Edições Anteriores
Julho/Setembro
2005

Destaque
Difundindo a conscientização sobre a deficiência
Jeremy Opperman


“...esse processo encoraja-os
a compreender o enigma que é a deficiência.
Isso os leva ao encontro da deficiência
em seus próprios termos...”


O que é deficiência? É somente algo associado à aflição de um indivíduo? Ou tem a ver com o relacionamento entre as pessoas com deficiência e a sociedade? De fato, quais são as diferenças entre barreiras e deficiência?

Por que a deficiência é esse paradoxo, despertando atenção e reticência ao mesmo tempo? A resposta é que ainda pouco se sabe sobre deficiência para se tomar decisões informadas que possam afetá-la e direcioná-la.

Isso em si não deveria ser surpresa, se refletirmos que poucas pessoas realmente trabalham com um portador de deficiência. Ou como poucos foram à escola ou à universidade com alunos com deficiência. Como a época escolar é a mais interativa de nossa vida, onde mais podemos encontrar, interagir e conhecer pessoas com deficiência?

Em meu próprio país, a África do Sul, apesar de representar um segmento nada desprezível da população, não menos de 10% ou 15%, a deficiência ainda é considerada algo estranho e novo no campo profissional.

A couve-de-bruxelas da igualdade

A verdade é que cerca de 95% das pessoas com deficiência na África do Sul estão desempregadas. Ao mesmo tempo, a avassaladora maioria das crianças portadoras de deficiência está matriculada em “escolas especiais” e, tristemente, uma quantidade muito elevada de crianças com deficiência ainda não aparece nas estatísticas.

Em conseqüência, a existência de pessoas deficientes “fora das vistas” conduziu a uma ampla atitude fora do normal entre as consideradas normais, resultando em total ignorância e freqüente falta de consideração do que é, de fato, um fenômeno perfeitamente natural. Em vez disso, toda uma subcultura de mitos, estereótipos e simplificação circunda e substitui os fatos e a verdade.

Isso pode ser ilustrado pela minha própria experiência após me formar na universidade, ao me deparar com a percepção tacanha da sociedade sobre oportunidades de emprego para qualquer pessoa com deficiência. Felizmente, sendo apenas deficiente visual e não tendo de superar as tradicionais barreiras físicas, essas “oportunidades” realmente existiam, ainda que na forma de um conjunto limitado de comandos diante de uma mesa telefônica. Dezoito anos depois, mesmo em nosso país altamente diversificado e cônscio, e apesar da melhora nas legislações, a deficiência ainda é uma couve-de-bruxelas de igualdade. Como costumo dizer: aquilo que fica por último em seu prato e, se ninguém o repreender, você deixa de lado.

A inegável possibilidade de que a deficiência pode, gradual ou instantaneamente, afetar a vida de qualquer um ou a vida daqueles próximos, é raramente considerada. Isso faz da deficiência algo unicamente pessoal em diversos termos. É impossível para um homem, por exemplo, realmente relatar as experiências de uma mulher; ou para um branco da África do Sul realmente relatar as experiências dos negros sul-africanos que cresceram sob o apartheid. Entretanto, deveria ser possível para ambos os grupos relatar a deficiência, já que ela se manifesta para qualquer um em qualquer época.

Não duvido de que, se chance dessa ocorrência fosse mais considerada, muito da resistência aos direitos dos deficientes seria superado. É significativo salientar que menos de 20% das pessoas com deficiência nascem com suas deficiências e que mais de 80% adquirem suas deficiências mais tarde.

Como agentes multiplicadores da conscientização sobre a deficiência, a experiência tem mostrado que, para conquistarmos a confiança das pessoas que recebem treinamento sobre a deficiência, é necessária uma abordagem simples, porém estruturada, que inclui quebrar as barreiras emocionais, intelectuais e práticas.

Um aspecto central de nossas sessões de treinamento é um exercício de visualização no qual os participantes visualizam a si mesmos vivendo e trabalhando com uma deficiência em particular: despertando, lavando- se, vestindo-se, comendo, chegando ao trabalho etc. Isso é diferente de imaginar a experiência de alguém e envolve adotar a deficiência para si. Eles exploram formas de administrar seu trabalho, refletem sobre as implicações em seus lares e consideram o acesso à sociedade no contexto da deficiência que escolheram.

O exercício é conduzido em silêncio, com os olhos fechados, e dura cerca de 10 minutos. Já fiz isso mais de 400 vezes, e nunca falhou. Os participantes respondem com seriedade e espanto quando lhes é pedido que contem suas experiências.

Uma vez que a barreira emocional é quebrada, o palco é montado para direcionar algo desconhecido a respeito das deficiências, na forma de checagem da realidade pelo nonsense. Então, exploramos a criação e adoção de uma estratégia para a inclusão da deficiência em uma organização ou comunidade. Isso envolve acessar barreiras físicas e emocionais, removendo essas barreiras e mantendo um ambiente livre delas.

Em vez de participantes cheios de informações politicamente corretas, esse processo encoraja-os a compreender o enigma que é a deficiência. Isso os leva ao encontro da deficiência em seus próprios termos e à interação adequada e eqüitativa com portadores de deficiência no trabalho, na sociedade e na vida pessoal.

Os participantes quase que unanimemente reagem da mesma forma após cada workshop. Seus comentários são: “Foi uma experiência reveladora!”

Somente podemos esperar que eles tenham fé e mantenham seu fervor e, à sua própria maneira, comecem a fazer a diferença e se empenhem para uma inclusão natural e menos hesitante de deficiência em meio à sociedade.

Jeremy Opperman é co-fundador da Disabilities Solutions, entidade
que oferece treinamento e outras fontes de serviço para a integração
da deficiência no trabalho e na sociedade.
Veja em www.disabilitysolutions.co.za


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.