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Julho/Setembro
2004

Destaque
Rock atrás da Cortina de Ferro

“Recentemente alguém me perguntou: você acha que o rock-and-roll derrubou a Cortina de Ferro? E eu disse que não, pois a Cortina caiu pelos esforços tanto do governo quanto do povo. Mas acredito que o rock tenha desempenhado um papel-chave na derrubada.”

András Simonyi, hoje embaixador da Hungria nos Estados Unidos, tinha quatro anos quando os tanques russos tomaram Budapeste em 1956. Alguns anos mais tarde, ele e seu pai, um representante comercial, mudaram-se para a Dinamarca. Lá ele viveu sua adolescência como qualquer jovem dos anos 1960, no Ocidente rico. Mas no começo da adolescência, ele voltou a morar em Budapeste. “Naquele tempo [Budapeste], era um lugar difícil, sombrio e escuro, especialmente para mim, acostumado à liberdade — liberdade na maneira de me vestir, na maneira de conversar com as pessoas...” Algo de que ele sentiu falta foi a música da qual tinha se enamorado na Dinamarca, o rock e o pop dos anos 1960, ritmos que estavam começando a explodir dentro — e fora — dos Estados Unidos e Reino Unido.

:: Música do mundo livre

“A música que tanto me interessava simplesmente não existia na Hungria.” Um velho rádio que András e seu irmão ganharam do pai tornou-se um precioso contato com a vida além da Cortina de Ferro. “Ouvir aquela música à noite... nos mantinha sãos e de alguma maneira fazia com que fôssemos parte do mundo livre. De repente, estávamos fora de nosso corpo, e nossa alma era parte do mundo livre.” Simonyi continua: “Não é que todas as canções ou peças de arte tivessem de ter uma mensagem, com M maiúsculo... os húngaros não entendiam as letras... não era o texto, mas o poder da música, o poder de algumas pessoas com um Stratocaster, um baixo Fender, um baterista tocando uma Gretsch... a música era o mais poderoso instrumento para transmitir a mensagem do mundo livre à minha geração.”

Simonyi acredita que a música e as artes realmente afetem o processo político. Ele ressalta que depois do épico de Pink Floyd "The Wall", os jovens passaram a enxergar os regimes totalitários — em todos os lugares, mesmo na Hungria — de maneira diferente.

Ele observa que as pessoas que iniciaram no bloco oriental os movimentos por maior liberdade foram da geração que cresceu ouvindo o rock ocidental — a sua geração.

Foram “os que cresceram ouvindo rock que vagarosamente se infiltram nas posições de poder. Eu acredito seriamente que eles nos abriram para o mundo. Foram aqueles com quem passei tantos anos andando por Budapeste, conversando sobre aquela música e sobre fazer parte do mundo livre.”

Quando a turnê mundial “Human Rights Now!” (Direitos humanos já!) levou músicos famosos para cantar em países comunistas como a Hungria, em 1988, Simonyi percebeu que era um prenúncio da mudança. “Aquele foi o ano em que soube que o muro cairia e que iríamos acabar com a guerra fria. O rock não é um sucesso comercial, é um sucesso cultural. Ele mantém milhões de pessoas em movimento... veio pelas ondas de rádio e atravessou a Cortina de Ferro e o muro de Berlim. O rock é uma ponte.”

:: Apelo universal

Refletindo sobre a natureza dessa ponte, Simonyi diz: “O rock-and-roll é uma linguagem universal. É fácil aceitá-lo. Ele fala com o povo, com o homem na rua em Budapeste, em Varsóvia e em Nova York.”
Perguntado se o rock é imperialista, ele nega terminantemente. “Mozart pertencia aos austríacos. E agora, alguém pergunta de onde Mozart veio? Isso não importa. Essa música pertence a todos nós. É uma cola. O rock é sobre a liberdade, é acreditar na nossa liberdade e no direito das outras pessoas à liberdade.”

Esse artigo foi baseado em um discurso feito pelo embaixador
Simonyi, no Rock and Roll Hall of Fame, em Cleveland, Ohio,
em novembro de 2003.


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