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Janeiro/Março
2005

Gente
Enfrentando a aids
David Le Page, África do Sul


David, segundo à esquerda, com perquisadores filmando um programa sobre prevenção do HIV envolvendo mulheres em áreas rurais.
Cinco milhões de sul-africanos estão infectados com o vírus do HIV. Cerca de mil pessoas morrem diariamente. Além disso, estima-se que meio milhão de pessoas precisam de cuidados imediatos, mas o tratamento anti-retroviral está cada vez mais escasso. O país vive uma epidemia de proporções não conhecidas, em um mundo ainda deslumbrado pelo milagre da transformação democrática ocorrida em 1994.

Todavia, ainda há muita esperança.

Nasci na África do Sul e comecei a praticar o budismo em 1989, na Cidade do Cabo. No final da década de 1990, trabalhando como jornalista num periódico de circulação nacional, comecei a compreender essa epidemia. Em 2001, eu me mudei para Londres, porém não esquecia aquelas mortes em minha terra natal, que mal eram percebidas.

Veneno em remédio

Inspirado em um princípio budista, “A transformação do veneno em remédio”, percebi que o vírus HIV apresentava uma oportunidade sem paralelo, ou seja, se as pessoas do continente se voltassem resolutamente para enfrentar a pandemia, isso poderia se transformar em um catalisador para o que o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, chama de Século da África — o século das pessoas cuja coragem, talento e humanidade ultrapassará qualquer coisa que o mundo já tenha visto.

Pois, assim como o budismo, o HIV também exige que descartemos o temor da morte, para trabalharmos por uma vida incerta, na qual cada dia deve ser valorizado. Isso exige que reconheçamos os milhares de ligações entre nós e aqueles que parecem socialmente mais distantes, e exige a busca incansável pelos pontos fracos de uma sociedade para desafiar as opiniões prevalecentes e geralmente mais aceitas.

Derrotar o HIV requer democracias flexíveis, sensíveis e que valorizem cada vida humana. Requer também que os cidadãos instruídos desafiem com rapidez a injustiça, sem se esquecerem da humanidade dos injustos.
Requer ainda que os eleitores e contribuintes acreditem que as economias nacionais — que não podem gerar lucros sem pessoas — devem servir, e não dominar.

No início de 2003, em Londres, essas opiniões pareciam impublicáveis, mas eu criei um website para divulgá-las. Fazer isso me fez entrar em contato com uma organização admirável, a Treatment Action Campaign (TAC) e o seu presidente, Zackie Achmat, ambos indicados em 2004 para o Prêmio Nobel da Paz. Zackie pediu que eu retornasse à África do Sul para trabalhar com a TAC. Voltei. Tornei-me pesquisador de uma série de TV que fala de educação sobre HIV, inspirada nos trabalhos da TAC e apresentada inteiramente por pessoas soropositivas.

Hoje, eu me encontro com pessoas que estão provando todos os dias tudo o que consideravam como verdade. Viajando pelo país, percebo constantemente, e muitas vezes vislumbro, uma quantia indescritível de mortes pelo desconhecimento. Tenho visto medo e ignorância mortais. Contudo, conheço também muitas pessoas comuns que lutam pelos outros com coragem extraordinária. Tenho visto repetidas vezes o incrível poder transformador da educação humanística.

Escrevo atualmente um relatório para a TAC sobre seu programa educacional, e encontrei-me com os membros que, apesar de estarem freqüentemente doentes e de terem visto muitos deles morrerem, desafiam sua educação debilitada pelo apartheid até dominarem os mistérios da virologia, a farmacologia do HIV e a economia política em um grau que assombram os visitantes internacionais especialistas em saúde.

Luta pelos direitos humanos

Os ativistas da TAC usam camisetas com o slogan “HIV Positivo” independentemente de sua condição pessoal. Muitos que foram infectados declaram com coragem seu estado, apesar de viverem em comunidades que com freqüência desprezam os infectados. O trabalho da TAC com ativistas globais ajudou a reduzir drasticamente o custo dos medicamentos anti-retrovirais, e conduziu à longa e cansativa campanha por um plano nacional de prevenção, agora em vigor. Sobretudo, ensina as pessoas a respeito de sua saúde e seus direitos humanos.

Imagine um exército marchando a toque de tambor sob o fogo inimigo, homens e mulheres caindo em meio a seus companheiros. Isso é a TAC, pois, apesar da natureza de seu trabalho e de seu próprio projeto de tratamento, ativistas morrem todos os meses — centenas todo ano. Ainda assim, a TAC canta enquanto trabalha: “Há uma corrida que eu devo correr, há uma vitória a ser conquistada; dê-me força, todas as horas, para que eu possa corresponder.”

As pessoas geralmente pensam que meu trabalho deve ser “muito deprimente.” De fato, houve épocas em que me enchi de raiva e desespero. Mas, pela minha experiência, é empreendendo e testemunhando iniciativas — com esperança e compreensão que obtenho de minha fé budista — que tenho força para persistir em meus esforços.


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