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Fèz é conhecida como a Jerusalém da África do Norte, onde judeus e muçulmanos convivem pacificamente há séculos. É a cidade medieval mais preservada do universo árabe, capital espiritual e cultural do Marrocos e patrimônio histórico da Unesco. |
A cada ano, durante nove dias, cerca de 30 mil pessoas de todas as partes do mundo reúnem-se, atraídas pela celebração da humanidade inerente à diversidade de cultura e de crença religiosa. Embora, muitas vezes, essa pluralidade seja causa de conflito e divisão, o Festival Mundial de Música Sacra de Fèz é uma demonstração do poder da música produzida em diferentes tradições e que nos leva a um terreno comum.
O festival foi inaugurado por Faouzi Skali, sufi e antropólogo cultural de Fèz. Em 1994, após a primeira Guerra do Golfo, Skali teve a idéia de realizar uma grande festa musical para forjar a tolerância e direcionar as pessoas para a coexistência pacífica.
:: A música da transformação
A eficácia em usar eventos como esse para trazer de volta os objetivos do festival está na natureza contemplativa da música sacra. É nossa esperança que a iniciativa possa servir como um “pulmão verde” entre os vários pontos, para onde as pessoas possam vir e respirar e, de alguma forma, sejam alimentadas e se sintam seguras; ainda que nosso planeta esteja tão terrivelmente vulnerável neste momento.
“Fèz tem servido como santuário para os
intelectuais e religiosos.” |
Os próprios músicos descreveram sentimento de transformação ao se apresentarem em Fèz, desde a manifestação de amor até o abraço humano dos espectadores e organizadores. Lembro-me em particular de um grupo musical judeu de Bukhara, Uzbequistão, que vive em Nova York hoje e que participou do festival no ano passado. Após o bombardeio de Casablanca, poucos dias antes do início do festival, eles haviam decidido não participar. Mas foram persuadidos, apesar de estarem temerosos. Perguntavam por guarda-costas e todas as formas de segurança; ficavam no quarto do hotel o tempo todo até se apresentarem. Durante o espetáculo, havia um cordão de pessoas fazendo a segurança, cercando-as no palco. Uma enorme barreira humana, mas compreendíamos porque estavam apreensivos, e a audiência aplaudiu o grupo de pé, homenageando sua coragem de vir.
Entretanto, no palco, algo fez com que se desprendessem de verdade e, em seguida, vieram as apresentações de outros músicos, sobretudo de artistas muçulmanos. Quando voltaram para Nova York, ligaram-me dizendo que cantaram no avião para os passageiros e lhes falaram sobre a experiência em Fèz e que divulgariam em sua comunidade a experiência em um país muçulmano.
:: Uma alma para a globalização
O festival de Fèz também inclui uma palestra. A cada ano, traz um tema diferente e, em 2000, foi “Uma alma para a globalização”. A partir de 2001, esse título se tornou tema permanente. Havíamos imaginado que tal definição serviria como alternativa para o Fórum Econômico Mundial e o Fórum Social Mundial e que seria um local onde as pessoas desfrutassem um ambiente mais orgânico e íntimo, deixando de lado seus títulos acadêmicos para falar de forma mais pessoal sobre vários assuntos. Fèz tem servido como santuário para os intelectuais e religiosos, o que nos parece muito adequado.
Os palestrantes são de diversos lugares do mundo e abrangem muitas disciplinas. Atividades populares misturam-se a embaixadores, intelectuais, líderes religiosos e artistas em painéis sobre paz, meio ambiente, economias socialmente responsáveis, direitos humanos e sobre como a espiritualidade pode intervir na sociedade moderna para se contrapor a perturbadores e insanos aspectos da globalização.
Neste ano, nos dois primeiros dias da palestra, os painéis abordaram a paz no Oriente Médio, enquanto eram feitas apresentações de músicos da Palestina e de Israel. Assim, o arranjo dos programas ajuda a reforçar a idéia de que, embora estejam passando por dificuldades, são regiões que também têm muito em comum.
Em todos os eventos de Fèz, inclusive na palestra, são montados outdoors, para que as pessoas sintam o ambiente em que estão, em vez de se verem em local hermeticamente fechado, como numa cela com ar-condicionado. Tudo é realizado numa construção histórica, sob um carvalho de quatrocentos anos, com bandos de pássaros que cantam o tempo todo. Um ambiente natural, orgânico, o que é importante, já que estamos falando das condições do planeta.
:: Além de Fèz
Além do festival realizado em Fèz, a partir deste ano, o Espírito de Fèz viajou pelos Estados Unidos, levando artistas para 11 Estados e 17 cidades, incluindo concertos para crianças. O objetivo da turnê Espírito de Fèz é fazer a mensagem do festival sair do Marrocos, ir para o mundo, e encorajar as pessoas a expandir suas perspectivas, a olhar de forma melhor para caminhos em que possamos viver juntos, de maneira mais tolerante, respeitando nossas diferenças culturais e espirituais. Os músicos falam especificamente sobre paz, mais às crianças, e em muitas ocasiões.
A cantora sul-africana
Miriam Makeba, um
ícone na luta
anti-apartheid. |
Exatamente no decorrer da turnê, os terroristas atacaram Madri. Na ocasião, um jornal publicou na primeira página, lado a lado, uma foto do grupo gospel Anointed Jackson Sisters conversando com estudantes universitários e outra de Saddam Hussein que acabara de ser capturado. Essa proximidade das imagnes, em face àqueles turbulentos eventos mundiais, torna mais relevante o propósito da turnê. Descobrimos que as pessoas do mundo inteiro estão acessando a página www.spiritoffes.com e expressando seu apoio ao que fazemos. |
A turnê Espírito de Fèz também incluiu palestra. Em cada cidade, convidamos palestrantes americanos que haviam participado do festival em Fèz e pessoas da comunidade local de diferentes áreas — líderes religiosos, artistas, ativistas e acadêmicos — para discutir a idéia da construção da paz nessas comunidades. O objetivo era iniciar conversações públicas abordando a construção da paz e a convivência harmoniosa nestes tempos difíceis.
Sheik Habboush e o conjunto
Al Kindi e os Dervishes Girantes (Síria). |
“O Festival Mundial de Música Sacra de Fèz é uma demonstração do poder da música produzida em diferentes tradições e que nos leva a um terreno comum.” |
É evidente que tais eventos estão ressoando nas pessoas. No final de cada apresentação da turnê, cantamos uma música tradicional dos índios americanos e a traduzimos para o árabe, hebraico, espanhol e inglês. Em cada cidade onde estivemos, quando os músicos terminavam de se apresentar, muitas pessoas na audiência estavam chorando — lembro-me de estar no palco no concerto em Berkeley e ver de lá que o administrador do auditório e os funcionários choravam. As pessoas acenderam seus isqueiros e assoviavam, cantavam, dançavam e choravam ao mesmo tempo. Isso ocorreu nas 17 cidades de nossa turnê. Não fomos nós, foi a idéia promovida que tocava o coração das pessoas.
É óbvio que há carência disso na Terra.
Zeyba Rahman é diretora artística do Espírito de Fèz. |