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Julho/Setembro
2005

Gente
Ponte para um mundo sem som
Shin'ichi Yoshida


Shin’ichi (o segundo da direita) apresentando-se em um grupo teatral de surdos.
Vivo em um mundo sem som desde que nasci, em 1967. Num dia chuvoso, minha mãe se perguntou por que um bebê como eu não estava chorando de medo dos trovões. Ela me levou a um hospital para um check-up e descobriu que eu era surdo. Desde então, toda a minha família se viu envolta na luta para “levar uma vida normal”.

Quando eu tinha quatro anos, iniciei meu treinamento de voz em uma escola para crianças surdas-mudas. Levou quase dois anos até que eu conseguisse pronunciar os 50 fonemas do alfabeto japonês. As crianças de minha vizinhança zombavam de mim devido à deficiência auditiva, e eu sabia que minha mãe ficava realmente irritada com isso. Mal podia pronunciar a oração budista, Nam-myoho-rengue-kyo. Naquela época, eu estava com cinco anos.

Jamais desista

Cercado pela família e amigos que me apoiavam, eu estava relativamente tranqüilo até me formar no ensino médio, por volta dos 20 anos. As tentativas frustradas — por causa da deficiência — de conseguir um emprego causaram-me grande sofrimento. Algumas das empresas que visitei recusavam-me instantaneamente ao saber que era surdo. Meu pai me incentivava, dizendo: “Jamais desista, não importa o que aconteça. Se continuar a seguir o budismo, sei que encontrará um emprego em que descobrirá seu senso de propósito e missão.” Segui seu conselho e, em 1993, quando estava com 26 anos, consegui um emprego numa importante companhia de recrutamento. Era a 48ª empresa que visitava em minha “caça ao emprego”. E eu trabalho nela até hoje.

Embora tenha encontrado algo poderoso no budismo, no início relutava em participar regularmente das reuniões de surdiálogo da Soka Gakkai, pois elas eram realizadas no mundo dos sons. Sentia que era deixado de lado porque não podia me juntar e me confraternizar com os demais.

Um jovem integrante da Soka Gakkai visitava-me freqüentemente para me incentivar e tentava comunicar-se comigo por escrito. Ele escrevia: “Vamos a uma reunião.” E eu respondia: “Não quero porque não consigo ouvir nada.” Ele continuava: “Então, estudarei a linguagem dos sinais por você.” Devido aos seus esforços, o estudo da língua dos sinais começou a se propagar naquela comunidade. Seus calorosos incentivos me comoveram e pude perceber como gostava de estar com eles. Eu também me encontro algumas vezes com outros integrantes surdiálogo dos para conversarmos sobre o budismo.


Shin’ichi com seu amigo Jock
no Deaf Way 2, realizado nos Estados Unidos.

Inspirado pela minha experiência na Soka Gakkai, comecei a pensar que seria muito importante fazer algo pela sociedade. Hoje, atuo voluntariamente como ator e ajudante de palco em um grupo teatral formado por surdos. Também ofereço aconselhamentos para pessoas surdas que sofrem com as intimidações e outros problemas na sociedade.

Ao proferir palestras na linguagem dos sinais em escolas de nível fundamental, vejo que muitas escolas infantis sentem pena dos deficientes. Eu digo então: “Não se deve ter pena dos deficientes. Eles geralmente são muito determinados. Alguém que não consegue ouvir, ainda assim, pode superar grandes dificuldades e atingir seus objetivos na vida por meio de seus próprios esforços.”

Sou feliz porque se começa a compreender as pessoas surdas como um grupo minoritário que mantém a linguagem dos sinais como cultura própria.

Em 2001, participei de um programa de TV e de palestras usando a linguagem de sinais. Eu também estudei a linguagem americana dos sinais e participei de um evento internacional, o Deaf Way 2, que teve apoio da Universidade Gallaudet e foi realizado em Washington D.C., em 2002.

Senti mais do que nunca que essa linguagem é uma forte “arma” para unir os corações dos povos, independentemente da etnia e das fronteiras.

Minha fonte de energia para me desenvolver são as atividades da Soka Gakkai. Como muitas delas são desafiadoras, sinto- me feliz e forte quando obtenho sucesso. As pessoas vivem em um mundo onde os sons significam muito. Contudo, ouso entrar nesse ambiente porque acredito que minha missão é ser uma ponte entre o mundo de sons e o sem sons.


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