
Destaque
Construindo pontes
tecnológicas na África
Uwem Robert Otu
Uwem Robert Otu na eco-
conferência das Nações Unidas
Júnior, em Tóquio, novembro de
2003. |
A África, como o resto do mundo, está passando por grande transformação. Estamos saindo de uma sociedade que conhecemos para outra que não nos é familiar, diferente do mundo agrícola e industrial de nossos pais e avós. A direção que estamos tomando é a de uma sociedade conectada por redes, sociedade de conhecimento, que será de nossos filhos e netos. Conhecimento e intelecto estão substituindo a força braçal como elementos fundamentais para o bem-estar econômico
e a coesão social. |
Uma lição essencial da história humana é que grandes transformações nunca
acontecem sozinhas: são o resultado do
trabalho de homens e mulheres de visão,
coragem e ação. As mudanças são
criadas por líderes. Líderes nacionais,
locais, comunitários e, cada vez mais,
líderes nos recentes espaços cibernéticos.
Eles usam as tecnologias e os serviços
mais apropriados para criar opções
para sua gente.
Inovações na saúde
Os profissionais de saúde na África enfrentam
uma devastadora série de crises.
Têm pouco ou nenhum acesso às fontes
de conhecimento que os ajudariam a desempenhar
melhor seu trabalho.
Em resposta a essa necessidade, a
HealthNet Uganda e a norte-americana
Satellife desenvolveram aplicações criativas
e eficazes de tecnologias de informação
e comunicação (ICT) para auxiliar os
profissionais de saúde
e os planejadores
de políticas públicas
em Uganda. O objetivo é ultrapassar as
barreiras de comunicação
e de construção
do conhecimento
que inibem a melhoria
do planejamento
e da aplicação
das políticas de saúde.
São obstáculos
como infra-estrutura
precária de telecomunicações;
acesso
limitado dos profissionais
de saúde à literatura
médica e a computadores e o custo da internet.
Computadores de mão da Satellife são usados numa pesquisa sobre saúde.
Veja em www.healthnet.org |
Com o sucesso de suas iniciativas, a HealthNet Uganda e a Satellife planejam agora uma distribuição nacional de computadores de mão para facilitar a troca de informações médicas e materiais de treinamento e a comunicação entre áreas rurais e urbanas. Assim, os profissionais de saúde podem fazer consultas, diagnosticar e indicar tratamentos à distância, além de receber colaboração de colegas sem viagens caras. |
As tecnologias de informação
e comunicação
têm um papel importante
no controle da cegueira
de rio (oncocercose) na África Ocidental. Ao longo
dos 50 mil quilômetros
de rios, os sensores
coletam informações que
os moradores mandam
para os entomologistas,
por computadores e rádios
via satélite. Estes podem
então otimizar a aspersão
de venenos contra
a mosca negra, transmissora
da doença.
Uso criativo da
tecnologia
O Hospital Infantil Tygerberg na
Cidade do Cabo, África do Sul, implementou
um sistema de telemedicina
em 1999, financiado pelo Rotary Club local.
Os funcionários do centro de saúde recebem treinamento para usar os computadores de mão da Satellife, como parte do projeto Rede de Informações sobre Saúde, de Uganda. |
O sistema utiliza software e equipamentos
baratos — um disco rígido, um
scanner e uma câmera digital — para que os hospitais de áreas rurais enviem radiografias e resultados de exames de sangue ao Hospital Tygerberg, onde um funcionário revisa as informações e as encaminha ao especialista adequado. Esse médico então envia as recomendações de tratamento por e-mail. O sistema permite que crianças das áreas rurais recebam tratamento médico poupando a família de despesas com viagem — enviar uma criança ao Hospital Tygerberg custa o equivalente a uma semana do salário de um trabalhador rural. |
A melhoria do acesso à informação e a tecnologia
de
comunicação e dados (...) já estão aumentando
a
capacidade dos africanos de fazer escolhas
pessoais estratégicas e de alcançar o estilo
de vida
que
consideram valioso. |
Em 1996, o Ministério da Saúde de
Uganda, o Fundo para Populações das Nações
Unidas e a Secretaria da População
de Uganda iniciaram os Serviços de Assistência e Medicina de Emergência a Áreas Rurais (conhecido como Projeto
Rescuer) para reduzir a taxa de mortalidade
materna, estimada em 506 mortes a
cada cem mil habitantes. O projeto foi desenvolvido
para melhorar a saúde materna
pela conexão das comunidades rurais
tradicionais a um sistema de saúde formal,
com custos aceitáveis. As autoridades
de Uganda utilizaram tecnologia de
radiofreqüência que opera em estações fixas,
walkie-talkies móveis e rádios veiculares.
Em 1999, três anos após a implementação
do projeto, um estudo de caso
do distrito de Iganga concluiu que a taxa
de mortalidade materna caiu cerca de 50%.
Tratamento da tuberculose
A Cidade do Cabo, na África do Sul, tem uma
das maiores taxas mundiais
de tuberculose. Para
tratar essa doença e
conter sua expansão, os
pacientes rigorosamente
devem tomar quatro comprimidos,
cinco vezes por
semana, durante seis meses.
O tratamento de forma
geral falha porque os
pacientes se esquecem de
tomar a medicação. Em
2002, os sul-africanos
tentaram uma abordagem
diferente que resultou em
grande sucesso. Eles usaram
telefones celulares,
tecnologia de mensagens
instantâneas (SMS) e um
banco de dados computadorizado.
A cada meia hora, o banco
de dados seleciona uma lista de pacientes
e manda mensagens lembrando-os
de tomar a medicação. Entre os 138
pacientes participantes do projeto,
apenas um dos tratamentos falhou.
A melhoria do acesso à informação
e a tecnologia de comunicação e dados,
de maneira similar ao aprimoramento
da habilidade de leitura e escrita, já estão
aumentando a capacidade dos africanos
de fazer escolhas pessoais estratégicas
e de alcançar o estilo de vida que consideram
valioso.
Uwen Robert Otu é presidente do Movimento
Africano Jovem,
uma organização sem fins
lucrativos com sedes na África do Sul
e Nigéria,
que trabalha nos campos da educação,da saúde
(na prevenção da aids), na erradicação da
pobreza e na
preservação ambiental, dentro
do amplo contexto da sustentabilidade. |
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