Além disso, a ONU criou e conectou 32 outras agências especializadas em todo o mundo, capazes de olharem para os novos problemas fundamentais, como superpopulação, problemas com a água, mudanças no clima etc. Eu me juntei às Nações Unidas ainda jovem, em 1948, e questionava se ela sobreviveria. E sobreviveu.
A ONU foi criada pelos governos
e para a humanidade. Hoje, em minha opinião,
a prioridade é a Terra.
|
Mas as Nações Unidas ficaram distanciadas pelos novos problemas, e é por isso que agora está para ocorrer, pela primeira vez, um estudo para a sua reforma total. Se a conferência mundial para essa reforma vai ser bem-sucedida, ainda não sabemos. Pode não ser imediato, pois alguns governos talvez não queiram ver as mudanças ocorrerem muito rapidamente.
Novas prioridades
SGIQ: Quais são as principais mudanças que o senhor gostaria de ver?
RM: Uma delas seria ir além do conceito de meramente manter a paz. Uma guerra mundial é praticamente fora de questão. A maioria das guerras hoje ocorre dentro de países, e geralmente a ONU não pode fazer muito, pois não lhe é permitido intervir em problemas locais e nacionais.
Educação é a chave para uma comunidade global.
|
Meu sonho é que a ONU seja fortalecida por toda uma série de medidas, por exemplo, estabelecer uma representação de todos os parlamentos do mundo, para que as pessoas tenham voz nas Nações Unidas — o que não ocorre hoje porque as Nações Unidas obtêm suas recomendações somente pelos ministérios de Relações Exteriores e nas reuniões das Assembléias Gerais. |
Outro sonho seria que a ONU assumisse questões incomuns, como o desenvolvimento de modos de vida para se chegar à paz no mundo. Não falamos muito sobre felicidade, embora existam certas constituições, como a americana, que dá ao governo o papel de assegurar a felicidade das pessoas.
Também deveria haver maior cooperação para mostrar ao resto do mundo o que a União Européia tem feito, como eliminar as fronteiras entre 25 países para criar uma Europa unida.
Quando eu era criança,
pensava que viver,
estar vivo,
era um milagre. |
Além disso, desenvolver a noção de Amor — de que devemos amar nossa Terra, nossos céus e nossa água. Devemos viver com a natureza, e devemos evitar em absoluto o extermínio de tantas espécies devido à nossa falta de atenção. Por que permitimos que uma espécie desapareça do nosso planeta a cada cinco horas? Isso significa que perderemos 84 mil espécies nos próximos 50 anos!
Jovens tchecos celebram o ingresso de seu país na União Européia.
|
Estamos destruindo a nossa Terra. A ONU foi criada pelos governos e para a humanidade. Hoje, em minha opinião, a prioridade é a Terra. Não podemos continuar a matar a nossa Mãe Terra. A humanidade é apenas uma de suas partes, e devemos nos comportar de forma que toda ela seja preservada. |
Cidadãos globais
SGIQ: Muitas pessoas imaginam o que realmente a ONU deveria fazer.
RM: Um dos problemas é que a ONU e seu trabalho global não é ensinado às crianças nas escolas e não é recebido com interesse pela mídia. Os governos devem assegurar que as decisões, idéias e preocupações que surgem na ONU sejam levadas às pessoas. E também que as pessoas saibam que há muitas coisas que fazem parte de sua vida diária e que foram levadas a elas pela ONU. Como os sinais de trânsito — o fato de o vermelho significar “não cruze” e outros. Eu estava em uma reunião quando surgiu a idéia de que precisávamos dos mesmos sinais de trânsito em todos os países do mundo. E há muitos outros exemplos. As pessoas não são informadas sobre a ONU. A reforma deveria procurar levá-la para mais perto das pessoas, porque elas são as Nações Unidas dos povos, e não apenas dos governos.
Nas escolas de hoje ensinam às crianças sobre o país em que vivem. Somente muito mais tarde, fala-se sobre o mundo todo e sobre o Universo, mas não com entusiasmo.
Nos últimos 10 mil anos, em meio às formas de vida neste planeta, os humanos vivem pelo mundo em grupos muito distintos e separados uns dos outros. Recentemente, nos últimos cem anos, descobrimos que estamos sobre um globo! Desde então, as pessoas têm entrado em contato umas com as outras pelas guerras — às vezes também por meio de cooperação. É muito difícil, considerando a educação em certo idioma, em determinados princípios e modos de alimentação, que se compreenda outras pessoas sem se desgostar delas. Grupos querem permanecer em grupos. Assim, a educação é a chave para a nossa comunidade global.
SGIQ: O que faz o senhor permanecer otimista com relação ao futuro?
RM: Quando eu era criança, vivia na Alsácia Lorena numa região muito pobre, perto de uma fronteira que não queriam que eu cruzasse. Sabendo que as pessoas do outro lado tinham nomes semelhantes e falavam a mesma língua, eu pensava: “Por que essas pessoas são diferentes? Por que existe essa fronteira aqui que não devemos cruzar?” Também quando eu era criança, pensava que viver, estar vivo, era um milagre. E então descobri que tínhamos guerras. Nossa cidade foi evacuada duas vezes. Deram-nos três horas para partir — uma cidade de três mil pessoas — e ir viver no sul, como refugiados da França. Vi tantos horrores entre a França e a Alemanha na Segunda Guerra Mundial que jurei que passaria o resto da minha vida trabalhando pela paz neste planeta.
Alunos da República dos Camarões aprendem
sobre a floresta tropical. |
E continuei a fazer isso também porque libertei vinte jovens alemães que ouviram falar que se fossem pegos pela França seriam mortos. E eu lhes prometi: “Nós não mataremos vocês.” Eles se renderam. Tive de ajudar a libertar uma outra cidade e, quando voltei, perguntei onde estavam aqueles jovens alemães. Todos eles haviam sido mortos pelo nosso comandante. Eu jurei pela memória daqueles vinte jovens que faria tudo pela paz neste planeta! |
Uma razão para a esperança
Eu amo este planeta. Amo os céus. Amo a natureza. Amo as pessoas. Eu amo a diversidade. Aos 82 anos, acordo pela manhã e venho com uma nova idéia para um mundo melhor! É importante manter uma visão positiva, pois uma visão positiva ajuda a resolver os problemas.
Por que essas pessoas são diferentes?
Por que existe essa fronteira aqui que não
devemos cruzar? |
No geral, penso que as pessoas estão agindo muito bem. Elas não querem guerras. Quando estava nas Nações Unidas, muitos chefes de Estado nos visitavam. Eu era convidado para os almoços e sempre lhes perguntava: “O senhor iniciaria uma guerra para conquistar algum território de seu vizinho?” E eles sempre olhavam para mim como se eu fosse um louco e me diziam: “Por que devemos? Por que não permanecer dentro de nossas fronteiras?” Isso é totalmente diferente da forma como era no início do século XX.
Nosso planeta é único. Até agora, não encontramos um outro que tenha vida. As coisas são muito complexas e cometemos muitos erros, mas estamos evoluindo. Devemos fazer deste planeta Terra o paraíso Terra. Este deve ser o nosso objetivo, e podemos chegar lá, mas temos de trabalhar muito, realmente muito, como uma única comunidade global.