
Destaque
O sucesso das metas de desenvolvimento
para o milênio em Mali
Almahady Moustapha Cissé
Dr. Yaya Coulibaly. |
Zégoua, 485 quilômetros ao sul de Bamako, é a capital de Mali e a última cidade antes da fronteira com a Costa do Marfim. Em meio a uma população de 22 mil habitantes, as mulheres, unidas, têm obtido sucesso na luta contra a pobreza e a mortalidade materna — um feito raro para um país classificado entre os mais pobres do mundo. |
Desde janeiro de 2002, nenhum caso de mortalidade materna ou neonatal foi registrado
em Zégoua ou nas vilas próximas,
declara com alegria o Dr. Yaya Coulibaly,
médico-chefe do centro de saúde comunitário
de Zégoua, que atende a nove vilas.
Assumindo a
responsabilidade
Segundo o Dr. Coulibaly, esse resultado
incrível nasceu do desejo comum das
mulheres de Zégoua, que formaram grupos
para assumir a responsabilidade por
sua própria saúde. “A despeito dos escassos
recursos financeiros, essas mulheres
pagam por consultas de acompanhamento
pós-natal, por vacinas
e por serviços de planejamento
familiar”, explica
o Dr. Coulibaly, orgulhoso
das “bravas mulheres”.
Desde janeiro de 2002, nenhum caso de morte materna ou neonatal foi registrado em Zégoua ou nas vilas vizinhas. |
Segundo dados do Unicef, em Mali por volta de 1.500 mulheres ficam grávidas diariamente, das quais 230 terão complicações de saúde e 20, em conseqüência desses problemas, morrerão. A cada dia morrem 100 bebês recém-nascidos. Algumas das mulheres que sobrevivem sofrem de fístulas, infecções, esterilidade ou de problemas no útero. |
“Nós não dávamos atenção aos
nossos problemas de saúde”, diz
Mariam Ouatara, moradora da vila
de Katèlè, acrescentando que
os recursos financeiros, mesmo
escassos, às vezes eram gastos nas
celebrações da comunidade. “Depois
das festividades, muitas de
nós não tínhamos nem condições
de pagar os 100 francos (cerca de
18 centavos de dólar) de um simples
cartão de vacina.”
Mas, conscientes do caráter desumano
dessa mortalidade, responsável por 15%
dos óbitos em 2002, as mulheres se uniram
em grupos de 20 a 40 componentes
para plantar algodão, amendoim e arroz.
Mais do que serem pagas como trabalhadoras,
elas exigiram, e conseguiram, seus
próprios campos, e podem usufruir os benefícios
do seu trabalho. Agora assumiram
a responsabilidade pelo gerenciamento
familiar, e os homens parecem felizes
com os resultados.
Parte dos rendimentos com a venda da
safra é depositada em um banco local e usado como fundo para reembolsar os gastos
relacionados à saúde dos membros, principalmente
com vacinas, consultas pré e
pós-natal, planejamento familiar e compra
de remédios contra a malária. Caso ocorram
problemas mais sérios numa gravidez,
o coordenador da vila deve acompanhar a
transferência da mulher para uma clínica
equipada para essas emergências. Por exemplo,
Katèlè, a 18 quilômetros de Zégoua,
tem um posto de saúde coordenado por um
ativista da vila que comenta: “Aqui distribuímos
remédios e mantemos discussões
com a comunidade para aumentar a consciência
das mulheres sobre
a mortalidade materna
e neonatal.” O posto também
realiza partos e, se necessário,
as mulheres podem
ser levadas por ambulância
até Zégoua.
Atualmente, apesar das
dificuldades financeiras,
da pouca chuva e dos efeitos
da crise na vizinha
Costa do Marfim, as mulheres
de Zégoua lutam
ainda com mais ardor contra
a miséria e a pobreza.
Os esforços do Dr.
Coulibaly desde 1992 inspiraram
essas mulheres a
se organizarem e, ainda hoje, asseguram a sua continuidade. Agora
ele promove a criação de grupos em
uma região maior, na comunidade local,
e já está quase atingindo seu objetivo.
Entretanto, quando estive em Zégoua
em novembro de 2004, a cidade estava
sem eletricidade e sem telefone, devido
ao conflito com a Costa do Marfim. Desde
1996, depende daquele país para o fornecimento
de energia, já que são apenas
três quilômetros de distância até a cidade
mais próxima da Costa do Marfim.
Sem energia elétrica, a situação do Dr.
Coulibaly é insustentável. ”Sem luz, não
podemos trabalhar adequadamente.”
Aliada à insegurança, a falta de energia
está causando diminuição no atendimento
noturno. O Dr. Coulibaly teme que
isso aumente o número de partos em casa
e os riscos inerentes.
A crueldade da
mortalidade materna
Cerca de 600 mil mulheres africanas
morrem por ano em decorrência de complicações
durante a gravidez ou no parto,
segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS) e o Unicef.
Reconhecendo a extensão dos problemas
obstetrícios, o governo de Mali se
aliou ao Unicef, ao Fundo para Populações
das Nações Unidas (FNUAP), a outras
ongs e a organizações das Nações
Unidas para sediar a conferência “Vision
2010”, sobre mortalidade materna e neonatal,
em Bamako, em 2001.
O problema da mortalidade materna
também foi registrado pelas Nações Unidas
nas Metas de Desenvolvimento para
o Milênio (MDGs), uma série de objetivos
acertados por líderes globais na Conferência
das Nações Unidas para o Milênio,
em 2000. Estipula-se, por exemplo,
que a mortalidade materna seja reduzida
em dois terços até 2015 — um objetivo
que Zégoua já ultrapassou.
Almahady Cissé é jornalista independente
em Mali. Ele é
editor
do Eco Perspectives e
correspondente dos serviços de
notícias Irin,
IPS e do site www.afrik.com. |
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