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Outubro/Dezembro
2005

Destaque
Uma visão para a Terra
Entrevista com Robert Muller


SGIQ: O que a ONU é para o senhor e o que gostaria ela que se tornasse?

RM: Por um lado, a ONU é essencial e, por outro, é insuficiente para o que os problemas do mundo se tornaram e requerem. É bom que as Nações Unidas tenham sobrevivido e crescido após a Segunda Guerra Mundial. Após a Primeira, a Liga das Nações não sobreviveu, e tivemos a Segunda. O fato de termos as Nações Unidas, que praticamente é composta por todos os governos do mundo, é vital para se evitar quaisquer conflitos que se desenvolvam em uma guerra mundial.

Além disso, a ONU criou e conectou 32 outras agências especializadas em todo o mundo, capazes de olharem para os novos problemas fundamentais, como superpopulação, problemas com a água, mudanças no clima etc. Eu me juntei às Nações Unidas ainda jovem, em 1948, e questionava se ela sobreviveria. E sobreviveu.

A ONU foi criada pelos governos
e para a humanidade. Hoje, em minha opinião,
a prioridade é a Terra.

Mas as Nações Unidas ficaram distanciadas pelos novos problemas, e é por isso que agora está para ocorrer, pela primeira vez, um estudo para a sua reforma total. Se a conferência mundial para essa reforma vai ser bem-sucedida, ainda não sabemos. Pode não ser imediato, pois alguns governos talvez não queiram ver as mudanças ocorrerem muito rapidamente.

Novas prioridades

SGIQ: Quais são as principais mudanças que o senhor gostaria de ver?

RM: Uma delas seria ir além do conceito de meramente manter a paz. Uma guerra mundial é praticamente fora de questão. A maioria das guerras hoje ocorre dentro de países, e geralmente a ONU não pode fazer muito, pois não lhe é permitido intervir em problemas locais e nacionais.


Educação é a chave para uma comunidade global.
Meu sonho é que a ONU seja fortalecida por toda uma série de medidas, por exemplo, estabelecer uma representação de todos os parlamentos do mundo, para que as pessoas tenham voz nas Nações Unidas — o que não ocorre hoje porque as Nações Unidas obtêm suas recomendações somente pelos ministérios de Relações Exteriores e nas reuniões das Assembléias Gerais.

Outro sonho seria que a ONU assumisse questões incomuns, como o desenvolvimento de modos de vida para se chegar à paz no mundo. Não falamos muito sobre felicidade, embora existam certas constituições, como a americana, que dá ao governo o papel de assegurar a felicidade das pessoas.

Também deveria haver maior cooperação para mostrar ao resto do mundo o que a União Européia tem feito, como eliminar as fronteiras entre 25 países para criar uma Europa unida.

Quando eu era criança, pensava que viver,
estar vivo, era um milagre.

Além disso, desenvolver a noção de Amor — de que devemos amar nossa Terra, nossos céus e nossa água. Devemos viver com a natureza, e devemos evitar em absoluto o extermínio de tantas espécies devido à nossa falta de atenção. Por que permitimos que uma espécie desapareça do nosso planeta a cada cinco horas? Isso significa que perderemos 84 mil espécies nos próximos 50 anos!


Jovens tchecos celebram o ingresso de seu país na União Européia.
Estamos destruindo a nossa Terra. A ONU foi criada pelos governos e para a humanidade. Hoje, em minha opinião, a prioridade é a Terra. Não podemos continuar a matar a nossa Mãe Terra. A humanidade é apenas uma de suas partes, e devemos nos comportar de forma que toda ela seja preservada.

Cidadãos globais

SGIQ: Muitas pessoas imaginam o que realmente a ONU deveria fazer.

RM: Um dos problemas é que a ONU e seu trabalho global não é ensinado às crianças nas escolas e não é recebido com interesse pela mídia. Os governos devem assegurar que as decisões, idéias e preocupações que surgem na ONU sejam levadas às pessoas. E também que as pessoas saibam que há muitas coisas que fazem parte de sua vida diária e que foram levadas a elas pela ONU. Como os sinais de trânsito — o fato de o vermelho significar “não cruze” e outros. Eu estava em uma reunião quando surgiu a idéia de que precisávamos dos mesmos sinais de trânsito em todos os países do mundo. E há muitos outros exemplos. As pessoas não são informadas sobre a ONU. A reforma deveria procurar levá-la para mais perto das pessoas, porque elas são as Nações Unidas dos povos, e não apenas dos governos.

Nas escolas de hoje ensinam às crianças sobre o país em que vivem. Somente muito mais tarde, fala-se sobre o mundo todo e sobre o Universo, mas não com entusiasmo.

Nos últimos 10 mil anos, em meio às formas de vida neste planeta, os humanos vivem pelo mundo em grupos muito distintos e separados uns dos outros. Recentemente, nos últimos cem anos, descobrimos que estamos sobre um globo! Desde então, as pessoas têm entrado em contato umas com as outras pelas guerras — às vezes também por meio de cooperação. É muito difícil, considerando a educação em certo idioma, em determinados princípios e modos de alimentação, que se compreenda outras pessoas sem se desgostar delas. Grupos querem permanecer em grupos. Assim, a educação é a chave para a nossa comunidade global.

SGIQ: O que faz o senhor permanecer otimista com relação ao futuro?

RM: Quando eu era criança, vivia na Alsácia Lorena numa região muito pobre, perto de uma fronteira que não queriam que eu cruzasse. Sabendo que as pessoas do outro lado tinham nomes semelhantes e falavam a mesma língua, eu pensava: “Por que essas pessoas são diferentes? Por que existe essa fronteira aqui que não devemos cruzar?” Também quando eu era criança, pensava que viver, estar vivo, era um milagre. E então descobri que tínhamos guerras. Nossa cidade foi evacuada duas vezes. Deram-nos três horas para partir — uma cidade de três mil pessoas — e ir viver no sul, como refugiados da França. Vi tantos horrores entre a França e a Alemanha na Segunda Guerra Mundial que jurei que passaria o resto da minha vida trabalhando pela paz neste planeta.


Alunos da República dos Camarões aprendem
sobre a floresta tropical.
E continuei a fazer isso também porque libertei vinte jovens alemães que ouviram falar que se fossem pegos pela França seriam mortos. E eu lhes prometi: “Nós não mataremos vocês.” Eles se renderam. Tive de ajudar a libertar uma outra cidade e, quando voltei, perguntei onde estavam aqueles jovens alemães. Todos eles haviam sido mortos pelo nosso comandante. Eu jurei pela memória daqueles vinte jovens que faria tudo pela paz neste planeta!

Uma razão para a esperança

Eu amo este planeta. Amo os céus. Amo a natureza. Amo as pessoas. Eu amo a diversidade. Aos 82 anos, acordo pela manhã e venho com uma nova idéia para um mundo melhor! É importante manter uma visão positiva, pois uma visão positiva ajuda a resolver os problemas.

Por que essas pessoas são diferentes?
Por que existe essa fronteira aqui que não
devemos cruzar?

No geral, penso que as pessoas estão agindo muito bem. Elas não querem guerras. Quando estava nas Nações Unidas, muitos chefes de Estado nos visitavam. Eu era convidado para os almoços e sempre lhes perguntava: “O senhor iniciaria uma guerra para conquistar algum território de seu vizinho?” E eles sempre olhavam para mim como se eu fosse um louco e me diziam: “Por que devemos? Por que não permanecer dentro de nossas fronteiras?” Isso é totalmente diferente da forma como era no início do século XX.

Nosso planeta é único. Até agora, não encontramos um outro que tenha vida. As coisas são muito complexas e cometemos muitos erros, mas estamos evoluindo. Devemos fazer deste planeta Terra o paraíso Terra. Este deve ser o nosso objetivo, e podemos chegar lá, mas temos de trabalhar muito, realmente muito, como uma única comunidade global.

Robert Muller foi assistente do secretário-geral das Nações Unidas e atuou
na organização durante 38 anos até aposentar-se em 1986. Ele é Chanceler Emérito da Universidade da Paz, estabelecida pela ONU na Costa Rica. Seu livro clássico, Most of All They Taught Me Happiness (Acima de Tudo, Eles me Ensinaram a Felicidade) e suas idéias para um mundo melhor podem ser encontradas em www.robertmuller.org


Minhas expectativas da ONU no século XXI
Socheth Sok

Este ano marca o 60º aniversário das Nações Unidas. Também marca o 30º aniversário do sofrimento do povo cambojano sob o regime do Khmer Vermelho, quando por volta de dois milhões de pessoas foram mortas nos “campos de matança”. Esse genocídio jamais deve ser permitido novamente nesta preciosa Mãe Terra.

Os próximos 30 anos e mais devem ser anos de felicidade. Espero, portanto, que as Nações Unidas se tornem uma organização verdadeiramente humana, cujos membros trabalhem de forma abnegada em benefício de toda a humanidade. Espero que a ONU empreenda esforços efetivos para redirecionar seu foco e cumprir a missão de sua Carta.

Minha esperança é a de que as Nações Unidas fortaleçam o equilíbrio de poder entre os seus estados-membros, independentemente de suas contribuições, e que a cooperação e a comunicação dentro da organização e com as ONGs seja fortalecida visando a cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio; que a paz e a segurança humana para todos os povos seja uma realidade. Espero que as Nações Unidas se tornem uma força efetiva para a prevenção de conflitos e que a ameaça da guerra nuclear finalmente seja removida. E ainda, que seja dado apoio aos movimentos de democratização dos países do Sudeste Asiático.

Socheth Sok é uma estudante cambojana da Universidade Soka da América.


Minha visão como jovem pelo futuro da ONU
Sylvannus S. Murray

Os jovens são os líderes do amanhã e, por todo o mundo, eles assegurarão a existência prolongada das Nações Unidas e darão um significado mais preciso às suas metas e objetivos. Assim, ter suas vozes ouvidas na formulação política e na tomada de decisões é vital. Espero, portanto, que as Nações Unidas vejam a capacitação e o emprego dos jovens como um ponto de referência para possibilitar o desenvolvimento dos países-membros e conceder assistência financeira aos lugares onde os jovens continuam a ser marginalizados.

Se as Nações Unidas aparentarem estar em ritmo lento em suas realizações, na concretização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e para aumentar as esperanças dos jovens quanto à sua capacitação, surgirão tensões. O desenvolvimento sustentável, relacionado à promoção da boa governança, da democracia, do papel das leis, dos direitos humanos e desenvolvimento dos jovens, não pode ser concretizado sem a compreensão dos objetivos e aspirações dos jovens, ao mesmo tempo em que persuadem os governos a colocar os interesses dos jovens no centro da formulação política.

Sylvannus Murray trabalha no escritório de informações públicas da Missão da ONU em Serra Leão. Atua como líder juvenil em âmbito nacional e internacional há dez anos.


Nossa humanidade comum
Moni Shrestha

Embora a ONU seja descrita algumas vezes como muito burocrática e lenta para ser efetiva, tenho grandes esperanças quanto ao seu futuro, já que seu próprio conceito representa um ideal de cooperação global e democracia.

Acredito que o desafio da época atual seja as pessoas focarem seu pensamento para além de seus interesses imediatos e esforçarem-se por respeito mútuo e pela descoberta de uma forma que transcenda as diferenças entre elas por meio do diálogo. O mesmo vale para as nações e seus governos. Se conseguirmos pensar “globalmente” não apenas em termos de vantagens econômicas, mas também em relação à nossa humanidade comum e com uma visão de longo prazo dos recursos que são o planeta que habitamos, então haverá esperança de paz. Não é a existência da ONU em si que pode fazer a diferença, mas a postura e a coragem de cada um de seus estados-membros e, definitivamente, de cada um de seus cidadãos. Minha esperança é de que, no futuro, usemos o pleno potencial da rede das Nações Unidas e de suas agências, muito mais do que suas atuais atividades, e a desenvolvamos como um verdadeiro fórum para o diálogo.

Moni Shrestha é alemã. Ela trabalha para uma ONG de direitos humanos em Londres.



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