Edições Anteriores
Janeiro/Março
2005

Destaque
Construindo pontes tecnológicas na África
Uwem Robert Otu


Uwem Robert Otu na eco-
conferência das Nações Unidas
Júnior, em Tóquio, novembro de
2003.
A África, como o resto do mundo, está passando por grande transformação. Estamos saindo de uma sociedade que conhecemos para outra que não nos é familiar, diferente do mundo agrícola e industrial de nossos pais e avós. A direção que estamos tomando é a de uma sociedade conectada por redes, sociedade de conhecimento, que será de nossos filhos e netos. Conhecimento e intelecto estão substituindo a força braçal como elementos fundamentais para o bem-estar econômico e a coesão social.

Uma lição essencial da história humana é que grandes transformações nunca acontecem sozinhas: são o resultado do trabalho de homens e mulheres de visão, coragem e ação. As mudanças são criadas por líderes. Líderes nacionais, locais, comunitários e, cada vez mais, líderes nos recentes espaços cibernéticos. Eles usam as tecnologias e os serviços mais apropriados para criar opções para sua gente.

Inovações na saúde

Os profissionais de saúde na África enfrentam uma devastadora série de crises. Têm pouco ou nenhum acesso às fontes de conhecimento que os ajudariam a desempenhar melhor seu trabalho.

Em resposta a essa necessidade, a HealthNet Uganda e a norte-americana Satellife desenvolveram aplicações criativas e eficazes de tecnologias de informação e comunicação (ICT) para auxiliar os profissionais de saúde e os planejadores de políticas públicas em Uganda. O objetivo é ultrapassar as barreiras de comunicação e de construção do conhecimento que inibem a melhoria do planejamento e da aplicação das políticas de saúde. São obstáculos como infra-estrutura precária de telecomunicações; acesso limitado dos profissionais de saúde à literatura médica e a computadores e o custo da internet.


Computadores de mão da Satellife são usados numa pesquisa sobre saúde.
Veja em www.healthnet.org
Com o sucesso de suas iniciativas, a HealthNet Uganda e a Satellife planejam agora uma distribuição nacional de computadores de mão para facilitar a troca de informações médicas e materiais de treinamento e a comunicação entre áreas rurais e urbanas. Assim, os profissionais de saúde podem fazer consultas, diagnosticar e indicar tratamentos à distância, além de receber colaboração de colegas sem viagens caras.

As tecnologias de informação e comunicação têm um papel importante no controle da cegueira de rio (oncocercose) na África Ocidental. Ao longo dos 50 mil quilômetros de rios, os sensores coletam informações que os moradores mandam para os entomologistas, por computadores e rádios via satélite. Estes podem então otimizar a aspersão de venenos contra a mosca negra, transmissora da doença.

Uso criativo da tecnologia

O Hospital Infantil Tygerberg na Cidade do Cabo, África do Sul, implementou um sistema de telemedicina em 1999, financiado pelo Rotary Club local.


Os funcionários do centro de saúde recebem treinamento para usar os computadores de mão da Satellife, como parte do projeto Rede de Informações sobre Saúde, de Uganda.
O sistema utiliza software e equipamentos baratos — um disco rígido, um scanner e uma câmera digital — para que os hospitais de áreas rurais enviem radiografias e resultados de exames de sangue ao Hospital Tygerberg, onde um funcionário revisa as informações e as encaminha ao especialista adequado. Esse médico então envia as recomendações de tratamento por e-mail. O sistema permite que crianças das áreas rurais recebam tratamento médico poupando a família de despesas com viagem — enviar uma criança ao Hospital Tygerberg custa o equivalente a uma semana do salário de um trabalhador rural.

A melhoria do acesso à informação e a tecnologia
de comunicação e dados (...) já estão aumentando
a capacidade dos africanos de fazer escolhas
pessoais estratégicas e de alcançar o estilo de vida
que consideram valioso.

Em 1996, o Ministério da Saúde de Uganda, o Fundo para Populações das Nações Unidas e a Secretaria da População de Uganda iniciaram os Serviços de Assistência e Medicina de Emergência a Áreas Rurais (conhecido como Projeto Rescuer) para reduzir a taxa de mortalidade materna, estimada em 506 mortes a cada cem mil habitantes. O projeto foi desenvolvido para melhorar a saúde materna pela conexão das comunidades rurais tradicionais a um sistema de saúde formal, com custos aceitáveis. As autoridades de Uganda utilizaram tecnologia de radiofreqüência que opera em estações fixas, walkie-talkies móveis e rádios veiculares. Em 1999, três anos após a implementação do projeto, um estudo de caso do distrito de Iganga concluiu que a taxa de mortalidade materna caiu cerca de 50%.

Tratamento da tuberculose

A Cidade do Cabo, na África do Sul, tem uma das maiores taxas mundiais de tuberculose. Para tratar essa doença e conter sua expansão, os pacientes rigorosamente devem tomar quatro comprimidos, cinco vezes por semana, durante seis meses. O tratamento de forma geral falha porque os pacientes se esquecem de tomar a medicação. Em 2002, os sul-africanos tentaram uma abordagem diferente que resultou em grande sucesso. Eles usaram telefones celulares, tecnologia de mensagens instantâneas (SMS) e um banco de dados computadorizado.

A cada meia hora, o banco de dados seleciona uma lista de pacientes e manda mensagens lembrando-os de tomar a medicação. Entre os 138 pacientes participantes do projeto, apenas um dos tratamentos falhou.

A melhoria do acesso à informação e a tecnologia de comunicação e dados, de maneira similar ao aprimoramento da habilidade de leitura e escrita, já estão aumentando a capacidade dos africanos de fazer escolhas pessoais estratégicas e de alcançar o estilo de vida que consideram valioso.

Uwen Robert Otu é presidente do Movimento Africano Jovem,
uma organização sem fins lucrativos com sedes na África do Sul e Nigéria, que trabalha nos campos da educação,da saúde
(na prevenção da aids), na erradicação da pobreza e na preservação ambiental, dentro do amplo contexto da sustentabilidade.


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.