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Julho/Setembro
2005

Destaque
Nossas capacidades diversas: uma perspectiva budista


“Minha escuridão foi preenchida com
a luz da experiência.
E olhe: o mundo exterior e iluminado estava cambaleando e tateando na cegueira social.”

Helen Keller

Usamos uma gama de capacidades em constante evolução. Quando crianças, passamos por etapas de desenvolvimento — primeiros passos, primeiras palavras, primeiras expressões de vontade autônoma. Outras marcas sutis também indicam nosso desenvolvimento como membros socializados de uma comunidade. Para muitas pessoas, esse é o início da vida e da carreira como adultos independentes. Contudo, há aqueles que não atingem esse ponto de acordo com a média e a época esperada — pessoas cuja capacidade é diferente do que se considera “normal”, que jamais atingirão o grau esperado de independência.

Isso suscita uma questão fundamental: quanto uma pessoa é realmente independente? Uma idéia central da visão budista é a da interdependência — as teias e redes de apoio mútuo sem as quais uma existência plenamente rica e recompensadora é impensável. Todos precisamos do apoio uns dos outros. De forma clara ou imperceptível, sempre pedimos ajuda uns aos outros. Entretanto, como observou um antigo colaborador do SGI Quarterly, um “adulto fisicamente capaz” é alguém para quem a sociedade é organizada de tal forma que ele jamais precisa ter a consciência de que busca e recebe o auxílio dos outros.

Como conseqüência de uma doença
ou de um acidente, qualquer um, em qualquer época,
pode se descobrir encarando a vida com as
capacidades radicalmente alteradas.

Nem as capacidades de uma pessoa são asseguradas permanentemente. Como conseqüência de uma doença ou de um acidente, qualquer um, em qualquer época, pode se descobrir encarando a vida com as capacidades radicalmente alteradas. De repente, ações comuns se tornam um esforço extremo, ou passam a ser impossíveis e exigem o desenvolvimento de novas estratégias para serem executadas. Uma capacidade diferente significa um relacionamento diferente com o ambiente social. Lidar com atitudes complexas e conflituosas que são as estabelecidas como “deficientes” tornase, de repente, parte central de nossa vida cotidiana.

Mesmo aqueles com sorte o suficiente para envelhecer sem nenhum incidente em particular descobrirão que as habilidades físicas e mentais sofrerão os efeitos da idade e que a vida produtiva e independente torna-se comprometida. Apesar disso, parece haver uma poderosa, talvez não inteiramente consciente, urgência entre aqueles fisicamente normais de considerarem as pessoas portadoras de deficiência como diferentes, e seus desafios como algo que não lhes diz respeito.


Xavier Le Draoullec compete
no pentlato nos Jogos Paraolímpicos de Atenas, em 2004.


Como conseqüência de uma
doença ou de um acidente, qualquer
um, em qualquer época, pode se
descobrir encarando a vida com
as capacidades
radicalmente alteradas.

O desafio apresentado pela diversidade das capacidades humanas requer nada menos do que uma mudança do paradigma que organiza a sociedade humana. Precisamos repensar o que significa ser produtivo, independente, e o que é um cidadão que contribui para uma comunidade ou sociedade.

O budismo considera os seres humanos como corporificações da diversidade inerente à vida. Esta abraça ativamente nossas várias capacidades. Os volumosos e ricos ensinos budistas são frutos do desejo de tocar as pessoas — em toda as suas circunstâncias e capacidades — com uma mensagem ressoante de capacitação e esperança. Sob a perspectiva budista, a base da dignidade humainna independe de fatores como gênero, etnia, capacidade física ou mental, riqueza, educação e posição social. Enraizado na convicção da dignidade da vida universal, o budismo enfatiza a responsabilidade humana e o engajamento. Pessoas portadoras de deficiência não são simplesmente vítimas carentes de apoio e proteção. Elas são protagonistas de suas próprias vidas que contribuem de forma única e necessária para a sociedade. Cada vida humana, então, possui o mesmo potencial criativo ilimitado e um conjunto específico de desafios e circunstâncias pessoais que fornecem o solo fértil sobre o qual essa vida se desenvolve.

Uma sociedade genuinamente humana será aquela em que as pessoas se reconhecerão mutuamente como parceiras necessárias, e, sem elas, crescimento, desenvolvimento e felicidade serão inimagináveis.

Para esta edição do SGI Quarterly, convidamos pessoas que representam o espectro das capacidades humanas para partilharem suas perspectivas, pensamentos e vidas.


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