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Billy Bang, violinista de Nova Iorque, é uma figura-chave na vanguarda do jazz. Seu álbum “Vietnam: the aftermath”, (Vietnã: as conseqüências), baseado em suas experiências no Vietnã em 1968, ganhou o prêmio da Associação da Música Independente em 2003. |
SGIQ: O que significa paz para você?
BB: Paz significa muito para mim, especialmente por ter experimentado os horrores e o inferno da guerra. Paz significa ficar longe de qualquer tipo de guerra, de sua atmosfera, ambiente, ligações, tão longe quanto puder. Acredito que não há guerras justificáveis. Eu nunca me alistei no exército. Fui convocado. E então você se torna um soldado, quer queira quer não.
SGIQ: O que foi mais chocante sobre a realidade experimentada no Vietnã?
BB: O mais chocante é que as pessoas realmente podem morrer sem nenhuma razão. A razão pela qual matávamos uns aos outros... Não significava nada para nós, as pessoas que estavam lá, os verdadeiros soldados. Na realidade, não havia animosidade entre os combatentes.
Uma das maneiras pela qual as pessoas experimentam a paz é não lutando. Lembro-me de um episódio que aconteceu quando estava de guarda. Eu e um companheiro estávamos a uns 70 metros da nossa base, somente nós dois lá fora, observando, e percebemos dois guerrilheiros vietnamitas tentando se infiltrar na base, pelo outro lado. De repente, eles nos viram, e daquela distância, podíamos ter atirado uns nos outros, mas simplesmente não atiramos, apenas tomamos conhecimento da presença uns dos outros. Eles foram embora e nós não dissemos uma palavra. Eles não abriram fogo. Foi o momento mais esquisito que já vivi. Mas depois soube que esses incidentes eram comuns no Vietnã.
SGIQ: Quando você voltou, devia estar muito desiludido...
BB: Eu estava desiludido, chocado, confuso e muito amargo, com raiva. Se eu não tivesse a música, hoje eu seria uma dessas pessoas nos hospitais, ou um sem-teto. De qualquer forma, eu não estava muito longe dessa possibilidade. Alguém está sempre querendo desistir porque sentimos que ninguém entende o que vimos, e o que sentimos. Percebi que a única maneira de reconciliar comigo próprio pelo que fiz no Vietnã era levar a vida de forma mais pacífica, de uma forma mais espiritual. O mais próximo de mim nesse sentido foi a música.
“De alguma maneira, após compor a música,
após ensaiá-la, e particularmente após gravá-la,
eu me senti mais leve.” |
SGIQ: Soube que fazendo “Vietnam: the aftermath” você pôde livrar-se de seu lado negro.
BB: Essa foi a coisa mais incrível que me aconteceu. Foi inesperado. Desde que voltei para casa, ia a psicólogos e psiquiatras, mas achava que não conseguiria ajuda. Haviam me diagnosticado como sofrendo de PTSD (síndrome de desordem pós-traumática). Isso explodia de tempos em tempos, a ponto de ficar muito difícil meu convívio familiar, como pai, e acabou afetando a minha vida inteira.
Mas foi somente quando eu estava com sérios problemas financeiros que liguei para a Justin Time Records para saber se eu poderia gravar um cd para eles. Eles me perguntaram se eu concordaria em fazer um trabalho sobre a minha experiência no Vietnã, e eu disse que pensaria. Eu sempre pensei em fazer isso, mas nunca havia me comprometido com a idéia.
De qualquer modo, alguns dias depois liguei novamente e aceitei. Eu queria fazer aquilo da maneira mais honesta possível. Eu revivi muito do horror, do perigo e da guerra. Enquanto compunha essa música, algumas vezes as páginas ficavam molhadas de lágrimas, e a partitura ficava toda borrada. Passei por muitas emoções compondo essa música em particular, e uma das coisas que os críticos me disseram é que podiam sentir isso na música.
Foi realmente a melhor terapia que fiz, mesmo sem perceber. Foi um período muito doloroso, mas de alguma maneira, após compor a música, após ensaiá-la, e particularmente após gravá-la, eu me senti mais leve. Vários de nós se sentiram mais leves, não apenas eu. Muitos veteranos que trabalharam no cd sentiram-se mais leves. Na verdade, é assim que a paz realmente começa. Foi onde encontrei e senti paz de espírito, senti paz na minha alma, como se muita culpa tivesse desaparecido, e muita loucura descartada. Foi como se eu tivesse acordado pela primeira vez em 30 anos, como se eu estivesse estado em coma por um período extremamente longo. Finalmente percebi que precisava falar com as pessoas, precisava me identificar melhor, precisava ser mais honesto. Acho que nasci junto com o cd. Todo aquele tempo que perdi... Fui dos 19 para os 52 anos de idade.
SGIQ: Outras pessoas que tenham vivido experiências de violência, mas não necessariamente de guerra ou no Vietnã, podem ser tocadas por essa música?
BB: Isso foi o que descobri depois. Não compus a música por essa razão, mas as pessoas me escreviam contando quanto alívio conseguiam ouvindo a música, tanto quanto eu senti compondo-a e tocando-a. Algumas dessa pessoas viveram aqueles tempos, mas não foram para a guerra, ou então conheciam alguém que havia sido afetado pela guerra. Também ouvi de uma pessoa que vivia com uma família em conflito que eles traçaram paralelos de como não eram capazes de falar claramente sobre algo, e de como não podiam entender claramente e sempre culparem alguém. Existem similaridades com o que as pessoas sentem, então, não se limita apenas ao Vietnã. Foi o que aprendi. Não havia percebido nada disso antes.
SGIQ: Você acha que, em certo sentido, você foi fundo em sua própria verdade, e por isso a música toca as pessoas?
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BB: Sim, posso dizer honestamente que sim. Se eu nunca tivesse feito outra coisa, seria uma vitória em si mesma por causa do retorno que recebi. Mesmo a maneira como as pessoas falam comigo hoje em dia é ligeiramente diferente. Eu achava que tinha de dizer certas coisas para ser aceito. |
SGIQ: O que o faz pensar no sentido da sua vida?
BB: Realmente penso que estou aqui por essa razão, passar por essa experiência e tentar interpretá-la e compartilhar com os outros de algum jeito. Mesmo que esse não tenha sido o propósito inicial, então vejo um propósito nisso. A outra coisa é que isso traz mais sentido para a minha música do que simplesmente tocar algumas notas. Trouxe mais compreensão e clareza do porquê, de fato, eu toco essas notas.
SGIQ: Você disse que gostaria de voltar ao Vietnã.
BB: Deixe-me ser completamente honesto, eu nunca quis voltar realmente ao Vietnã. Mas desde que gravei “Vietnam: the aftermath” eu e um cineasta pensamos em voltar àquele lugar, à origem da dor, para lá encontrar paz e consolo e também o povo vietnamita, especialmente os músicos. E eu espero que realmente haja músicos que, como eu, tenham lutado na guerra. Podemos nos reunir por meio da música e encontrar uma paz real, o derradeiro conforto da reconciliação. Este é o meu verdadeiro desejo.
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Honestamente, penso que se eu passar por isso, então serei uma pessoa melhor. Este desejo é tão bom quanto pode ser... Não tenho escolha, é uma necessidade. E não somente para mim. |
O que acontece no mundo hoje é o que na verdade lhe dá sentido. Alguma coisa realmente precisa se contrapor a estes tempos. Tem de haver outros pensamentos em algum lugar, outros diferentes daqueles com os quais somos bombardeados pela mídia.
Acima de tudo, a única maneira que posso conceber a paz é muito pessoal. Encontrar a paz de espírito e paz de alma é muito importante para mim... Isso é o que estou buscando.
Para informações a respeito de "Vietnam: the aftermath"
visite o site: www.justin-time.com |