Um encontro oportuno
A carreira de 52 anos de Betty Teslenko nas Nações Unidas começou nos céus noturnos de abril de 1945. Como uma estratégia de sobrevivência econômica da era da depressão, ela havia aprendido estenografia e trabalhado como escrivã durante certo tempo. Em seus anos de estudante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, estudou francês, e muitos de seus professores eram refugiados da Europa que haviam fugido da opressão fascista. Durante o longo vôo entre Nova York e Chicago, ela iniciou uma conversa com um passageiro que não conseguia dormir, e este ficou fascinado com sua rara combinação de talentos: tomar notas estenográficas e línguas estrangeiras (incluindo a habilidade de decifrar sotaques de inglês).
“Eu disse que ela precisava estar lá,
no centro das ações, e sentir que fazia
realmente algo importante...
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O passageiro era um funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Ele sugeriu que ela largasse seu emprego como comissária de vôo e voltasse para sua terra natal, São Francisco, onde uma importante conferência que necessitava de suas habilidades seria realizada. Ela aceitou e logo se viu na Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, que culminou na assinatura da Carta das Nações Unidas em 26 de junho de 1945. Relatando seu primeiro dia de trabalho, Betty, que esperava um período de orientação ou de treinamento, viu-se em um recinto lotado de primeiros-ministros das forças aliadas, entre eles, Anthony Eden, Vyacheslav Molotov e Edward Stettinius. “Eu pensei que havia morrido e que estava no céu. Não tínhamos equipamento de som e trabalhávamos noite e dia. Mas jamais vivi outro período em minha vida que tivesse representado tanto para mim. As pessoas que participavam da conferência vieram da guerra, estiveram em campos de concentração, lutaram na Resistência. Para muitos deles, correr para abrigos durante os ataques aéreos foi rotina durante muito tempo e, se as luzes podiam ficar acesas durante a noite, elas paravam e admiravam. São Francisco abrira seus braços para nós. Havia lá muita esperança. Era um lugar fantástico para estar. E eu jamais me arrependi.”
Fazendo a diferença
Relembrando uma longa e agitada carreira, Betty Teslenko recorda o que sentiu ao integrar o centro das ações nas reuniões do Conselho de Segurança e em outras. Ela continuou a trabalhar até chegar à idade da aposentadoria obrigatória, aos 60 anos, e retornou mais tarde não como funcionária de carreira, mas como profissional contratada, totalizando 52 anos de serviço nas Nações Unidas. Ela descreve sua reação diante de uma neta que não conseguia acreditar nesse extraordinário tempo de serviço: “Eu disse que ela precisava estar lá, no centro das ações, e sentir que fazia realmente algo importante... As pessoas conhecem apenas os fins políticos das Nações Unidas, mas a organização tem feito muito em outros campos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) erradicou a varíola. A Crise de Berlim (1948–49) foi solucionada nos saguões dos delegados das Nações Unidas, quando os representantes russos e americanos encontraram uma forma de resolver a crise sem conflitos.”
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Mel Silverman começou a trabalhar
na ONU em 1946 na seção de
documentos. Ele tornou-se chefe
da Divisão de Transportes e
aposentou-se em 1980.
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Ao lhe perguntarem sobre seu momento mais emocionante nas Nações Unidas, ela responde sem hesitar: “Quando Nelson Mandela discursou nas Nações Unidas. Pois todos os anos a partir de 1947, tínhamos a questão da África do Sul nas Nações Unidas. Passar 27 anos na prisão na Ilha Robben e não ser vingativo! Quem diria que esse homem gentil poderia se tornar o presidente do país que tentara matá-lo!” Para resumir seus sentimentos em relação às Nações Unidas, ela também é clara: “Não creio que seja ingênua a respeito das deficiências das Nações Unidas, mas é vital que os países tenham um local onde possam se reunir, conversar e tentar trabalhar suas diferenças de forma pacífica. As pessoas da geração que criou as Nações Unidas experimentaram muita guerra e destruição. Eu acredito que sem essa organização, já teria ocorrido uma guerra nuclear. E espero que a geração de hoje trabalhe para assegurar que continue a ser assim.”
Espírito de internacionalismo
Mel Silverman havia acabado de ser dispensado de três anos de serviço militar e estava indeciso sobre o que fazer na vida quando soube das Nações Unidas por um amigo. O colega disse-lhe que a nova organização, então sediada no Bronx, em Nova York, precisava de uma grande quantidade de pessoas de talento. O amigo estava empregado, mas era cidadão americano e o imperativo de desenvolver um corpo de funcionários genuinamente internacional significava que era apenas uma questão de tempo até ser realocado. “Durante o primeiro ano, todas as semanas havia pessoas chegando para serem realocadas e havia uma lista de pessoas que não seriam convidadas a voltarem na próxima semana. Estava muito claro que essa era uma situação temporária.” Entretanto, ao contrário de suas expectativas, foi-lhe dada uma função permanente em novembro de 1947.
Silverman também se lembra do espírito que animou os primeiros dias das Nações Unidas. “Ainda conversamos sobre o sentimento que tínhamos ao colocarmos o pé pela primeira vez em nosso local de trabalho, não importando o quanto fosse humilde. Após ter passado pela guerra, era emocionante de repente estar em uma atmosfera onde havia um iraniano e um canadense. Aqui era assim, havia todas essas nacionalidades, todos trabalhando pela mesma causa. Havia um espírito que ainda permanece entre os ‘moicanos’ que vêm para almoçar conosco.”

O presidente Harry Truman
chega a São Francisco para a Conferência das Nações Unidas
sobre
Organização Internacional. Abril de 1945.
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Entretanto, logo Silverman viu-se em meio à campanha anticomunista travada pelo senador americano Joseph McCarthy, que exigia a investigação de todos os empregados americanos nas Nações Unidas. O secretário-geral na época, Trygve Lie, acedeu à pressão e concordou que todos os funcionários americanos das Nações Unidas deveriam assinar um juramento de lealdade — “o que era contrário à Carta e contrário a qualquer entendimento sobre o que um servidor civil internacional deveria ser e fazer”. O impacto disso na moral dos funcionários, lembra Silverman, “foi devastador”.
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Em 1953, Dag Hammarskjöld tornou-se secretário-geral. “Ele ia de escritório em escritório, andar por andar, encontrar-se com todos os funcionários.” Silverman ainda considera o aperto de mão de Hammarskjöld como um gesto especialmente inspirador em sua longa carreira. Desempenhando várias funções ao longo dos anos, Silverman viu-se várias vezes em meio a crises. A mais memorável delas: o resultado da invasão do Egito pela Grã-Bretanha, França e Israel em 1956. “Eu estava em serviço como coordenador de documentos na noite em que Lester Pearson, ministro das Relações Exteriores do Canadá, encontrava-se com representantes da Secretaria-Geral para elaborar um documento propondo o estabelecimento de uma força de paz das Nações Unidas, que seria apresentado no Conselho de Segurança na manhã seguinte. Disseram-nos que os tradutores e os funcionários encarregados de copiar os documentos deveriam permanecer disponíveis até que o documento estivesse pronto, pois ele seria traduzido para as cinco línguas oficiais e seria impresso pela manhã.

Molly Bruce foi assessora de Eleanor Roosevelt durante o processo
de elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
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“Havia uma grande urgência porque a Rússia acabara de invadir a Hungria, e um diplomata de alto escalão da Rússia estava a caminho para participar do Conselho de Segurança. O temor era de que a Rússia também se envolvesse com o Oriente Médio se o plano de criação da força de paz não estivesse na mesa na manhã seguinte. Havia muita ansiedade enquanto aguardávamos que esse documento crucial fosse finalizado. Felizmente, foi feito a tempo e a primeira força de emergência das Nações Unidas foi criada logo depois.” |
O input das mulheres
Margaret “Molly” Bruce é generosa ao partilhar seus muitos tesouros. O primeiro é uma carta de René Cassin, vice-presidente da Comissão sobre Direitos Humanos durante os anos de 1946–55 e uma figura-chave na redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em sua carta, Cassin lamenta a ausência de Molly no comitê, mas expressa sua alegria pelo fato de o motivo disso ter sido o nascimento de seu bebê, e deseja que ela, a quem havia apelidado de “jóia da comissão”, retornasse brevemente ao trabalho. Há também uma foto de Eleanor Roosevelt na primeira reunião da Assembléia Geral das Nações Unidas em janeiro de 1946, quando reuniu as mulheres representantes que participavam. Elas escreveram e divulgaram uma mensagem às mulheres do mundo. Isso foi importante, diz Molly, “se você se lembrar que, na época da conferência em São Francisco, as mulheres em dois terços dos 51 países participantes do encontro ainda não tinham direito ao voto.”
As pessoas da geração que
criou as Nações Unidas experimentaram
muita guerra e destruição. Eu acredito que
sem essa organização, já teria ocorrido
uma guerra nuclear.
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Molly Bruce graduou-se pela Universidade de Cambridge nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Ela trabalhava para o Instituto Real de Questões Internacionais, chefiado por Arnold Toynbee, quando foi recrutada para ajudar nas reuniões das Nações Unidas realizadas em Londres.
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Molly Bruce (esq.),
então chefe da seção
Situação da Mulher,
com Helvi Sipila
(Finlândia), presidente
da Sessão sobre
Direitos Econômicos
das Mulheres.
Fevereiro de 1967.
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Seu interesse pelos direitos humanos fora moldado pelas suas experiências na Europa continental durante os anos 1930, à medida que as forças do militarismo e do fascismo ganhavam força. Ela estava em Berlim quando Hitler encontrou-se com o líder fascista italiano Benito Mussolini; Molly os observou passar de onde estava. “Saíamos à noite com um pote de tinta preta e pintávamos sobre a propaganda contra os judeus que estava à mostra em todos os cantos de cada cidade alemã. Nunca fomos pegos. Éramos malucos, mas você faz coisas assim na juventude... Testemunhar os abusos aos direitos humanos daqueles tempos foi o que me fez ter o desejo de juntar-me a algo para construir um outro mundo onde não se visse esse tipo de coisa.”
Como funcionária da Comissão de Direitos Humanos da ONU, Molly trabalhou com a primeira-dama americana Eleanor Roosevelt, participando de muitos dos encontros nos quais a Declaração Universal dos Direitos Humanos era redigida. De acordo com ela, Eleanor tinha o grande dom de unir as pessoas. Costumava convidar os delegados à sua casa para discutir diferenças em um ambiente privado. Os delegados respeitavam-na, mesmo se discordassem dela. “Eleanor era sempre pontual. A propósito, quase todo mundo lá estava sempre atrasado. Certa ocasião, um homem idoso na audiência me perguntou se poderia cumprimentar a Sra. Roosevelt. Ao lhe perguntar, ela me disse: “Bem, onde está ele? Irei lá para dizer-lhe um alô.” Assim era ela. Preferia almoçar com os funcionários na cafeteria. Naturalmente, as pessoas sempre queriam lhe dar seu lugar na fila, e ela sempre recusava. São pequenas coisas, mas significam muito.”
Sobretudo nos primeiros anos, o envolvimento das Nações Unidas na questão dos direitos humanos estabeleceu parâmetros legais para defini-los, assim como na sua educação e promoção. Os governos que formavam a organização eram atentos para manter as prerrogativas de soberania, e a Comissão sobre Direitos Humanos chegou a ponto de declarar que reconhecia não ter “poderes para empreender ações com relação à violação dos direitos humanos”. Mesmo como funcionária das Nações Unidas, Molly Bruce era exposta a uma torrente de cartas e relatórios de indivíduos cujos direitos haviam sido violados e que buscavam reparação. Ela lutava contra sua frustração e fazia o que podia.
“Eu tinha uma amizade profunda com um dos conselheiros de Dag Hammarskjöld, e disse-lhe como estava angustiada com tantas reclamações, em relação às quais nada fazíamos. Ele me pediu que o alertasse quando Hammarskjöld fosse para um lugar sobre o qual eu tivesse alguma informação relacionada a essas violações. Se ele pudesse fazer algo, faria. Bem, isso era muito, muito ‘contra a corrente’. Mas eu não era a única nesse sentido. Havia coisas que se podia fazer como funcionário atuando nos bastidores. E penso que muito do que acontece e muito da efetividade das Nações Unidas depende do que se é capaz de fazer nos bastidores. E isso, naturalmente, jamais vem à tona.”