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Julho/Setembro
2004

Gente
Música do coração: um tesouro e uma arma para a paz
Nestor Torres, EUA

“Então, o impensável ocorreu”, pensei eu enquanto observava as torres caírem naquele dia.

Era um belo dia em Beverly Hills, apenas iniciando o que achava que seria um grande dia (e noite). O show de premiação do Grammy latino ocorreria naquela noite e eu havia sido indicado para a categoria de Melhor CD Instrumental Popular.


Embora normalmente eu não ficasse excitado com premiações, a indicação naquele ano significava muito para mim. Como é sabido por muitos, “Este Lado do Paraíso”, o CD que motivou a indicação, incluía a canção “Paz Pa’ Vieques” (Paz para Vieques), que eu havia composto sobre o uso dessa ilha para exercícios militares pela Marinha americana (Vieques, população de oito mil pessoas, é uma ilhota na costa leste de Porto Rico, minha terra natal. Durante 60 anos, a Marinha ocupou o lugar, causando grande sofrimento a seu povo e graves danos ao meio ambiente. A Marinha finalmente deixou a pequena ilha em 2003).

A gravadora não estava interessada na canção, então, paguei de meu próprio bolso para que ela fosse incluída. Assim, de alguma forma, eu me sentia recompensado pela indicação. Desnecessário dizer: a entrega do Grammy latino não ocorreu naquela noite.

As prioridades têm um meio de mudarem quando ocorrem desastres.

Era razoável que uma das mais importantes noites de minha carreira não se tornasse uma trágica data que acabou definida como o início do século XXI. Vencer o Grammy latino ou qualquer outro prêmio naquelas circunstâncias se tornaria insignificante, não teria sentido.

O que importaria se eu conquistasse a maior honraria da indústria musical se meu trabalho não pudesse deter tal barbaridade, tal crueldade? Eu estava indignado, perturbado, mas possuía um profundo senso de identificação.

É uma triste verdade que viver em um mundo onde a dignidade da vida humana é violada como uma questão cotidiana nos torna vulneráveis à desesperança, à ira e à violência que suscita. Isso também gera apatia e indiferença ― a sutil, porém letal, doença nascida dessa insensibilidade.

:: Momento decisivo

Então, o dia em que eu seria um vencedor tornou-se decisivo na história da humanidade e de meu país. Pessoalmente, determinei que minha única escolha era abandonar minha identidade transitória e superficial como músico e revelar meu aspecto mais profundo e verdadeiro como um “guerreiro da paz”. O 11 de Setembro tocou o sino da revolução, da minha “revolução humana”.

“Uma grande revolução no caráter de uma única pessoa provocará uma mudança no destino de toda uma nação e, ainda mais, mudará o destino de toda a humanidade” — do prefácio da novela “A Revolução Humana”, do presidente da SGI, Daisaku Ikeda —, estas são palavras que ressoam eternamente como um chamado às armas espirituais de muitos praticantes do Budismo Nitiren, em todo o mundo.

Venho recitando o mantra desse budismo há vinte anos, e essas palavras funcionam como um fator-chave para a motivação em minha vida e em minha fé budista.

Acredito que o coração e os anseios de uma pessoa,
expressos em seu processo criativo, certamente afetam
o coração e os anseios das pessoas expostas ao
trabalho resultante dessa criação.

Antes de praticar esse budismo, minha visão da própria vida e meu papel como músico eram bem diferentes. Muito cedo, eu já buscava respostas para questões complicadas: vida e morte, desigualdades, sofrimento... e eu jamais as encontrava. Não havia nenhuma espécie de alegria em minha vida. E, enquanto desenvolvia meu talento musical, sentia-me deslocado em todos os lugares e me mantinha introvertido a maior parte do tempo. Posteriormente, quando me mudei para Nova York e comecei a tocar profissionalmente, a atitude de meus companheiros músicos, especialmente alguns a quem eu considerava meus ídolos musicais, fazia com que me desiludisse de qualquer sentimento de maravilha e satisfação que sentia em fazer música.

Descobrir e praticar o Budismo Nitiren transformou tudo isso dramaticamente. Eu obtive respostas, a alegria se tornou uma experiência cada vez mais familiar e comecei a apreciar e a desfrutar a música. E, o mais importante, desenvolvi um senso de propósito, um significado mais profundo em fazer música.

Lembrar-se do potencial ilimitado da vida de uma única pessoa; poder manifestar, repetidas vezes, a mais fundamental das verdades: o poder ilimitado e absoluto da vida humana — incluindo a minha — para transformar o futuro da humanidade, cada pessoa de sua forma única, própria. Essa é a razão de eu praticar o Budismo Nitiren. E foi minha prática budista que me possibilitou superar frustração e desânimo pelos ataques terroristas de 11 de setembro. A partir desse dia, determinei que meu trabalho teria, ainda mais, que fazer a diferença. Assim, tenho usado minha música como uma “arma da paz”.

Francamente, não é fácil cumprir essa determinação. Por isso, as palavras e orientações de Ikeda são cruciais para mim:

“Se, como acredito, a maior tarefa da humanidade, à medida que caminha do século XX para o século XXI, é acabar de uma vez por todas com as hostilidades e violência que desfiguram hoje a Terra, então a música, que permite que as pessoas comuniquem seus sentimentos mais interiores uns aos outros, certamente está destinada a desempenhar um papel vital. Ela oferece os meios mais eficazes e efetivos pelos quais podemos buscar cumprir essa tarefa.”

A música possui poder? Não. A música é poder. A música é vida. Pode-se imaginar um mundo sem ela? Sem canções, melodias, sem ritmo? Realmente, onde não há música, não há vida, não há humanidade.

Acredito que o coração e os anseios de uma pessoa, expressos em seu processo criativo, certamente afetam o coração e os anseios das pessoas expostas ao trabalho resultante dessa criação; no meu caso, a música que escrevo e toco.

:: De coração a coração

Meu CD “Tesouros do Coração” foi inspirado num dos escritos de Nitiren: “Mais valiosos que os tesouros do cofre são os tesouros do corpo, e os tesouros do coração são os mais valiosos de todos.”

Tendo isso em mente, quero que os meus concertos e gravações façam com que todas as pessoas envolvidas — público, músicos, técnicos e construtores — sejam tratadas com o valor que de fato têm e sintam isso, por serem participantes respeitáveis.

Além disso, minhas atividades como conferencista e educador possuem agora maior prioridade, bem como meu envolvimento com as crianças e em trabalhos de promoção da paz no Comitê Internacional de Artistas para a Paz (Icap, na sigla em inglês) e em outras entidades.

O Sutra de Lótus contém a verdade-chave para o ensino de Sakyamuni — cada vida e todos os seres vivos são dignos de respeito. Transformar, criar e viver numa sociedade em que o respeito e a reverência à dignidade da vida sejam supremos é a única alternativa para a nossa espécie, e todo o planeta, para que não sobrevivamos apenas, mas prosperemos também.

Portanto, incluí em minha missão como músico, artista e como ser humano, tocar, revitalizar e reumanizar o coração de cada pessoa, uma por vez.

Quanto ao Grammy latino...

Eu o recebi em Los Angeles, Califórnia, no dia 30 de outubro de 2001, numa modesta e sincera cerimônia, quando aceitei essa grande honra não como o reconhecimento pelo trabalho realizado, mas como um ponto de partida e referência pelo qual minha música e meu trabalho possam inspirar esperança e humanismo no coração de cada ouvinte.


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