Edições Anteriores  
Julho/Setembro
2004

Destaque
Poder transformador

Youssou N’Dour concedeu uma entrevista ao SGI Quarterly sobre “música como uma força para a paz”. Nascido no Senegal, tornou-se o mais importante músico africano de sua geração. Tem colaborado bastante com músicos de todo o mundo. Em 1988, fez parte da turnê da Anistia Internacional “Direitos Humanos, Já!”, com Peter Gabriel, Bruce Springsteen, Sting e Tracy Chapman. Desde 1991, Youssou N’Dour é embaixador da Boa-Vontade da Unicef.

SGIQ: Como você vê seu papel de músico no mundo de hoje?

YN’D: Os músicos são os comunicadores da sociedade. Eles sempre desempenharam um papel fundamental, das sociedades tradicionais às modernas. Com a globalização dos meios de comunicação, a tarefa tem recaído sobre os artistas conhecidos internacionalmente para se comunicarem atravessando as fronteiras nacionais. Somos a bússola moral do mundo. Sustentamos um espelho para as pessoas e os povos e refletimos nele as belezas e defeitos, as esperanças e frustrações de todos. Essa é a razão de nos sentirmos confortáveis ao cantar temas que não o amor romântico, as aspirações individuais e as necessidades materiais: porque há um chamado maior, que é inspirar, exortar e conduzir as pessoas a examinar a vida e a ter uma conduta consciente. Nesse esforço, não nos sentimos superiores ao nosso público, de forma alguma. Sentimos apenas que isso é nossa vocação, nosso trabalho — aquilo que Deus nos colocou na Terra para fazer.

:: Inspiração

SGIQ: Muita gente considera sua música profundamente inspiradora. Você acredita que a música pode mudar a vida das pessoas?

YN’D: A música possui uma forma inexplicável de elevar a humanidade às suas mais nobres ações. É o mais durável dos “produtos culturais” e tem passado no teste do tempo. A arte, assim como a religião e outras expressões da vida cultural, inspira e transforma — eleva-nos acima de nossos seres “criados”, nosso ser material, animal, secular, e nos permite participar da grande aventura da criação, não como parceiros do Todo-Poderoso, claro, mas como instrumento de Sua vontade. Tudo o que um músico toca é inspiração divina e, por isso, é transformador. A humanidade anseia por uma conexão conscienciosa com o Todo-Poderoso, o que a arte tende a possibilitar.

SGIQ: Você tem feito muito para tornar públicas e abordar questões sociais como a proteção dos direitos humanos, o trabalho infantil e a prevenção da aids. Qual é a questão que mais toca seu coração?

YN’D: A vida se torna vazia sem um comprometimento para remediar alguns dos problemas urgentes do mundo, como a aids, a pobreza brutal, o analfabetismo, as guerras, a negação da liberdade de expressão e o acesso às glórias da informação digital. No Senegal, onde vivo, luto contra a falta de acesso às tecnologias de informação criando centros comunitários com conexão à internet e trabalhando com parceiros globais na transferência de tecnologia básica. Procuro ser um porta-voz na batalha contra o maior mal da África: a aids. Trabalho para desenvolver oportunidades educacionais para as crianças do Senegal com as minhas doações a escolas e centros de treinamento. A guerra não pode ser evitada por indivíduos controlados pelas superpotências. Mas os que clamam contra a devastação da guerra fazem a diferença. Assim, junto minha voz às vozes dos que se opõem às ações ilegais ou imorais sempre que há oportunidade. Todos podem contribuir com algo para as causas justas e, entre elas, para a causa da paz, de acordo com seus meios e condição de vida.

SGIQ: A própria cultura de seu país lhe é muito importante. Como você acredita que as pessoas possam manter sua própria cultura e, ainda assim, estarem abertas às rápidas mudanças do mundo?

YN’D: A preservação da própria cultura é algo natural. É uma questão de respeitar a si mesmo e à sua família e nação. É uma maneira de dizer ao seu próprio povo, como os zulus dizem: “Umuntu ngumuntu ngabantu”, ou seja, “Eu sou quem sou por causa de você.” Em outras palavras, ninguém deseja ser banido do mundo nem ser forçado a viver num gueto. Assim, todos têm uma inclinação natural para partilhar sua cultura, o que de forma nenhuma significa diluí-la — ou, pelo menos, não deveria. A história do mundo, nos tempos de paz, é a descrição de enriquecimento mútuo por meio do intercâmbio de culturas. Por isso, a preservação e o intercâmbio podem e devem andar de mãos dadas. Ambos tornam as coisas mais baratas para todos, exceto quando o comercialismo ganancioso interfere. Podemos também ser vigilantes com relação a isso.
SGIQ: O que você tem aprendido nesse trabalho com músicos de diferentes culturas?

Consigo compor, produzir e me apresentar com uma visão de “360 graus”, graças a toda a experiência que adquiri com pessoas talentosas de lugares distantes do Senegal, que são agora parte de meu cenário musical interior.

YN’D: Interagir com músicos de diversos países me traz grande alegria e me ensina muito. Minha “palheta musical” é repleta de idéias, cores, sentimentos e temas diferentes. Consigo compor, produzir e me apresentar com uma visão de “360 graus”, graças a toda a experiência que adquiri com pessoas talentosas de lugares distantes do Senegal, que são agora parte de meu cenário musical interior.

:: Riquezas culturais da África

SGIQ: Neste amanhecer do século XXI, o que você acredita que a África e a cultura africana têm a oferecer ao mundo?

YN’D: A África pode ensinar muita coisa ao mundo. Somos uma “sociedade da informação”, antes mesmo de essa frase ter sido pensada, pois a transmissão cultural tem sido parte da índole africana: o poder de mudança da cultura sempre foi significativo nas sociedades africanas. A sociedade africana valoriza a recuperação e a transferência cultural. Por isso, a África pode entrar na era digital de forma mais graciosa do que se poderia esperar. Com as ferramentas básicas, os africanos podem fazer muito na expansão dos setores de informação. Acredito ser plenamente justificável o otimismo africano pelo potencial da internet, de permitir às economias africanas acelerar a industrialização e aspirar a uma parceria mais igualitária na economia mundial do futuro. No Senegal, por exemplo, os recursos humanos são enormes, ao passo que faltam recursos tecnológicos e naturais. Agora, numa economia mundial transformada pela internet, novas oportunidades surgem para os jovens senegaleses capazes de acessar a rede. Estou comprometido a fazer minha parte para assegurar que a África não fique para trás nos mercados mundiais pós-industrializados, em que a internet é a infra-estrutura mais importante.

A música possui uma forma inexplicável de elevar a humanidade às suas mais nobres ações.

SGIQ: O que “paz” significa para você? Como a música pode ajudar a unir as pessoas, curar as divisões e criar a paz?

YN’D: A paz vem de Deus. Ele é o grande unificador de tudo. A música, da forma como a conheço, é um caminho privilegiado de intimidade com Deus e com sua paz.

SGIQ: Seu último álbum, “Egito”, cujas canções foram apresentadas recentemente no festival “Fèz de Música Sacra Mundial”, no Marrocos, parece ser uma meditação sobre sua fé islâmica e uma forte afirmação do pacifismo do Islã. Qual foi sua abordagem nesse álbum?

YN’D: “Egito” surgiu de um encontro religioso no Senegal, o que naturalmente já é único, com sua fórmula sincrética de cantos de louvor em um contexto de inspiração sufi. Mesmo assim, além de suas particularidades senegalesas, “Egito” também é uma confluência das espiritualidades muçulmanas, uma mistura de sentimentos religiosos, história e pesquisa. Oro para que o encontro de “Egito” com o divino irradie-se por todo o álbum e alcance seus ouvintes. Oro para que “Egito” se prove um precursor do apreço pelas diversas potencialidades da arte musical — e da vida — não apenas do mundo muçulmano, mas de todas as comunidades de fé.


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.