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Julho/Setembro
2004

Destaque
Azra: unidos pela música
Dr. Svanibor Pettan

“Música é arma”, afirmou o músico nigeriano Felá Kuti. Os políticos em várias partes do mundo, conscientes desse fato, tentam controlar a música e os músicos para evitar seu impacto “potencialmente” negativo. A junta chilena matou o cantor Victor Jará, e mesmo certos instrumentos musicais foram considerados uma ameaça política décadas atrás, como os instrumentos dos indígenas dos Andes, no Chile, ou os instrumentos turcos na Bulgária.

As civilizações do passado, tão diversas quanto chineses, egípcios e gregos, usavam a música para o desenvolvimento da personalidade. Hoje, os músicos geralmente desempenham um importante papel ao transmitir mensagens sobre questões sociais.

O projeto norueguês Azra, implantado em 1994 para a melhoria da situação dos refugiados da Bósnia-Herzegóvina, englobando principalmente os bósnios de tradição islâmica, os sérvios da Igreja Cristã Ortodoxa e os croatas da Igreja Católica Romana. Na época da desintegração da Iugoslávia, o senso de identidade étnica das pessoas tornou-se alvo de intensa manipulação política. A mídia costumava persuadir as pessoas de que elas tinham mais em comum com as outras de mesma etnia do que com seus vizinhos, não importando a distância que as separava, e que a coexistência era impossível.

O equilíbrio entre os relacionamentos locais ou regionais e os étnicos com “reconhecimento da diversidade cultural e a coexistência como uma qualidade intrínseca da vida” foi seriamente desafiado durante a guerra dos anos 1990.

Cerca de onze mil refugiados da Bósnia-Herzegóvina constituíram o maior campo de refugiados na Noruega em 1994 e se depararam com muitos problemas sociais e psicológicos. O projeto Azra foi elaborado com base nas evidentes semelhanças etno-musicais e antropológicas entre os bósnios para confrontar a propaganda de que as pessoas de diferentes afiliações etno-religiosas não poderiam viver juntas. O projeto almejava auxiliar os refugiados que viviam na Noruega e também prepará-los para coexistirem na Bósnia-Herzegóvina multiétnica do futuro.

O projeto Azra foi elaborado com base nas
evidentes semelhanças etno-musicais e
antropológicas entre os bósnios.

O Azra estava fundamentado em três atividades relacionadas: pesquisa sobre a identidade cultural dos refugiados, especificamente a identidade musical; educação de noruegueses e bósnios na Noruega por meio do projeto Música no Exílio, das aulas na Universidade de Oslo e de palestras bilíngües em centros de refugiados; e apresentações musicais do conjunto musical Azra. Cada uma dessas três categorias integrava-se às outras duas, também recebendo apoio mútuo.

Após aprenderem a executar um pouco da música Bósnia, os estudantes noruegueses foram apresentados a músicos bósnios refugiados, e todos trocaram ensinamentos de ritmos da Noruega e da Bósnia. Nos anos seguintes, o conjunto musical executou concertos em campos de refugiados por toda a Noruega, apresentando-se em vários encontros públicos e recebendo considerável atenção da mídia.

As intenções do projeto Azra eram: 1) oferecer a todos os bósnios, independentemente de seu laço etno-religioso, um conceito musical com o qual pudessem se associar e 2) atrair a atenção pública sobre a Bósnia-Herzegóvina.

Ao criar um conceito musical verdadeiramente bósnio, foi importante observar que os músicos de todos os grupos étnicos da Bósnia “participavam da preservação, evolução e afirmação” da música secular rural, da svedalinka e de outros gêneros musicais urbanos, considerando-os como uma espécie de “música folclórica urbana ecumênica da Bósnia-Herzegóvina”, ou simplesmente “sua música”.

O repertório e os instrumentos do Azra refletem a cultura urbana da Bósnia-Herzegóvina. Canções bósnias cuidadosamente selecionadas, que costumam ser apreciadas independentemente de rótulos étnicos ou religiosos, tinham um forte impacto nas audiências.

As avaliações do projeto indicaram um fortalecimento da identidade cultural bósnia entre os refugiados e também o aumento quantitativo e qualitativo na comunicação entre bósnios e noruegueses.

Sead Krnjic, cantor do Azra, comenta: “Isso é muito importante para o nosso povo da Bósnia-Herzegóvina. Enquanto faço música para eles sinto... que estamos abrindo novamente corações e mentes... após todo o sofrimento que passaram, acho que o sevdah os torna vivos novamente...”


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