Edições Anteriores
Janeiro/Março
2005

Destaque
Observando a África
Akio Nishiura




Estudantes da Universidade Soka
e o prsidente da SGI, Daisaku
Ikeda, recepcionam o presidente da Tanzânia, Bemjamin Mkapa, com
uma tradicional canção da Tanânia (dezembro de 1998).
Na maior parte de sua história contemporânea, a capacidade da África de determinar seu próprio futuro foi radicalmente limitada pelas freqüentes e
brutais restrições impostas por forças exteriores ao continente: o comércio escravo, o colonialismo, o neocolonialismo, a proximidade das guerras dos blocos ocidentais e orientais durante a Guerra Fria e os Programas de Ajuste Estrutural. Como afirmou Daisaku Ikeda, fundador da Universidade Soka, “a África não é um continente pobre. Ela tornou-se pobre devido à avidez da exploração. Ela não é subdesenvolvida. Seu desenvolvimento natural foi impedido, como uma pessoa cujos braços e pernas foram cortados.”

Os recentes desenvolvimentos na África começaram a tornar seu futuro mais promissor. Além da democratização de muitos países com um único partido e governos militares ao longo da última década, vimos também o surgimento de vários empreedimentos corajosos e visionários de líderes africanos como, por exemplo, a chamada Renascença Africana, o Programa da Parceria do Milênio para a Recuperação da África (MAP), o Plano Ômega e a Nova Iniciativa Africana. A Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad), uma política comum de desenvolvimento e economia para a recém-estabelecida União Africana, pode ser descrita como fruto desses esforços. Uma das características inovadoras da Nepad é a adoção de um mecanismo de revisão igualitária por todos os Estados-Membros da União Africana.

“Chegou a época em que todo o mundo aprenderá com
a energia, a força e a sabedoria da África.”

Tudo isso representa um triunfo para a autodeterminação: a África está tomando em suas próprias mãos a condução de seu destino.

O continente do século XXI

Há décadas Daisaku Ikeda defende que o século XXI será o “Século da África” porque reconhece o amplo potencial do continente. Baseado nesse ponto de vista, durante décadas ele buscou e travou diálogos com os africanos: de diplomatas e estadistas a educadores, artistas, escritores e cidadãos comuns.

Em um de seus ensaios, ele expressa essa perspectiva de forma poética:

“Por ‘Século da África’ quero dizer um período em que os que mais sofreram serão os mais felizes, o século no qual os que sofreram a maior humilhação e indignidade caminharão orgulhosos e altaneiros, com suas cabeças erguidas. Haverá novos protagonistas no drama da história humana. Aqueles a quem o mundo mais oprimiu vão se tornar os que conduzirão o mundo no futuro.”

Em minha interpretação, as perspectivas de Ikeda sugerem dois pontos importantes. Primeiro: não podemos atingir a paz no mundo sem solucionar os problemas da África. A pobreza, a frustração e o descontentamento que surgem disso geram o fundamentalismo e a violência, por exemplo; e as conseqüências diretas em não se evitar a pandemia do vírus do HIV dificilmente podem ser mínimas. É urgentíssimo
que nos esforcemos.

Segundo: podemos e devemos olhar mais seriamente para a África buscando soluções para os impasses globais, como a aparentemente insolúvel questão palestina e a guerra no Iraque. O sucesso quase miraculoso da África do Sul ao atingir a reconciliação nacional, após décadas da violência do apartheid, propicia grande esperança para o mundo. Além disso, a notável riqueza cultural e espiritual é uma fonte valiosa da qual a humanidade pode se beneficiar. Os valores e atitudes de tolerância, auxílio mútuo e pensamento positivo, nos quais creio que estejam enraizados a cultura oral e comunitária da África, são qualidades de que o mundo necessita hoje.

A visão de Ikeda é a da sabedoria para unir as pessoas, harmonizar os povos com a natureza e iluminar a África. Ao clamar pelo respeito mútuo entre os povos e nas questões internacionais, ele reafirma a importância
de mudar atitudes:

“Chegou a época em que todo o mundo aprenderá com a energia, a força e a sabedoria da África, que nunca perde o alegre ritmo da vida apesar de tudo o que lhe foi subtraído. Não estou falando da atitude protetora de ‘auxiliar os países atrasados’. Essa é uma maneira colonialista de se pensar, a idéia de levar a civilização aos selvagens. Falo de vivermos juntos como membros da mesma família humana.”

Sementes da amizade

O meu interesse pela África foi inspirado no encontro com as idéias do presidente Ikeda quando eu era estudante. A importância que a Universidade Soka dá à África é de muitas maneiras única em um país em que muitas universidades sequer oferecem estudos sobre esse continente. A cada ano, mais de mil estudantes da universidade matriculam-se em disciplinas relacionadas à África (Língua Suaili e Estudos Africanos). Além disso, ela mantém programas de intercâmbio para professores e estudantes com universidades do Quênia, Gana, Egito e África do Sul.

Um concurso de oratória em suaili é realizado anualmente desde 1990, organizado pelos estudantes da Sociedade para a Amizade Pan-Africana, uma boa oportunidade para o público aprender não apenas o idioma suaili, mas também sobre a cultura africana. Inspirado pela visão de Ikeda e suas relações na universidade, muitos formandos partem para viver e trabalhar na África ou realizam trabalhos relacionados a ela, perseguindo um ideal ensinado na universidade de “vivermos juntos e aprendermos com a África”.

Akio Nishiura é professor-associado de Estudos Africanos e
Economia na Universidade Soka, no Japão. Ele passou vários
anos no Quênia e na África do Sul conduzindo pesquisas sobre
redução da pobreza por meio do desenvolvimento industrial.


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.