
Destaque
Observando a África
Akio Nishiura
Estudantes da Universidade Soka
e o prsidente da SGI, Daisaku
Ikeda, recepcionam o presidente da Tanzânia, Bemjamin Mkapa, com
uma
tradicional canção da Tanânia (dezembro de 1998). |
Na maior parte de sua história contemporânea, a capacidade da África de determinar seu próprio futuro foi radicalmente limitada pelas freqüentes e
brutais restrições impostas por forças exteriores ao continente: o comércio escravo, o colonialismo, o neocolonialismo, a proximidade das guerras dos blocos ocidentais e orientais durante a Guerra Fria e os Programas de Ajuste Estrutural. Como afirmou Daisaku Ikeda, fundador da
Universidade Soka, “a África não é um continente pobre. Ela tornou-se pobre devido à avidez da exploração. Ela não é subdesenvolvida. Seu desenvolvimento natural foi impedido, como uma pessoa cujos braços e pernas foram cortados.” |
Os recentes desenvolvimentos na África
começaram a tornar seu futuro mais promissor.
Além da democratização de muitos
países com um único partido e governos
militares ao longo da última década,
vimos também o surgimento de vários
empreedimentos corajosos e visionários
de líderes africanos como, por exemplo,
a chamada Renascença Africana, o Programa
da Parceria do Milênio para
a Recuperação da África
(MAP), o Plano Ômega e a Nova
Iniciativa Africana. A Nova
Parceria para o Desenvolvimento
da África (Nepad),
uma política comum de desenvolvimento
e economia para a
recém-estabelecida União Africana,
pode ser descrita como fruto
desses esforços. Uma das características
inovadoras da Nepad é a adoção de um mecanismo de revisão igualitária por todos
os Estados-Membros da União Africana.
“Chegou a época em que todo
o mundo aprenderá com
a energia,
a força e a sabedoria da África.” |
Tudo isso representa um triunfo para
a autodeterminação: a África está tomando
em suas próprias mãos a condução
de seu destino.
O continente do século XXI
Há décadas Daisaku Ikeda defende que
o século XXI será o “Século da África”
porque reconhece o amplo potencial do
continente. Baseado nesse ponto de vista,
durante décadas ele buscou e travou
diálogos com os africanos: de diplomatas
e estadistas a educadores, artistas, escritores
e cidadãos comuns.
Em um de seus ensaios, ele expressa
essa perspectiva de forma poética:
“Por ‘Século da África’ quero dizer um
período em que os que mais sofreram serão
os mais felizes, o século no qual os
que sofreram a maior humilhação e indignidade
caminharão orgulhosos e altaneiros,
com suas cabeças erguidas. Haverá
novos protagonistas no drama da história
humana. Aqueles a quem o mundo
mais oprimiu vão se tornar os que conduzirão
o mundo no futuro.”
Em minha interpretação, as perspectivas
de Ikeda sugerem dois pontos importantes.
Primeiro: não podemos atingir a
paz no mundo sem solucionar os problemas
da África. A pobreza, a frustração e
o descontentamento que surgem disso geram
o fundamentalismo e a violência, por
exemplo; e as conseqüências diretas em
não se evitar a pandemia do vírus do HIV
dificilmente podem ser mínimas. É urgentíssimo
que nos esforcemos.
Segundo: podemos e devemos olhar
mais seriamente para a África buscando
soluções para os impasses globais, como
a aparentemente insolúvel questão palestina
e a guerra no Iraque. O sucesso quase
miraculoso da África do Sul ao atingir
a reconciliação nacional, após décadas
da violência do apartheid, propicia grande
esperança para o mundo. Além disso,
a notável riqueza cultural e espiritual é
uma fonte valiosa da qual a humanidade
pode se beneficiar. Os valores e atitudes
de tolerância, auxílio mútuo e pensamento
positivo, nos quais creio que estejam
enraizados a cultura oral e comunitária
da África, são qualidades de que o mundo
necessita hoje.
A visão de Ikeda é a da sabedoria para
unir as pessoas, harmonizar os povos com
a natureza e iluminar a África. Ao clamar
pelo respeito mútuo entre os povos e nas questões internacionais, ele reafirma a importância
de mudar atitudes:
“Chegou a época em que todo o mundo
aprenderá com a energia, a força e a
sabedoria da África, que nunca perde o
alegre ritmo da vida apesar de tudo o que
lhe foi subtraído. Não estou falando da
atitude protetora de ‘auxiliar os países
atrasados’. Essa é uma maneira colonialista
de se pensar, a idéia de levar a civilização
aos selvagens. Falo de vivermos
juntos como membros da mesma família
humana.”
Sementes da amizade
O meu interesse pela África foi inspirado
no encontro com as idéias do presidente
Ikeda quando eu era estudante. A importância
que a Universidade Soka dá à
África é de muitas maneiras única em um
país em que muitas universidades sequer
oferecem estudos sobre esse continente. A
cada ano, mais de mil estudantes da universidade
matriculam-se em disciplinas relacionadas à África (Língua Suaili e Estudos
Africanos). Além disso, ela mantém
programas de intercâmbio para professores
e estudantes com universidades do Quênia,
Gana, Egito e África do Sul.
Um concurso de oratória em suaili é realizado
anualmente desde 1990, organizado
pelos estudantes da Sociedade para a
Amizade Pan-Africana, uma boa oportunidade
para o público aprender não apenas
o idioma suaili, mas também sobre a
cultura africana. Inspirado pela visão de
Ikeda e suas relações na universidade, muitos
formandos partem para viver e trabalhar
na África ou realizam trabalhos relacionados
a ela, perseguindo um ideal ensinado
na universidade de “vivermos juntos
e aprendermos com a África”.
Akio Nishiura é professor-associado de Estudos Africanos e
Economia na Universidade Soka, no Japão. Ele passou vários
anos no Quênia e na África do Sul conduzindo pesquisas sobre
redução da pobreza por meio do desenvolvimento industrial. |
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