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Outubro/Dezembro
2005

Destaque
A importância das Nações Unidas e de seu 60º aniversário
Shashi Tharoor

O sistema das Nações Unidas completa 60 anos. Essa é a idade em que as pessoas na ONU começam a pensar na aposentadoria. As Nações Unidas estão prontas para se aposentarem? Nossa resposta é um sonoro “não!” — o mundo precisa delas hoje, mais do que nunca.

As Nações Unidas foram fundadas no final de um período marcado por duas selvagens guerras mundiais que se iniciaram em um intervalo de 25 anos entre uma e outra.

Na primeira metade do século XX, os cidadãos em muitas partes do mundo raramente tinham o privilégio de decidirem se estavam interessados na política. A política mundial interessou-se pelas pessoas de forma completamente importuna. O horror sucedeu ao horror até, em 1945, o mundo encontrar-se face a face com as terríveis tragédias causadas pela guerra: fascismo, tentativa de genocídio e bomba nuclear. Se o mundo continuasse como estava, o futuro da raça humana teria sido realmente desolador.

A segunda metade do século XX dificilmente poderia ser considerada perfeita. Mas foi de um desenvolvimento espetacular, comparada à primeira metade.

Progressos realizados

Eu não nego que tiranias, guerras civis e até mesmo guerras internacionais ainda continuem e que bilhões de pessoas ainda vivem em estado de pobreza extrema e degradante. Mas o aspecto geral dessa segunda metade do século XX é de avanços surpreendentes. Muitos, nos países industrializados, desfrutam hoje um nível de prosperidade e têm acesso a uma gama de experiências com que seus avós dificilmente sonhariam. E, mesmo nos países em desenvolvimento, houve um crescimento econômico surpreendente. A mortalidade infantil foi reduzida. O analfabetismo diminuiu. As pessoas do assim chamado “Terceiro Mundo” libertaram-se do jugo do colonialismo, e aqueles do bloco soviético conquistaram a liberdade política. A democracia e os direitos humanos não são ainda universais, mas são muito mais a norma do que a exceção.

Tudo isso aconteceu por acidente? Não. Aconteceu porque, em 1945 e depois desse ano, um grupo de líderes de visão ampla estava determinado a fazer da segunda metade do século XX um período diferente da primeira.

Assim, estabeleceram regras para governar o comportamento internacional e fundaram instituições nas quais diferentes nações poderiam cooperar para o bem comum. Essa era a idéia de “governança global” — forjar a cooperação internacional para a elaboração de normas globais consensuais e para o estabelecimento de regras previsíveis e universalmente aplicáveis em prol do benefício de todos.

A base para tudo isso foram as Nações Unidas. Elas eram vistas pelos líderes mundiais como a única alternativa possível para as experiências desastrosas da primeira metade do século. As Nações Unidas se levantaram para um mundo no qual as pessoas de diferentes nações e culturas olhavam-se umas para outras, não sujeitas ao temor e à suspeita, mas como parceiras em potencial.


Delegados da conferência
que fundou as Nações
Unidas em São Francisco,
em maio de 1945.


O presidente dos Estados Unidos que presidiu o nascimento da ONU, Harry Truman, afirmou claramente aos membros signatários da Carta das Nações Unidas, em 26 de junho de 1945 em São Francisco: “Os senhores criaram um grande instrumento para a paz e a segurança e para o progresso humano no mundo.” Ele disse ainda: “Se não o utilizarmos, trairemos todos aqueles que pereceram para que pudéssemos nos encontrar aqui, em liberdade e segurança, para criá-lo. Se procurarmos usá-lo de forma egoísta — para a vantagem de qualquer nação ou grupo de nações — seremos igualmente culpados de traição.”

A Carta das Nações Unidas não foi fruto de sonhadores. Foi o resultado dos líderes da coalizão que venceu a Segunda Guerra Mundial, e o que eles buscavam era converter sua aliança de guerra em uma organização para os tempos de paz.

Lutavam por um mundo de crescente abertura; de contração imperial abrindo caminho para a expansão da liberdade; de crescente confiança mútua; e, acima de tudo, um mundo de esperança.


Ex-soldados rebeldes da Guatemala que completaram o treinamento promovido pelo programa de desmobilização da ONU.

Essa esperança parece ter diminuído no mundo em 2003. Uma pesquisa de opinião pública em 20 países mostrou que a credibilidade das Nações Unidas diminuiu nos Estados Unidos por não terem apoiado o governo americano na guerra contra o Iraque, e nos outros 19 países porque elas não conseguiram evitar a guerra. Assim, apanhamos de ambos os lados do debate. E estamos conscientes de que o Iraque não é a única fonte de frustração em relação a esse organismo internacional.

Mas não pode haver enfraquecimento em nossos esforços para tornar o mundo um lugar melhor e com muito mais liberdade. Pelo contrário, o nosso 60º aniversário é uma oportunidade de contemplarmos a renovação, não a aposentadoria. Recentemente, foi divulgado o relatório do Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudança da Secretaria Geral, o qual examina toda a arquitetura do sistema internacional construída desde 1945. Neste ano, as Nações Unidas também revisam os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos há cinco anos. Assim, esse aniversário é, de fato, um momento crucial.

E o que quer que aconteça no Iraque, não vamos nos esquecer que a relevância das Nações Unidas não está em sua conduta apenas nessa questão. Quando essa crise passar, o mundo ainda estará enfrentando (para usar a frase do secretário-geral Kofi Annan) inumeráveis “problemas sem passaporte” — problemas que cruzam todas as fronteiras, problemas de proliferação de armas de destruição em massa, de degradação de nosso ambiente comum, de doenças contagiosas e de fome crônica, de direitos humanos e de erros humanos, de analfabetismo e de refugiados.

Espelho do mundo

Naturalmente, as Nações Unidas não são uma organização perfeita. Algumas vezes, a organização atuou de forma pouco sábia e, em outras, estava muito dividida para ter sucesso. E, com freqüência, os estados-membros aprovaram resoluções que eles próprios não tinham intenção de implementar.

O mundo precisa de leis e normas
que os países negociem juntos e concordem
em mantê-las como “regras da estrada”.

As Nações Unidas são o melhor espelho do mundo: elas refletem nossas divisões e desacordos, bem como nossas esperanças e convicções.

E as Nações Unidas são tanto o palco quanto o ator. É um palco no qual os estados-membros representam seus papéis, declamando suas diferenças e convergências. E um ator executando as políticas elaboradas no palco.

Algumas vezes, os governos vêem vantagens em jogar a culpa de seus pecados de omissão ou permissão na organização. Quando certas autoridades governamentais culpam as Nações Unidas por não terem evitado o genocídio em Ruanda, não percebem o papel de seu próprio governo em evitar que o Conselho de Segurança empreendesse ações nesse sentido, e essa questão não fica bem esclarecida.


Encontro do Conselho Econômico e Social
Apesar de tudo, o mundo precisa de leis e normas que os países negociem juntos e concordem em mantê-las como “regras da estrada”. E precisa de um fórum onde os Estados soberanos possam se reunir para partilharem o fardo, resolverem os problemas comuns e aproveitarem as oportunidades comuns. E esse fórum são as Nações Unidas.

Se continuarmos a ser guiados pela bússola de nossa determinação de viver em um mundo governado por regras e valores comuns, e nos conduzirmos juntos nas instituições multilaterais que os líderes iluminados do século passado nos legaram, então realmente poderemos vestir as esperanças dos fundadores das Nações Unidas e empreender a contínua aventura de fazer este século melhor que o último.

Shashi Taroor é subsecretário-geral das Nações Unidas para Comunicação e Informação Pública e chefia o Departamento de Informação Pública desde janeiro de 2001. Este artigo é baseado em um discurso proferido na Universidade das Nações Unidas em Tóquio, em 15 de março de 2005.


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