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Janeiro/Março
2005

Destaque
O sucesso das metas de desenvolvimento para o milênio em Mali
Almahady Moustapha Cissé


Dr. Yaya Coulibaly.
Zégoua, 485 quilômetros ao sul de Bamako, é a capital de Mali e a última cidade antes da fronteira com a Costa do Marfim. Em meio a uma população de 22 mil habitantes, as mulheres, unidas, têm obtido sucesso na luta contra a pobreza e a mortalidade materna — um feito raro para um país classificado entre os mais pobres do mundo.

Desde janeiro de 2002, nenhum caso de mortalidade materna ou neonatal foi registrado em Zégoua ou nas vilas próximas, declara com alegria o Dr. Yaya Coulibaly, médico-chefe do centro de saúde comunitário de Zégoua, que atende a nove vilas.

Assumindo a responsabilidade

Segundo o Dr. Coulibaly, esse resultado incrível nasceu do desejo comum das mulheres de Zégoua, que formaram grupos para assumir a responsabilidade por sua própria saúde. “A despeito dos escassos recursos financeiros, essas mulheres pagam por consultas de acompanhamento pós-natal, por vacinas e por serviços de planejamento familiar”, explica o Dr. Coulibaly, orgulhoso das “bravas mulheres”.


Desde janeiro de 2002, nenhum caso de morte materna ou neonatal foi registrado em Zégoua ou nas vilas vizinhas.
Segundo dados do Unicef, em Mali por volta de 1.500 mulheres ficam grávidas diariamente, das quais 230 terão complicações de saúde e 20, em conseqüência desses problemas, morrerão. A cada dia morrem 100 bebês recém-nascidos. Algumas das mulheres que sobrevivem sofrem de fístulas, infecções, esterilidade ou de problemas no útero.

“Nós não dávamos atenção aos nossos problemas de saúde”, diz Mariam Ouatara, moradora da vila de Katèlè, acrescentando que os recursos financeiros, mesmo escassos, às vezes eram gastos nas celebrações da comunidade. “Depois das festividades, muitas de nós não tínhamos nem condições de pagar os 100 francos (cerca de 18 centavos de dólar) de um simples cartão de vacina.”

Mas, conscientes do caráter desumano dessa mortalidade, responsável por 15% dos óbitos em 2002, as mulheres se uniram em grupos de 20 a 40 componentes para plantar algodão, amendoim e arroz. Mais do que serem pagas como trabalhadoras, elas exigiram, e conseguiram, seus próprios campos, e podem usufruir os benefícios do seu trabalho. Agora assumiram a responsabilidade pelo gerenciamento familiar, e os homens parecem felizes com os resultados.

Parte dos rendimentos com a venda da safra é depositada em um banco local e usado como fundo para reembolsar os gastos relacionados à saúde dos membros, principalmente com vacinas, consultas pré e pós-natal, planejamento familiar e compra de remédios contra a malária. Caso ocorram problemas mais sérios numa gravidez, o coordenador da vila deve acompanhar a transferência da mulher para uma clínica equipada para essas emergências. Por exemplo, Katèlè, a 18 quilômetros de Zégoua, tem um posto de saúde coordenado por um ativista da vila que comenta: “Aqui distribuímos remédios e mantemos discussões com a comunidade para aumentar a consciência das mulheres sobre a mortalidade materna e neonatal.” O posto também realiza partos e, se necessário, as mulheres podem ser levadas por ambulância até Zégoua.

Atualmente, apesar das dificuldades financeiras, da pouca chuva e dos efeitos da crise na vizinha Costa do Marfim, as mulheres de Zégoua lutam
ainda com mais ardor contra a miséria e a pobreza.

Os esforços do Dr. Coulibaly desde 1992 inspiraram essas mulheres a se organizarem e, ainda hoje, asseguram a sua continuidade. Agora ele promove a criação de grupos em uma região maior, na comunidade local, e já está quase atingindo seu objetivo.

Entretanto, quando estive em Zégoua em novembro de 2004, a cidade estava sem eletricidade e sem telefone, devido ao conflito com a Costa do Marfim. Desde 1996, depende daquele país para o fornecimento de energia, já que são apenas três quilômetros de distância até a cidade mais próxima da Costa do Marfim. Sem energia elétrica, a situação do Dr.
Coulibaly é insustentável. ”Sem luz, não podemos trabalhar adequadamente.”

Aliada à insegurança, a falta de energia está causando diminuição no atendimento noturno. O Dr. Coulibaly teme que isso aumente o número de partos em casa e os riscos inerentes.

A crueldade da mortalidade materna

Cerca de 600 mil mulheres africanas morrem por ano em decorrência de complicações durante a gravidez ou no parto, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Unicef.

Reconhecendo a extensão dos problemas obstetrícios, o governo de Mali se aliou ao Unicef, ao Fundo para Populações das Nações Unidas (FNUAP), a outras ongs e a organizações das Nações Unidas para sediar a conferência “Vision 2010”, sobre mortalidade materna e neonatal, em Bamako, em 2001.

O problema da mortalidade materna também foi registrado pelas Nações Unidas nas Metas de Desenvolvimento para o Milênio (MDGs), uma série de objetivos acertados por líderes globais na Conferência das Nações Unidas para o Milênio, em 2000. Estipula-se, por exemplo, que a mortalidade materna seja reduzida em dois terços até 2015 — um objetivo que Zégoua já ultrapassou.

Almahady Cissé é jornalista independente em Mali. Ele é
editor do Eco Perspectives e correspondente dos serviços de
notícias Irin, IPS e do site www.afrik.com.


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