Kaunda é o caçula de oito filhos. Seu pai
morreu quando tinha oito anos. Sua mãe foi
professora — uma profissão rara para uma
mulher na Zâmbia naqueles tempos. Embora
fossem pobres, ela conseguiu poupar dinheiro
suficiente para que ele freqüentasse
uma escola. Kaunda se recorda: “A educação
custava a fabulosa quantia de dois xelins
e seis pences por ano — um pouco mais do
que o preço de uma garrafa de cerveja hoje
em dia —, mas quantas crianças inteligentes
e promissoras desperdiçaram sua vida porque
essa simples quantia
estava além das possibilidades
de seus pais?”
O governo colonial investira
pouco na educação
e na saúde do povo.
Como resultado, quando
veio a independência,
após 70 anos de domínio
britânico, o número de
pessoas nativas com educação
universitária não
chegava a 100.
Muitas mães, determinadas
a enviar seus filhos
para a escola, trabalhavam
dia e noite, de um emprego
a outro, em tarefas domésticas.
Mas mesmo
aqueles que conseguiam
freqüentar as aulas tinham
de enfrentar o preconceito e a discriminação.
O presidente Kaunda lembra de um incidente
ocorrido quando ele trabalhava como
professor. Época em que não era permitido
aos africanos entrar nas lojas de propriedade
dos europeus pela porta da frente. Tinham
de ficar do lado de fora e pedir o que
queriam por uma abertura na parede, pela
qual as mercadorias eram então passadas.
Eles não tinham chance de ver ou escolher
o que queriam comprar. E lembra: “Entrei
e perguntei polidamente por um livro... A
jovem balconista indicou-me, por meio de
sinais, que deveria me dirigir ao farmacêutico
que estava ao seu lado atrás do balcão.
Eu repeti minha pergunta e, apontando para
a porta, ele disse em tom maldoso: “Fora
daqui.” Voltei a dizer: “Eu só quero um
livro e não há outra loja na cidade onde possa
comprá-lo.” Ele disse: “Nem que espere
até o Natal, daqui não levará nenhum livro.”
O Dr. Kaunda foi expulso da loja. Porém,
experiências como essas, de despersonalização
da identidade, transformaram-no, mais preconceitarde,
em um guerreiro da independência.
Por quatro séculos, a partir do século XVI,
a África foi alvo de violência, inicialmente
pelo comércio de escravos e depois sob as
administrações coloniais das várias nações
européias que se seguiram. Quando ocorreu
a Revolução Industrial, a necessidade
de escravos diminuiu acentuadamente. Tornou-se mais lucrativo colocar os africanos
para trabalharem em seu próprio continente
e ganhar dinheiro vendendo-lhes os produtos
fabricados na Europa. A considerável
expansão global e o crescimento econômico
da Europa, incluindo a Revolução Industrial,
tiveram sustentação na exploração da África e de outras terras, com a violência e
a usurpação justificadas pelas mentiras e pela
propaganda racista.
O Dr. Kaunda começou a trabalhar pelo movimento
de independência ainda jovem, aos
25 anos. Ele viajava por todo o país de bicicleta,
com uma guitarra nas costas. Compondo “canções de liberdade”, ajudava a organizar
o movimento de libertação. Já que poucos
sabiam ler ou escrever, esse
era um método particularmente
eficaz de propagar
sua mensagem.
A Zâmbia, ex-Rodésia
do Norte, de um dia para
o outro atraiu a atenção
do mundo quando uma
grande jazida de cobre foi
descoberta na década de
1920, pouco após o Dr.
Kaunda nascer. O mundo
necessitava cada vez mais
de cobre, e as potências
coloniais correram para a
região. Apoderaram-se
das terras e impuseram
altos impostos aos que tinham
de trabalhar nas minas
para sobreviver. Os
salários eram míseros e o
trabalho árduo, mas não havia outra escolha. Até os colonizadores
europeus chegarem, o povo era auto-suficiente,
mas com todos os homens trabalhando
nas minas, os campos ficaram abandonados.
Os “proprietários” de terras forçavam
os poucos trabalhadores do campo disponíveis
a cultivarem produtos para exportação,
e então as florestas começaram a ser
derrubadas. A fome se propagou.
O jovem Dr. Kaunda sempre pensava sobre
a melhor forma de atingir a independência.
Ele se deparava com a muralha aparentemente
impenetrável do sistema colonial.
Como alguém poderia resistir às autoridades
que atiravam nos trabalhadores simplesmente
por fazerem greve? O maior problema para
ele era a crença de que, como cristão, não
poderia ferir outro ser humano. Sendo assim,
como a liberdade de um país poderia ser alcançada
sem ferir ninguém? Ele se sentia preso
entre seus princípios humanitários e a natureza
prática da ação política.
Foi a filosofia de Mahatma Gandhi, brilhando
como “jóias em um rio de lama”,
que veio resgatá-lo. Kaunda
sentiu como se a luz tivesse
atravessado uma floresta densa.
Gandhi era, por um lado,
um sábio de grande integridade
moral e, por outro, um
líder político que conquistara
a independência de seu povo.
O Dr. Kaunda havia encontrado
a resposta para o
seu problema: “Nosso principal
armamento não eram
os canhões, mas as palavras — milhares e milhares de palavras,
escritas e faladas, para
pôr nosso povo em marcha, para apresentar
nossos clamores ao governo britânico e
ao mundo e expressar nossa ira e frustração
diante da negação ao direito inerente de governar
nosso país.”
Ele fundou então o Congresso Nacional
Africano da Zâmbia, que foi imediatamente
perseguido e considerado ilegal. O Dr.
Kaunda ficou preso por nove meses, durante
os quais teve uma crise de tuberculose,
contraída anteriormente. Mas, diante de tudo
isso, continuou a incentivar seus companheiros
que lutavam pela independência,
por meio das cartas escritas na prisão, com
palavras encorajadoras como estas: “Eles
proibiram o grande nome da Zâmbia, mas
um nome de natureza espiritual muito maior
ainda — ‘liberdade já’ — não pode ser banido... A África, nossa mãe África, deve ser
livre e cabe a nós cumprir esse destino. Não
desanimem, estamos apenas começando.”
“A África, nossa mãe África,
deve ser livre
e cabe a nós cumprir
esse destino.” |
Depois de libertado, o Dr. Kuanda tornou-se chefe do novo Partido Unido da Independência
Nacional e anunciou publicamente
sua política oficial da não-violência
gandhiana. Ele defendia um incessante diálogo
e insistia para que as palavras fossem
cristalinas, pois “as palavras são poder. A
incapacidade de expressar-se é impotência”.
Usando sua habilidade verbal para apelar
efetivamente à opinião pública na Inglaterra
e ao resto do mundo, o Dr. Kaunda
conquistou a liberdade para sua nação sem
recorrer à violência. Refletindo sobre o desafio que ele e seus compatriotas haviam
enfrentedo, escreveu: “Se tivéssemos agido
com base no princípio de olho por olho, a história dos últimos dias da Rodésia do Norte
e dos primeiros dias da Zâmbia teria sido
escrita com sangue.”
O Sr. e Sra. Ikeda encontram-se com o dr. Kauanda e sua esposa em Tóqui (12 de novembro de 1990). |
O entusiasmo do povo reunido no Estádio da Independência na capital da Zâmbia, Lusaka, em 23 de outubro de 1964, elevou-se pelo céu noturno. A eletricidade foi cortada. Um minuto antes da meia-noite, os clarins soaram e as luzes iluminaram a nova bandeira da República da Zâmbia. Finalmente, o povo tinha sua própria bandeira e seu próprio país! Enquanto soavam os acordes do hino nacional, a bandeira lentamente era hasteada. |
A independência da Zâmbia foi manchete
dos jornais quando, durante as Olimpíadas
de 1964 em Tóquio, o nome do país mudou
no meio dos jogos. Seus atletas marcharam na cerimônia de abertura com a bandeira
da Rodésia do Norte, mas a nação conquistou
a tão aguardada independência do
domínio britânico antes do final dos Jogos
Olímpicos, em 24 de outubro. Portanto, na
cerimônia de encerramento esses atletas
marcharam orgulhosamente sob a nova bandeira
da República da Zâmbia, ao som dos
aplausos entusiásticos do mundo.
O então recém-empossado presidente,
Kaunda, trabalhava arduamente, de 18 a 20
horas por dia. Ele defendia o humanismo
como a filosofia nacional, propondo educação
e saúde para todos. Os preços do cobre
mantinham-se em alta e a economia do país
se fortalecia. Na década de 1970, o preço
do cobre no mundo inteiro caiu, provocando
uma crise financeira. A política socialista
de nacionalização das principais indústrias
não estava dando resultado e a economia
da nação entrou em crise.
Apesar disso, o presidente Kaunda e o povo
da Zâmbia continuaram a apoiar a luta
pela libertação de outras nações da África
meridional — a África do
Sul governada pelos brancos,
a Rodésia (atual Zimbábue)
e o Sudoeste da África (atual Namíbia).
O preço por essa liberdade
era alto. Em retaliação,
as elites brancas dominantes
fecharam as fronteiras
nacionais, proibindo
até a entrada de trens procedentes da Zâmbia. A crise
resultante do alto custo
dos bens de exportação era
uma questão de vida ou
morte para uma nação localizada no meio
do continente. Esses mesmos governos criaram
planos para “derrubar Kaunda” e lançaram
uma campanha para desencorajar investimentos
estrangeiros no país.
Mas o povo da Zâmbia suportou tudo isso
e continuou a aceitar refugiados dos países
vizinhos, a tal ponto que 2% de toda a população
da Zâmbia chegou a ser de asilados.
A paz é a prioridade mais urgente da humanidade.
Mesmo após retirar-se do cenário
político, o Dr. Kaunda continua a clamar
contra a dominação dos mais fracos em
todo o mundo. Ele nos pede que contemplemos
o mundo com os olhos das nações
pobres e dos povos com menos oportunidades.
Ainda hoje o Dr. Kaunda continua na
linha de frente da luta pela não violência.