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Janeiro/Março
2005

Retratos de Cidadãos Globais
Dr. Kenneth Kaunda — primeiro presidente da República da Zâmbia


O dr. Kauanda confraterniza-se com membros da SGI-Zâmbia no Centro Cultural de Lusaka (11 de agosto de 2002).
O presidente Kaunda, pai da independência da Zâmbia, recusa-se a comer carne. Ele descreve o que o levou a essa escolha: “Ainda recordo claramente o dia em que vi um grupo de mulheres africanas pobres sendo expulsas de um açougue de propriedade de um branco: elas reclamaram do preço e da qualidade de uma carne em decomposição que ele tentou lhes empurrar. Eu jurei que jamais comeria nada que meus pobres companheiros africanos não pudessem comprar.”

Kaunda é o caçula de oito filhos. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Sua mãe foi professora — uma profissão rara para uma mulher na Zâmbia naqueles tempos. Embora fossem pobres, ela conseguiu poupar dinheiro suficiente para que ele freqüentasse uma escola. Kaunda se recorda: “A educação custava a fabulosa quantia de dois xelins e seis pences por ano — um pouco mais do que o preço de uma garrafa de cerveja hoje em dia —, mas quantas crianças inteligentes e promissoras desperdiçaram sua vida porque essa simples quantia estava além das possibilidades de seus pais?”

O governo colonial investira pouco na educação e na saúde do povo. Como resultado, quando veio a independência, após 70 anos de domínio britânico, o número de pessoas nativas com educação universitária não chegava a 100.

Muitas mães, determinadas a enviar seus filhos para a escola, trabalhavam dia e noite, de um emprego a outro, em tarefas domésticas.
Mas mesmo aqueles que conseguiam freqüentar as aulas tinham de enfrentar o preconceito e a discriminação.

O presidente Kaunda lembra de um incidente ocorrido quando ele trabalhava como professor. Época em que não era permitido aos africanos entrar nas lojas de propriedade dos europeus pela porta da frente. Tinham de ficar do lado de fora e pedir o que queriam por uma abertura na parede, pela qual as mercadorias eram então passadas. Eles não tinham chance de ver ou escolher o que queriam comprar. E lembra: “Entrei e perguntei polidamente por um livro... A jovem balconista indicou-me, por meio de sinais, que deveria me dirigir ao farmacêutico que estava ao seu lado atrás do balcão. Eu repeti minha pergunta e, apontando para a porta, ele disse em tom maldoso: “Fora daqui.” Voltei a dizer: “Eu só quero um livro e não há outra loja na cidade onde possa comprá-lo.” Ele disse: “Nem que espere até o Natal, daqui não levará nenhum livro.”

O Dr. Kaunda foi expulso da loja. Porém, experiências como essas, de despersonalização da identidade, transformaram-no, mais preconceitarde,
em um guerreiro da independência.

Por quatro séculos, a partir do século XVI, a África foi alvo de violência, inicialmente pelo comércio de escravos e depois sob as administrações coloniais das várias nações européias que se seguiram. Quando ocorreu a Revolução Industrial, a necessidade de escravos diminuiu acentuadamente. Tornou-se mais lucrativo colocar os africanos para trabalharem em seu próprio continente e ganhar dinheiro vendendo-lhes os produtos fabricados na Europa. A considerável expansão global e o crescimento econômico da Europa, incluindo a Revolução Industrial, tiveram sustentação na exploração da África e de outras terras, com a violência e a usurpação justificadas pelas mentiras e pela propaganda racista.

O Dr. Kaunda começou a trabalhar pelo movimento de independência ainda jovem, aos 25 anos. Ele viajava por todo o país de bicicleta, com uma guitarra nas costas. Compondo “canções de liberdade”, ajudava a organizar o movimento de libertação. Já que poucos sabiam ler ou escrever, esse era um método particularmente eficaz de propagar sua mensagem.

A Zâmbia, ex-Rodésia do Norte, de um dia para o outro atraiu a atenção do mundo quando uma grande jazida de cobre foi descoberta na década de 1920, pouco após o Dr. Kaunda nascer. O mundo necessitava cada vez mais de cobre, e as potências coloniais correram para a região. Apoderaram-se das terras e impuseram altos impostos aos que tinham de trabalhar nas minas para sobreviver. Os salários eram míseros e o trabalho árduo, mas não havia outra escolha. Até os colonizadores europeus chegarem, o povo era auto-suficiente, mas com todos os homens trabalhando nas minas, os campos ficaram abandonados. Os “proprietários” de terras forçavam os poucos trabalhadores do campo disponíveis a cultivarem produtos para exportação, e então as florestas começaram a ser derrubadas. A fome se propagou.

O jovem Dr. Kaunda sempre pensava sobre a melhor forma de atingir a independência. Ele se deparava com a muralha aparentemente impenetrável do sistema colonial. Como alguém poderia resistir às autoridades que atiravam nos trabalhadores simplesmente por fazerem greve? O maior problema para ele era a crença de que, como cristão, não
poderia ferir outro ser humano. Sendo assim, como a liberdade de um país poderia ser alcançada sem ferir ninguém? Ele se sentia preso entre seus princípios humanitários e a natureza prática da ação política.

Foi a filosofia de Mahatma Gandhi, brilhando como “jóias em um rio de lama”, que veio resgatá-lo. Kaunda sentiu como se a luz tivesse atravessado uma floresta densa. Gandhi era, por um lado, um sábio de grande integridade moral e, por outro, um líder político que conquistara a independência de seu povo. O Dr. Kaunda havia encontrado a resposta para o seu problema: “Nosso principal armamento não eram os canhões, mas as palavras — milhares e milhares de palavras, escritas e faladas, para pôr nosso povo em marcha, para apresentar nossos clamores ao governo britânico e ao mundo e expressar nossa ira e frustração diante da negação ao direito inerente de governar nosso país.”

Ele fundou então o Congresso Nacional Africano da Zâmbia, que foi imediatamente perseguido e considerado ilegal. O Dr. Kaunda ficou preso por nove meses, durante os quais teve uma crise de tuberculose, contraída anteriormente. Mas, diante de tudo isso, continuou a incentivar seus companheiros que lutavam pela independência, por meio das cartas escritas na prisão, com palavras encorajadoras como estas: “Eles proibiram o grande nome da Zâmbia, mas um nome de natureza espiritual muito maior ainda — ‘liberdade já’ — não pode ser banido... A África, nossa mãe África, deve ser livre e cabe a nós cumprir esse destino. Não desanimem, estamos apenas começando.”

“A África, nossa mãe África, deve ser livre
e cabe a nós cumprir esse destino.”


Depois de libertado, o Dr. Kuanda tornou-se chefe do novo Partido Unido da Independência Nacional e anunciou publicamente sua política oficial da não-violência gandhiana. Ele defendia um incessante diálogo e insistia para que as palavras fossem cristalinas, pois “as palavras são poder. A incapacidade de expressar-se é impotência”.

Usando sua habilidade verbal para apelar efetivamente à opinião pública na Inglaterra e ao resto do mundo, o Dr. Kaunda conquistou a liberdade para sua nação sem recorrer à violência. Refletindo sobre o desafio que ele e seus compatriotas haviam enfrentedo, escreveu: “Se tivéssemos agido com base no princípio de olho por olho, a história dos últimos dias da Rodésia do Norte e dos primeiros dias da Zâmbia teria sido escrita com sangue.”


O Sr. e Sra. Ikeda encontram-se com o dr. Kauanda e sua esposa em Tóqui (12 de novembro de 1990).
O entusiasmo do povo reunido no Estádio da Independência na capital da Zâmbia, Lusaka, em 23 de outubro de 1964, elevou-se pelo céu noturno. A eletricidade foi cortada. Um minuto antes da meia-noite, os clarins soaram e as luzes iluminaram a nova bandeira da República da Zâmbia. Finalmente, o povo tinha sua própria bandeira e seu próprio país! Enquanto soavam os acordes do hino nacional, a bandeira lentamente era hasteada.

A independência da Zâmbia foi manchete dos jornais quando, durante as Olimpíadas de 1964 em Tóquio, o nome do país mudou no meio dos jogos. Seus atletas marcharam na cerimônia de abertura com a bandeira da Rodésia do Norte, mas a nação conquistou a tão aguardada independência do domínio britânico antes do final dos Jogos Olímpicos, em 24 de outubro. Portanto, na cerimônia de encerramento esses atletas
marcharam orgulhosamente sob a nova bandeira da República da Zâmbia, ao som dos aplausos entusiásticos do mundo.

O então recém-empossado presidente, Kaunda, trabalhava arduamente, de 18 a 20 horas por dia. Ele defendia o humanismo como a filosofia nacional, propondo educação e saúde para todos. Os preços do cobre mantinham-se em alta e a economia do país se fortalecia. Na década de 1970, o preço do cobre no mundo inteiro caiu, provocando uma crise financeira. A política socialista de nacionalização das principais indústrias
não estava dando resultado e a economia da nação entrou em crise.

Apesar disso, o presidente Kaunda e o povo da Zâmbia continuaram a apoiar a luta pela libertação de outras nações da África meridional — a África do Sul governada pelos brancos, a Rodésia (atual Zimbábue) e o Sudoeste da África (atual Namíbia). O preço por essa liberdade era alto. Em retaliação, as elites brancas dominantes fecharam as fronteiras nacionais, proibindo até a entrada de trens procedentes da Zâmbia. A crise resultante do alto custo dos bens de exportação era uma questão de vida ou morte para uma nação localizada no meio do continente. Esses mesmos governos criaram planos para “derrubar Kaunda” e lançaram uma campanha para desencorajar investimentos estrangeiros no país.

Mas o povo da Zâmbia suportou tudo isso e continuou a aceitar refugiados dos países vizinhos, a tal ponto que 2% de toda a população da Zâmbia chegou a ser de asilados.

A paz é a prioridade mais urgente da humanidade. Mesmo após retirar-se do cenário político, o Dr. Kaunda continua a clamar contra a dominação dos mais fracos em todo o mundo. Ele nos pede que contemplemos o mundo com os olhos das nações pobres e dos povos com menos oportunidades. Ainda hoje o Dr. Kaunda continua na linha de frente da luta pela não violência.

 


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