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Uma parceria de trabalho — a ONU e a sociedade civil
Entrevista com Gillian Sorensen
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SGIQ: Para a senhora, qual seria o papel positivo da sociedade civil nas Nações Unidas?
Gillian Sorensen: Acho que o papel da sociedade civil é essencial e indispensável para as Nações Unidas. Ou seja, na visão de muitos, é a voz autêntica das pessoas. São as ações dos cidadãos, de muitas formas e em muitas questões. Há 4.200 ONGs registradas na ONU. |
Naturalmente, essa é apenas uma fração da sociedade civil no mundo. E elas realizam um bom trabalho: educam, mobilizam, divulgam, dramatizam, arrecadam fundos, conscientizam e fazem lobby. Todas são realmente muito importantes. Algumas trabalham na linha de frente, especialmente aquelas envolvidas na questão dos refugiados, e outras estão mais envolvidas com atividades políticas, ou na educação, tentando inspirar os representantes políticos a agirem e a votarem em apoio às questões das Nações Unidas. Assim, a sociedade civil é muito diversa e abrangente. O secretário-geral tem se referido às ONGs como “nossas parceiras essenciais”. Creio que seja um bom termo.
Eles se sentavam nos cantos da sala.
Somente observavam e ouviam, não participavam.
A grande maioria não criticava.
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Um novo relacionamento
SGIQ: Como o papel e o impacto da sociedade civil tem se transformado?
GS: Tem se transformado e muito. No início, em 1945, quando a Carta foi elaborada, podemos ver retratos de delegados trabalhando. Havia cerca de 50 representantes de ONGs trabalhando naquela época.
A ONG Caritas Nigéria está na vanguarda dos esforços para diminuir a desnutrição infantile na recente
crise na Nigéria.
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Eles se sentavam nos cantos da sala. Somente observavam e ouviam, não participavam. A grande maioria não criticava. Haviam ido lá para prestar apoio e seguir os procedimentos. Das 50, com exceção de uma, todas ainda estão ativas. O Rotary, por exemplo, os escoteiros e as bandeirantes, vários grupos pacifistas e cerca de 15 ou 20 ONGs de âmbito religioso. |
Mas, como se transformaram? Hoje, as ONGs são muito mais conscientes politicamente. Elas sabem que não é suficiente apenas sentar-se e ouvir. Querem se envolver, participar, e insistem nisso. Nas Nações Unidas de hoje, nenhuma grande conferência é planejada sem considerar desde o início a questão sobre “Como envolveremos a sociedade civil?”. Não apenas no evento, mas no planejamento e na preparação da conferência. Creio que o grau de experiência, superação e habilidades com o qual elas mobilizam e divulgam as questões é realmente impressionante.
Há dois bons exemplos recentes. Como a movimentação para criar a convenção que baniu as minas terrestres. Foram as ONGs que o conduziram. Elas tinham um interesse veemente nessa questão e criaram muita publicidade em apoio ao banimento das minas terrestres e para reduzir ou proibir a fabricação ou venda das minas terrestres e tornar muito vívidas suas conseqüências. Fizeram um grande trabalho e realmente estão muito à frente dos governos nisso.
Um workshop de ONGs durante
a 57ª
Conferência Anual do Departamento de Informação Pública da ONU. |
Outro exemplo foi o trabalho feito para o Tribunal Penal Internacional. As ONGs eram especialistas nesse sentido e muito boas em responder às críticas ou preocupações e em persuadir os governos sobre o porquê isso era importante, de interesse nacional e de interesse global estabelecer o Tribunal Penal Internacional. |
Necessidade de coordenação
SGIQ: Que tipo de transformações a senhora gostaria de ver no futuro?
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Um pôster da Rede Australiana para Abolição de Minas Terrestres. |
GS: Espero que nas áreas de interesse comum, as ONGs façam um grande esforço para colaborarem ou coordenarem seus esforços, pois a ONU está cheia de solicitações por informações, palestrantes e acesso. Por exemplo, há centenas de ONGs de direitos humanos e sua ênfase particular pode variar de um grupo para outro, mas no geral, têm uma causa comum. Na medida em que essas ONGs possam falar em uma só voz, aumentam seu impacto, o que torna muito mais fácil para a ONU trabalhar com elas.
Na medida em que essas ONGs
possam falar em uma só voz, aumentam seu
impacto, o que torna muito mais fácil para a
ONU trabalhar com elas.
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SGIQ: A senhora vê espaço para algum tipo de fórum da sociedade civil ou para uma assembléia paralela à Assembléia Geral?
GS: Na verdade, eu não sou a favor de uma assembléia popular permanente. É muito cara e as questões que levanta são: Quem nomear? Quem seleciona as pessoas? A quem ela representa? O que eu pessoalmente apóio e encorajo são encontros que enfoquem uma questão em particular que venham até as Nações Unidas e mobilizem ONGs importantes nesse sentido. Se você considerar toda a gama de questões que as Nações Unidas direcionam, penso que é muito para um único encontro. E você poderia se perguntar: Se for um fórum permanente, quem o custeará? Onde, de fato, seria realizado?
SGIQ: Como a coordenação entre a sociedade poderia ser melhorada?
GS: A Internet mudou tudo. Como hoje a comunicação anda rapidamente entre a comunidade de ONGs e dos escritórios da ONU para a sociedade civil, e como o fluxo de comunicação é muito mais aberto, a habilidade das autoridades das Nações Unidas de falar com as ONGs e de trabalhar em conjunto é muito mais ampla do que nas primeiras décadas. Penso que as pessoas realmente se sentem unidas e conectadas. É quase uma tradição que as ONGs não reclamem de nada quando obtém informação e acesso suficiente, mas em meus anos nas Nações Unidas, tenho visto elas se tornarem muito mais acessíveis e creio que a ONU está fazendo um esforço notável para ter uma parceria realmente colaborativa. Tenho ouvido o secretário-geral dizer que a ONU não pode fazer isso sozinha. Olhe para todas as ONGs que alcançam milhões de pessoas — elas são como uma infantaria, uma poderosa e pacífica infantaria. São as vozes no campo, na linha de frente e nas capitais em todo o mundo, conduzindo mensagens e fazendo os políticos saberem que seus cidadãos se importam e votam, e elas querem que seus representantes políticos percebam isso.
Tensão criativa
Descobri que, em sua maioria, o relacionamento entre a sociedade civil e a ONU é construtivo, ativo e saudável, mas há uma coisa que me preocupa. Há um punhado de ONGs que conquistaram reconhecimento, realmente poucas, e que, de fato, não apóiam os objetivos da ONU nem seus propósitos históricos. Isso criou alguns problemas reais. Como disse, é um número pequeno, mas é um sinal de que a ONU deve se preparar para ter ONGs em seu meio que de fato se opõem aos seus objetivos históricos.
SGIQ: Mas, na maior parte, a senhora vê um relacionamento saudável?
GS: Sim, vejo. Mas está evoluindo e sempre há uma certa tensão, uma tensão criativa. A sociedade civil é independente, tem liberdade e flexibilidade, o que a ONU muitas vezes não tem. A sociedade civil quer se mover rapidamente e assim, sempre existe um certo grau de tensão. E nós reconhecemos isso e tentamos trabalhar com isso, o que não é necessariamente ruim, mas é porque você está conversando com duas entidades completamente diferentes. A ONU é essencialmente uma organização voluntária de governos. E a sociedade civil é uma associação voluntária, livre e independente de cidadãos que falam por si sós. Assim, chegamos a esse ponto vindos de duas direções diferentes. O relacionamento entre a ONU e a sociedade civil é construtivo e extremamente importante. E eu espero e acredito que ele florescerá e crescerá no século XXI.
Gillian Sorensen é ex-assistente da Secretaria-Geral no Escritório de
Relações Exteriores das Nações Unidas e, atualmente, conselheira sênior
e defensora nacional da Fundação das Nações Unidas.
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