Pessoas portadoras de deficiência e pessoas normais podem ser consideradas à luz de conceitos histórico- sociais. Esse fato é crucial para os estudos sobre deficiência, já que os paradigmas alternativos — os modelos médicos e de reabilitação — presumem que a deficiência é uma constante universal. Esses modelos vêm operando com pessoas deficientes — e operando-as — há mais de 150 anos. Os modelos médicos tratam a deficiência como uma doença que requer cura, enquanto os modelos de reabilitação a consideram como algo que precisa de reparo, discrição, recuperação e supervisão. Porém, o modelo construtivista vê a deficiência como um processo social em que nenhum significado inerente relaciona-se à diferença física a não ser aqueles designados por uma comunidade. Uma diminuição da capacidade só se torna deficiência quando a sociedade ao redor cria ambientes com barreiras — afetivas, sensoriais, cognitivas ou arquitetônicas.
Mesmo no próprio movimento pelos direitos dos deficientes, as noções sobre quem se encaixa na categoria de “deficiente” não são claras. Por exemplo, muitos ativistas surdos não se consideram deficientes. Ao contrário, eles se consideram integrantes de uma minoria lingüística, como os latinos ou asiáticos, definidos pelo uso de uma linguagem que não é dominante nos Estados Unidos. Oitenta e quatro por cento dos que responderam a um questionário criado pela revista Deaf Life disseram não se considerar deficientes. E oito de cada dez surdos disseram não querer implantes auditivos que os auxiliem a ouvir. Pesquisadores com deficiência auditiva argumentam que seu problema não é a deficiência, mas o fato de a sociedade como um todo não conhecer nem querer conhecer a linguagem de sinais. Eles querem examinar a natureza de conceitos como “normalidade” e romper com tais concepções. O uso da palavra “normal” em referência a corpos físicos surgiu no idioma inglês há 150 anos, coincidindo com o surgimento da estatística e da eugenia. Antes do século XIX, na cultura ocidental, o conceito de “ideal” era o paradigma reinante em relação aos corpos, e assim todos os corpos eram menos que ideais. A introdução do conceito de normalidade, entretanto, tornou imperativo ser normal, como o movimento pela eugenia provou ao consagrar o ápice de uma curva estatística de normalidade como o ponto onde todos deveriam estar. Com a introdução dessa curva, veio a noção de corpos “anormais”.
E o resto é história, incluindo a adoção pelos nazistas das mais recentes idéias sosobre
eugenia, criadas e desenvolvidas
por cientistas americanos
e britânicos. O resultado devastador disso foi a criação de procedimentos para o extermínio de surdos e deficientes, procedimentos posteriormente usados em judeus, ciganos e outras raças “degeneradas”. Mas os nazistas foram a ponta mais visível (e ultrajante) de um iceberg que continua a conduzir os seres humanos a frenesis diários de consumo, leitura, pesquisa, exercícios, testes, dietas, e assim por diante — tudo em busca do objetivo último de ser considerado normal.
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Os estudos sobre deficiência necessitam de uma mudança: da ideologia da normalidade para uma visão do corpo como mutável, imperfeito, rebelde e desordenado.
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A filósofa Susan Wendell argumenta a favor de uma perspectiva da deficiência: “Os portadores de deficiência física não apenas possuem experiências que os capacitados não têm, como também estão em melhor posição para transcenderem os mitos culturais sobre o corpo, pois não conseguem realizar coisas que os capacitados se sentem na obrigação de fazer para serem felizes, ‘normais’ e saudáveis... Se os portadores de deficiência fossem realmente ouvidos, haveria uma explosão de conhecimento do corpo e da psique humanos.”
Texto adaptado de Bending Over Backwards:
Disability, Dismodernism
and Other Difficult
Positions (Fazer o possível: deficiência, desmodernismo
e outras posições difíceis), de Lennard
J. Davis (Nova York, University Press, 2002).O
professor Davis
é filho de pais com deficiência
auditiva e ensina nos departamentos de Inglês
e Desenvolvimento e Deficiência Humana, na
Universidade de Illinois, em Chicago. |