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Julho/Setembro
2004

Destaque
Música e Mediação
Prof. Kjell Skyllstad

Há duzentos anos, em sua ópera “A Flauta Mágica”, Wolfgang Amadeus Mozart, num suave dueto entre Pamina e Papageno, expressou a esperança utópica da unificação da humanidade pela força da música.

Essa fusão lírica ocorre depois de uma demonstração veemente da força da música para canalizar e desviar as emoções agressivas e as ameaças da ação destrutiva ao se liberar a dança. Refiro-me à memorável cena em que os muçulmanos banem Monostatos e seus auxiliares, após terem raptado Pamina (a heroína) e Papageno, abandonando suas cruéis intenções e lançando-se à dança.

Além de essa mensagem de “A Flauta Mágica”, por si só, parecer forte ainda hoje, Mozart também se referiu, na mesma ópera, às causas subjacentes do comportamento agressivo que prevalece em nossas sociedades, como ocorria na realidade do compositor: exclusão, humilhação e demonização. “Não sou eu de carne e osso?” Grita o muçulmano banido em uma ária cheia de desespero. Quando Monostatos e Papageno se conhecem, ambos imaginam que o outro é o próprio diabo.

:: Mau uso da música

A especial responsabilidade dos artistas em combater a exclusão étnica está no fato de que a discriminação racial e a humilhação são freqüentemente justificadas por matérias estéticas. Durante o Holocausto, os prisioneiros nos campos de concentração foram humilhados e torturados até perderem seu caráter humano e, assim, serem aniquilados. Mesmo a música tornou-se um instrumento de humilhação quando os prisioneiros nos campos nazistas eram forçados a tocar valsas vienenses durante as execuções.

O racismo, à medida que ganhava força na Europa durante os últimos anos do século XIX, não foi promovido apenas pelas ciências sociais, mas também pelos mais apaixonados promotores das ciências humanas e das artes. O papel das artes em codificar e justificar a estratificação ética e social teve importante influência nos movimentos de eugenia, que defendiam uma higiene social. Apelando para uma sensibilidade estética, traçaram uma linha entre o primitivo e o nobre, o selvagem e o culto, o moralmente superior e o degradado — um retrato em preto-e-branco do mundo revivido hoje pelos políticos demagogos da guerra contra o terror. Hitler, durante seus anos de estudante em Viena, adotou a idéia da desigualdade social como justificativa para a aniquilação de raças inferiores, a partir dos escritos do extremista de direita Lanz Von Liebenfels e do encontro com ele.

Nos conflitos recentes, da Guerra do Vietnã à brutal campanha no Iraque, o uso da música como um instrumento de terror chamou a atenção pública. Alguém ainda pode se lembrar do bombardeio musical de Sarajevo por Radovan Karadzic, cantando a guerra sérvia pelos autofalantes gigantes situados nas colinas acima da cidade sitiada. E nos campos de concentração, os prisioneiros eram forçados a cantar canções patrióticas da Sérvia, como um outra forma de tortura. O recente uso da música em alto volume para acalmar os prisioneiros no Afeganistão e no Iraque também tem sua própria história.

:: Música e transformação de conflito

A Guerra do Vietnã tornou-se um marco na história da música. O grande mobilizador nos movimentos contra a guerra em todo o mundo foi a música, as canções de protesto ouvidas nas passeatas, entre os jovens e em milhões de lares. Teve também um papel fundamental em manter o ânimo do povo vietnamita, coforme contou-me Nguyen Thi Binh, ministra das Relações Exteriores da Frente de Libertação Nacional, em sua visita à Noruega, na época das conversações de paz em Paris. Ela descreveu como, durante os trovões do mais pesado dos bombardeios, as pessoas se aliviavam cantando.

A história de como artistas engajados foram de grande importância em evitar e solucionar conflitos destrutivos ainda tem de ser escrita. Ela remonta à antigüidade, quando os artistas freqüentemente acompanhavam as missões diplomáticas. Monumentais imagens em relevo nas ruínas da antiga Persépolis contam a história dessa diplomacia musical. Diz-se que a primeira missão diplomática ao império romano da antiga Taprobane (Sri Lanka) incluiu um trompetista. Na história recente de meu próprio país, a Noruega, Edvard Grieg, nosso grande compositor nacional, tornou-se importante figura no bem-sucedido movimento que evitou a guerra com a Suécia durante a questão da independência em 1905.

Um crédito especial deve ser dado aos mensageiros musicais — músicos que transitavam entre culturas com a capacidade de mediar situações de conflito. Entre esses, a função de Roma na Europa atraiu a atenção recentemente. O Dr. Svanibor Pettan, em seu estudo “Músicos Ciganos em Kosovo: Interação e Criatividade”, mostra como os ciganos, ao apresentarem habilmente um repertório multiétnico, construíram pontes musicais no tecido étnico da cultura de Kosovo. Ele lembra a triste série de eventos em que os ciganos tornaram-se vítimas silenciosas da guerra que, a todo custo, queriam evitar. Muitos morreram durante o conflito e muitos outros foram obrigados a fugir no final dos anos 1990.


Kjell Skyllstad acende uma lâmpada da paz no Primeiro Festival Musical Multicultural no Sri Lanka, em
janeiro de 1999, junto com o
ministro da Educação e da Cultura.
O festival foi resultado de três anos de um projeto de cooperação entre
a Universidade de Oslo e a Universidade Kelaniya, de Colombo.

No Sudeste da Ásia, a harmonia social é promovida por meio da música em um contexto social que envolve todas as faixas etárias — a cada semana, uma das vilas em Bali realiza um encontro num clube de música, quando os moradores dos vilarejos são estimulados a interagir musicalmente, cada qual apresentando livremente propostas sobre como a música deve ser tocada. Esse processo de interação musical, não o produto final, é a essência dessa tradição — cada ensaio, um concerto.

Da mesma forma, a educação musical formal do Sudeste da Ásia trabalha para maximizar os benefícios sociais com o uso de instrumentos especiais que produzem apenas uma nota, os angklung. As crianças são responsáveis por essa única nota. O desenvolvimento das habilidades sociais e musicais reside então na integração. Essas tradições musicais nas ilhas da Indonésia podem, de fato, ser incorporadas a programas de reabilitação social. Alguns anos atrás, eu gravei as tradições musicais de percussão das ilhas de Lombok, adotadas por um centro de reabilitação de delinqüentes juvenis. Duelos ritualizados de música e dança encontrados na Ásia e na América Latina, como o silat ou a capoeira, podem ajudar a liberar a pressão reprimida e evitar o comportamento destrutivo ou agressivo.

Em paralelo à função dos músicos ciganos na Europa, desde os primórdios do reino de Mali, uma linhagem especial de músicos da África Ocidental e de promotores culturais, chamados griots ou jallies, tem sido de maneira importante os construtores da paz em toda a região. Na África Oriental, as tradições dos ngoma apontam para a ampliação das funções da música e da dança na resolução de conflitos.

Os estudos de culturas musicais da África do Sul do musicólogo John Blacking, especialmente sobre o povo venda, mostram como a música torna possível o relacionamento com mais proximidade entre os membros de um núcleo social e a transcendência da posição individual, mais que nas sociedades ocidentais.

A música que seria executada por um único indivíduo é modificada para todo um grupo. A estrutura resultante, que pode corretamente ser chamada de polifonia democrática, enriquece tanto a música quanto a situação social. Ela fortalece o indivíduo e a consciência coletiva, gerando energia humana maior. O reconhecido educador musical Christopher Small relaciona o desenvolvimento da música africana à busca de meios para administrar e conter os impulsos sociais desagregadores.

:: Terapia musical comunitária e individual

A música pode ser encontrada exatamente no âmago do processo intercultural de unir as pessoas. Desde os primórdios da humanidade, as atividades musicais têm sido ferramentas no treinamento e aprimoramento da capacidade humana para a comunicação, o relacionamento social e a interação democrática em todos os níveis. O segredo dessa capacidade incomum do meio artístico está na inclinação inata e universal do homem pela música.

Os processos psicológicos e cognitivos essenciais geradores da composição e apresentação musicais podem até ser herdados geneticamente — estão portanto em cada ser humano. E a música é interpretada por meio das mesmas faculdades psíquicas que usamos para traduzir outros aspectos do sistema sociocultural em que vivemos. Pela interação musical, duas pessoas, dois grupos ou duas nações estabelecem a empatia que nenhuma outra forma de intercurso social e cultural poderia estabelecer, criam formas de abrigar para sempre as impressões da dinâmica social no próprio tecido da composição musical.

A história de como artistas engajados foram de grande
importância em evitar e solucionar conflitos destrutivos
ainda tem de ser escrita.

Mesmo a origem das estruturas formais avançadas do concerto, da sinfonia e da sonata pode ser encontrada nos arquétipos de interação social, e seu desenvolvimento está intimamente ligado à dinâmica social e especialmente à transformação do conflito. Formas musicais ampliadas desdobram-se no tempo em uma interação de ritmo, melodia e contraste harmônico. Os conflitos podem também ser vistos em suas fases: a exposição, seguida pela sua resolução na fase do desenvolvimento, e a reconciliação na recapitulação.

Bob Marley apresenta-se no histórico concerto da paz “One Love”, em Kingston, Jamaica, em 22 de abril de 1978, que marcou uma trégua no conflito entre o Partido Trabalhista da Jamaica e o Partido Nacional do Povo. Bob convenceu o primeiro-ministro Michael Manley (esq.) e o líder da oposição Edward Seaga a juntarem-se a ele no palco e apertarem as mãos. Por esse e outros esforços, ele recebeu a Medalha da Paz das Nações Unidas.

Algumas vezes, os conflitos abrangem toda a obra e encontram a resolução no finale. O ouvinte é atraído pelo fluxo dinâmico do processo musical. Ele não é apenas estimulado emocionalmente, mas convidado e encorajado a mobilizar sua capacidade de imaginação e suas habilidades cognitivas. Isso significa que o processo musical motiva o ouvinte para a resolução do problema, mobilizando sua capacidade psíquica para reconhecer e vivenciar relacionamentos, explorar possibilidades, predizer resultados e conseqüências, relacionar o todo a suas partes e por fim — mas não por último — buscar soluções alternativas.

Nas sociedades freqüentemente consideradas como primitivas, a harmonia social e o equilíbrio ecológico são renovados e geralmente restaurados por meio de ritos sociais com um núcleo simbólico e um repertório terapêutico de música e dança. É reconhecido que os rituais possuem um grande potencial, tanto para preservar quanto para alterar as normas e os valores das sociedades. Os conflitos são solucionados por meio de uma dramaturgia terapêutica com o objetivo de restaurar o equilíbrio pessoal e o social na comunidade. Minhas próprias experiências estão relacionadas à pesquisa do papel dos ritos na terapia individual e comunitária em áreas de conflito no sul e no sudeste da Ásia, com especial atenção no Sri Lanka. A música e a dança são fundamentais nesses ritos, bem como as cerimônias de reabilitação de Yak Tovil e de Riddi Yaga, esta última um ritual para mulheres estéreis.

:: Musicalidade comunicativa

Na Europa, o desenvolvimento da Comunidade da Terapia Musical poderia criar uma perspectiva similar. Aqui, como na Ásia, essa terapia é praticada em estabelecimentos comunitários abertos e não-clínicos, voltada para os ambientes ameaçados pela pobreza material e cultural, injustiça, violência e conflito. Ela deriva sua raison d’être da visão da música como um agente de socialização e como age na sociedade por meio do que pode ser denominado de musicalidade comunicativa. Nisso se encontra a base para a construção de paz. Christopher Small enfatiza o papel da música como construtora de relacionamentos.

A música pode ser encontrada exatamente no âmago do
processo intercultural de unir as pessoas.

Experiências em muitos países mostram a importância de se fazer planos e previsões para o estabelecimento e a continuidade de locais onde esses processos de comunicação intercultural possam ser realizados.


Taraf de Haïdouks, uma das mais importantes bandas ciganas da Romênia. Veja em www.divanoprod.com
Ao discutir a apresentação musical como um rito, Small vê os participantes como integrantes de uma sociedade ideal que eles mesmos criam. O participante individual, da mesma forma, modela seu relacionamento pessoal a essa sociedade pela criação de estruturas musicais ou formas de dança.

As nações do Oriente Médio e da Ásia Central envolvidas no diálogo com a Grécia antiga contribuíram de forma significativa para a terapia musical. Em uma de minhas visitas ao Uzbequistão, na Ásia Central, ao perguntar se havia musicólogos na região, fiquei surpreso quando alguém mencionou Abu Ali Ibn Sina (Avicena, nos escritos de Shakespeare), como um de seus grandes músicos. Nascido em Bukhara (Uzbequistão) no século X, esse músico, filósofo e médico foi um dos fundadores da terapia musical no mundo árabe. Nas cidades de Kufa, Fallujah e Bagdá, as bases científicas e práticas dessa terapia estabeleceram-se há doze séculos. Um importante cientista de Bagdá, Al Kindi, em sua monumental obra “Kitab Al-Siysa”, descreve como distúrbios mentais podem ser corrigidos com a música. E assim foi criada que a forma musical da suíte (nauba, na tradição árabe), com seu potencial para o efeito terapêutico e, por meio de sua dramaturgia musical, para a dispersão das forças agressivas. Eu mesmo tenho observado músicos nobat (nauba) na Província de Kedah, na Malásia, praticando a cura em sua torre. Todas as sextas, mães de crianças com doenças incuráveis dirigem-se aos músicos reais sentados no pavimento superior da torre nobat, em frente à mesquita central. Por meio da força dos instrumentos e da música, as mães anseiam pela cura de seus filhos. Esse gênero musical da nauba chegou à Europa pelo mestre musical Zyriab, de Bagdá, no ano 722, com o estabelecimento de uma famosa academia musical em Córdoba.

:: Curando as feridas da guerra

Um importante campo musical para a terapia musical comunitária é confrontar os efeitos de um conflito. Julie Setton editou recentemente “Music, Music Therapy and Trauma”, baseado em experiências na Irlanda do Norte e que trata os traumas como fenômenos culturais, sociais e psicológicos, vistos em relação ao contexto político e social. Nessa obra, Marie Smyth sugere formas de a música ajudar a curar as feridas do conflito na Irlanda do Norte.

“A terapia musical em sociedades divididas poderia utilizar abordagens que contribuíssem para a reconstrução de nossa sociedade após um período de destruição e de divisão, como o que vivenciamos. A terapia musical em sociedades divididas, como a da Irlanda do Norte e outras, poderia criar uma oportunidade para explorar criativamente nossas divisões e contribuir para a nossa capacidade de compreender e transformar essas divisões em sociedades harmoniosas, em vez de dissonantes.”

Em conclusão, sugiro a seguir algumas formas para envolver o sistema escolar em atividades de transformação de conflitos.

:: Cooperação para a paz

A educação para democracia, desenvolvimento e preservação da sociedade civil dependerá do avanço do ensino fundamentado na cooperação. Os princípios de aprendizado cooperativo são vistos como uma contribuição para um desenvolvimento efetivo e simultâneo das habilidades individuais e sociais: interdependência positiva, responsabilidade individual, participação igualitária e interação simultânea. Num contexto multicultural, o aprendizado cooperativo demonstrou um grande potencial para a redução ou prevenção de conflitos. Fazer música — o que não depende de proficiência verbal e que ultrapassa barreiras de linguagens — é uma forma ideal de ensino cooperativo. Nos grupos musicais, os estudantes trocam idéias numa interação criativa que homenageia todos os princípios desse ensino.


Malo Sonko, Baba Kone e membros da Drum Café UK apresentam-se na catedral Southwark. A banda, originária da África do Sul, também utiliza sua arte para promover atividades sociais. Veja www.drumcafe.com
O próximo artigo apresenta o projeto Azra, iniciado em 1994 pelo Dr. Svanibor Pettan, também autor do texto. Seu objetivo era observar os efeitos psicossociais de um programa de interação musical entre estudantes de música da Noruega e refugiados da Bósnia, baseado no sucesso do projeto Comunidade Ressonante, que mostra nas escolas a música provenientes das culturas de pessoas que imigraram para a Noruega.

Esse e outros programas de países nórdicos mostram o grande potencial da educação da paz por meio da música e têm influenciado programas de educação em países dentro e fora da Europa, incluindo regiões de conflito étnico. A despeito das reviravoltas no cenário político, dedicados professores e promotores culturais em todo o mundo, geralmente sob circunstâncias muito difíceis, trabalham para tornar o sonho de Mozart verdadeiro. Eles necessitam de nosso apoio.

O musicólogo Kjell Skyllstad é professor emérito do Departamento
de Música e Teatro da Universidade de Oslo. Como ativista da paz e pesquisador, ele atua internacionalmente na exploração do potencial
da música para evitar e solucionar conflitos.


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