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Julho/Setembro |
2004 |
Retratos de Cidadãos Globais
O instrumento musical universal da humanidade
No auditório da NHK em Tóquio, Japão, Ikeda encontra-se com a diretora da British Royal Opera, Eva Wagner-Pasquier (segunda
à esquerda), e com o diretor-administrativo Richard Wright (setembro de 1986). |
Foi uma dramática demonstração do poder da voz humana. As vozes dos cantores reverberavam por todo o vasto auditório da NHK, em Tóquio, conectando-se com toda a audiência. Mesmo com um poder enorme, eles também transmitiam expressões delicadas que tocavam as profundezas do coração dos ouvintes. O evento era a apresentação da ambiciosa última obra de Giácomo Puccini, “Turandot”, pela British Royal Opera, que se passa na cidade imperial de uma lengedária China antiga. |
Que exibição magnífica de talento vocal: vozes elevadas que pareciam furar as nuvens; vozes rotundas e profundas que faziam tremer a Terra. Era uma noite de outono de 1986. Cada membro da platéia era conduzido a um maravilhoso banquete vocal.
A voz é algo misterioso. Ela comunica muito mais que meras palavras. Encontro-me com muitas pessoas em minha vida, e é verdade que cada uma possui uma qualidade vocal e uma maneira de falar únicas. A maneira como conversamos, o tom e os hábitos vocais estão intimamente relacionados à nossa personalidade. Há vozes calorosas e vozes frias; vozes fracas e fortes; vozes lustrosas e tremeluzentes; vozes ricas e plenas; e vozes profundas e pesadas. As mesmas palavras podem parecer convincentes quando proferidas em certa voz, ou soar insinceras em outra.
A voz é o espelho de nosso ser, de nossa condição vital. Ela é também imediatamente afetada pelas mais sutis mudanças em nossa condição física ou estado mental. O mestre budista chinês do século VI, T’ient’ai, disse que os médicos inferiores sentem o pulso, os médicos comuns observem a cor do paciente e os médicos superiores ouvem a voz do paciente.
A voz possui o poder de transformar a vida a partir de
seu interior, de fortalecê-la e purificá-la. Essa é a razão
pela qual a música integra tanto a religião como a
medicina desde tempos antigos. |
Nossas vozes somos nós.
A voz é viva. É isso o que lhe dá o poder de tocar e movimentar os outros. O sentimento em uma voz entra pelos ouvidos, “o portão do espírito”, viaja fundo ao coração, suscita e estimula reações, que se manifestam em ações. Em japonês, as palavras “cantar” (utau) e “apelar, alcançar algo” (uttau) possuem a mesma raiz. Quando alcançamos o outro, a distância entre os dois corações é ultrapassada e somos confortados. A voz possui o poder de transformar a vida a partir de seu interior, de fortalecê-la e purificá-la. Essa é a razão pela qual a música integra tanto a religião como a medicina desde tempos antigos. No antigo Egito, a música era conhecida como “a alma da medicina”.
“Carmen” (setembro
de 1986).
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Usar a voz é muito melhor para a saúde do que apenas ouvir. Ela estimula o cérebro e melhora a respiração e circulação. Considera-se que usar a voz contribui para evitar e velhice e a senilidade. |
No Japão, diz-se freqüentemente que se ganha com a voz nos esportes; gritar com entusiasmo encorajamentos durante o jogo inspira todos os jogadores à vitória; quando o jogador fica em silêncio, geralmente é sinal de que desistiu e provavelmente se deixou abater pela derrota. Pode-se dizer que o mesmo é verdadeiro na vida de forma geral.
Por isso, é importante falar e cantar. A liberação de nossa voz é a liberação espiritual. O escultor japonês do século XX, Hiroatsu Takata, amigo de Romain Rolland e de Mahatma Gandhi, tinha um profundo apreço pela música. Certa vez, quando ouvia música popular japonesa após retornar de uma longa estada na França, ficou chocado ao descobrir que ela era pouco mais do que uma pobre imitação da música ocidental. Ele escreveu: “A atitude obsequiosa e feudal que incute obediência à autoridade como uma virtude primária roubou do povo japonês o senso do eu.” A música, para ele, é a expressão mais direta do alcance interior do espírito e, sem um forte senso do eu, não pode haver arte. Nessa situação, insistia ele, não pode surgir arte popular de qualquer qualidade.
Se suprimirmos a nós próprios, engolirmos o que precisa ser dito e nos preocuparmos muito com o que os outros pensam, não descobriremos nossa voz verdadeira e natural. Se permitirmos que nossa voz seja suprimida, se adotarmos uma voz obsequiosa e falsa, esqueceremos a própria voz e, tragicamente, perderemos nosso próprio ser nesse processo. Uma sociedade que suprime vozes corretas e honestas não progride em termos humanos.
Os grandes cantores são capazes de criar a ilusão de que estão cantando para cada membro da platéia, abrindo um canal privado de comunicação entre o cantor e o ouvinte. Além de “Turandot”, a Royal Opera apresentou “Carmen”, de Bizet, em sua turnê japonesa de 1986. Agnes Baltsa interpretou o papel principal, de Carmen, com a parceria do tenor José Carreras. O espetáculo foi patrocinado pela Associação de Concertos Min-On. Carreras é um dos mais famosos tenores do mundo. Ele disse: “Nós temos muitos bons cantores, mas a maioria deles é incapaz de usar sua voz para demonstrar emoção e fazer manifestar os sentimentos do público.” A técnica naturalmente é importante, mas não é suficiente. “Cantar da alma”, diz Carreras, “é o que distingue o grande do bom.”
Agnes Baltsa (direita)
e José Carreras em “Carmen” (setembro
de 1986).
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Carreras foi acometido por leucemia aguda em 1987, um ano após ter se apresentado no Japão. Estava com apenas 40 anos. Mesmo com um transplante de medula óssea, deram-lhe apenas vinte por cento de chances de sobreviver. Submeteu-se a uma terapia de radiação, embora isso lhe causasse uma náusea debilitante. Carreras sobreviveu a tamanho sofrimento e diz que foi com a ajuda da ópera. Para encorajar-se, permanecia quieto e, algumas vezes, apenas mentalmente, murmurava árias das óperas favoritas. Sua recuperação foi surpreendente, e os fãs de ópera de todo o mundo se alegraram. |
Um concerto comemorativo de retorno aos palcos foi realizado próximo ao Arco do Triunfo, em sua cidade natal, Barcelona, na Espanha. Carreras escreve sobre o evento em sua autobiografia, “Cantando da Alma”. Conta que nos 25 segundos que levou para chegar ao palco, toda sua vida passou diante de seus olhos: as dificuldades no início da carreira, o diagnóstico de câncer no auge do sucesso; a noite que passou lutando contra o medo; a sensação de estar próximo à morte; suas esperanças, dor e sofrimento. Quando reparou e olhou ao redor, havia pessoas até onde conseguia ver — ondas e ondas de espectadores. Era um tributo não a Carreras, o cantor de ópera, mas a Carreras, o homem. Ele se sentiu dominado, sua garganta apertou e ele imaginou que não conseguiria cantar. Após acalmar-se, começou quase silenciosamente.
Ele havia pensado muito em como terminar aquele concerto. E decidiu-se pelo trecho “Nessun dorma”, de “Turandot”. A famosa ária encerra com esses versos: “Parta, ó noite! Estrelas, apressem o raiar!... Ao amanhecer eu vencerei! Eu vencerei! Eu vencerei!” Ele queria comunicar ao público a profunda lição que aprendera: “Jamais abandonei a esperança de superar minha provação e viver. Agora, vejo o futuro com confiança. Farei o que precisa ser feito. Não me deixarei intimidar.” Enquanto cantava, Carreras orava para que sua mensagem tocasse o coração de cada indivíduo na platéia, que cada um sentisse como sua aquela canção.
“Que minha voz seja ouvida”, pensava ele, “deixem-na alcançar e tocar a todos. Deixem-na inspirar coragem a todos.”
Deixem todos cantar! Vamos todos orgulhosamente tornar nossa vida vitoriosa no final!
E naquele momento extraordinário, a voz que se apresentava no palco e a voz da luta pela vida eram uma única voz.
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