Mas, nas reuniões, quando aumentava minha preocupação de que um conceito ou uma solução seria de difícil aceitação para um consumidor, eu sentia com mais freqüência o desejo deles de que simplesmente eu fosse embora.
“Desculpe-me”, eu interrompia com cuidado. “Poderíamos projetar a porta do refrigerador para que alguém com artrite abrisse com facilidade?”
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Quando compreendida
apropriadamente, a não-violência
se torna a mais poderosa força
para a mudança.
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Os olhos rolavam, os lápis eram jogados nas mesas e uma resposta típica enchia a sala.
“Pattie, nós não projetamos para essas pessoas!”
Essas pessoas.
Essas pessoas?
Se um dos maiores e mais renomados escritórios de design do mundo não se preocupava com as necessidades “dessas pessoas”, então, quem se preocuparia? E mais importante: por que não nos preocupávamos?
Design para deficientes

A Universal Design desenvolve
e fabrica produtos utilizáveis,
para pessoas com os mais
diversos limites de habilidades. |
Como era possível criar um produto e não considerar todos os seus potenciais consumidores? Por que projetávamos soluções que negligenciavam o uso eficiente, seguro e agradável de qualquer pessoa que queria comprar o produto? Qual a razão da comunidade de designers eliminar as pessoas como consumidores com base no que elas não conseguiam fazer? |
Os designers não deveriam ser responsáveis pelo desenvolvimento de características para qualquer produto e local que considere e respeite as capacidades gerais e individuais do consumidor em um contexto razoável de uso?
Você tenta desesperadamente, mas não consegue encontrar aquele local indefinível no aeroporto onde realmente possa ouvir alguém em seu celular.

Patricia Moore vivendo
a vida de uma idosa.
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Você equilibra os pacotes do supermercado, a bolsa e seu filho enquanto tenta abrir a porta de casa. Ou no momento em que você está tentando abrir o frasco de xampu com as mãos ensaboadas, alguém aperta a descarga do vaso sanitário diminuindo e esquentando demais a água do chuveiro. Isso faz você pular para o tapete ou perder o equilíbrio e cair no chão duro e cruel do banheiro. Ou se arrisca tentando se equilibrar em cima de uma cadeira para trocar a lâmpada da cozinha que queimou. |
Quando as anomalias de um nascimento, os efeitos de uma doença ou os resultados de um acidente criam uma condição cognitiva ou física, tradicionalmente conhecida como deficiência, combinados com nossos desafios diários, nossa qualidade de vida, autonomia e independência por um fio.
Nós nos tornamos incapazes por causa do design.
Atualmente, mais de 31 milhões de americanos passaram dos 65 anos (13% da população). E, por volta do ano 2030, esse número crescerá para 21%. Um em cada três americanos vive em uma condição física ou cognitiva que cria a necessidade de meios compensatórios para realizar as atividades diárias. E toda a população vive e trabalha com famílias e pessoas cuja vida é definida por questões de idade ou habilidade.
“Essas pessoas.”
Experimentando o futuro
E assim, em 1979, empreendi uma fascinante jornada pelo futuro. Determinei explorar a vida como se fosse uma mulher de 80 anos, fisicamente transformada pelo curso do tempo: uma mulher vivendo numa cultura dirigida para a juventude.
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Por que projetávamos soluções
que negligenciavam
o uso eficiente, seguro
e agradável de qualquer
pessoa que
queria comprar o produto?
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Por meio de alterações protéticas, tanto de minha aparência física quanto de minhas habilidades, transformei meu corpo de 26 anos no de uma mulher com 80 anos de idade.
Com roupas variadas, eu me tornei uma mulher com diferentes níveis sociais. Lentes de contato embaçavam minha visão e aparelhos auditivos reduziam meu nível normal de audição. Alterei minha postura e meus movimentos para retratar uma variedade de condições de saúde e habilidades pessoais. Usando bengalas, andadores e uma cadeira de rodas, fui capaz de me aproximar de uma mobilidade reduzida e encarar a inacessibilidade física e emocional.
Enquanto estava caracterizada, viajei para mais de cem cidades pelos Estados Unidos e Canadá. Experimentei, em primeira mão, a reação das pessoas, jovens e mais velhos que, após encontrar uma mulher idosa, fisicamente transformada, escolheram apoiar minha presença ou olhar para o outro lado. Mostrei gentileza, amizade e amor. E experimentei rejeição, ódio e receio.
Fui atacada por uma gangue de jovens numa rua isolada da cidade, assaltada e deixada para morrer. Os ferimentos que suportei deixaram- me um desafio permanente e uma dor constante.
Quando ressurgi como uma mulher de 30 anos, eu havia mudado para sempre, como pessoa e como profissional. O amor e o respeito por meus avós que haviam inspirado minha jornada fundiramse com a experiência pessoal do impacto da idade e a negligência de um design apropriado. Uma paixão pelas criações inclusivas para todo o período de vida humano nasceu com a dedicação pelas soluções universais do design.
Com todas as nossas boas intenções, parece que antes o design comunitário geralmente fazia pouco mais do que preencher portfolios de estudantes com os melhores objetivos, para depois perpetuar profissionalmente os mitos e os preconceitos, evitando-se ir ao encontro das necessidades do consumidor. Resultado: um
produto e um design ambiental que é pouco mais do que pejorativo.
“Essas pessoas.”
A prótese definitiva
Com força para a criação e a mudança, os designers precisam voltar atrás, analisar nossa missão e retomar nosso papel como fornecedores responsáveis da qualidade de vida aos consumidores. A necessidade pelo “humanismo” no design nunca foi tão crucial.
Ao afirmar — erroneamente — que algumas pessoas, devido a sua idade, forma física e habilidade funcional, podem ser dissociadas da cadeia produtiva, falhamos em fornecer a base necessária para atender aos desejos, necessidades e sonhos dos consumidores.
Os falsos estereótipos que encobrem os fatores da idade e habilidade criaram poderosos eufemismos que confundem as melhores emoções.
Quando insistimos em descrever as pessoas como “jovens” ou “idosas”, “capacitadas” ou “deficientes”, criamos campos conflituosos de atenção e ação.
Ninguém é velho. Todos temos uma idade. Ninguém é deficiente. Todos temos habilidades diferentes e distintas.
Enquanto condições crônicas de saúde, efeitos da doença, idade e acidentes criarem consumidores que usem cadeiras de roda para andar, olhos para ouvir e dedos para ver, sempre haverá espaço para produtos de necessidades específicas e compensações ambientais. Mas esses requisitos são mais bem considerados em uma filosofia de design na qual mesmo as chamadas situações especiais se tornem lugares- comuns.
A menos que mudemos nossas atitudes e percepções do “normal”, continuaremos a criar passagens seguras para alguns e barreiras para outros.
À medida que os consumidores negociam os riscos da vida cotidiana, devem ser capazes de ver os designers como exploradores do mundo físico.
O design é a prótese definitiva dos verdadeiros capacitados. Nossa tarefa é excitante. Além dos limites da estética, temos a capacidade de
moldar a própria qualidade de vida em si.
Patricia Moore é presidente da Moore Design
Associates e considerada uma das fundadoras
da metodologia de design universal. |