unesco.org/education/desd/ ou entre em contato com esddeade@unesco.org.

Richard Clugson é diretor-executivo Centro de Respeito pela Vida
e Ambiente, Washington DC, e editor Earth Ethics. Ele dirige o secretariado Universidade de Líderes para um Futuro Sustentável
e integra o Comitê Executivo da Iniciativa da Carta da Terra.


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