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Janeiro/Março
2005

Destaque
As mulheres e o desenvolvimento na África
Ifi Amadiume

A experiência colonial que introduziu as percepções e práticas ocidentais de gênero afetaram o relacionamento tradicional e social das mulheres africanas, levando-as à marginalização e ao enfraquecimento político e econômico. A abordagem do gênero e do progresso no discurso desenvolvimentista pós-colonial procura reafirmar a importância social das mulheres, ao mesmo tempo em que reconhece os efeitos destrutivos da pobreza e das doenças para qualquer indivíduo.

Mesmo que as mulheres se tornassem mais visíveis e aumentassem sua capacidade de produção econômica, seu trabalho e esforços não deixariam de ser explorados, a menos que houvesse mudanças nas estruturas desiguais de governo. Precisamos de parcerias e do partilhamento do poder para transpormos o impasse de gêneros a fim de construir um futuro alternativo, inclusivo e benevolente.


Mulheres xhosa na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentado, em Johannesburgo.
Muitos de nós vêem a educação e o acesso ao capital como as soluções definitivas contra a discriminação das mulheres em todos os aspectos da construção nacional pós-colonial na África. Entretanto, padrões mais recentes de participação de gêneros na política e nos gabinetes ministeriais, na maioria das nações do mundo, apontam para soluções mais complexas, indicando que a cultura também deve integrar essa equação.

Os sistemas de conhecimento e de cultura também estão relacionados à economia.

Dessa forma, acredito ser necessário examinar as tradições culturais das mulheres e sua contribuição criativa para o desenvolvimento da África.

Espiritualidade, literatura e desenvolvimento

Quando olhamos para as contribuições femininas e as iniciativas de desenvolvimento na África, vemos que as mulheres geralmente são guiadas por ensinos que derivam do que eu chamo “princípio de relação matriarcal” que nos considera seres humanos e filhos de uma única mãe, umunne. Acredito ser essa uma ética de parentesco geral e básica na África. Ela pode se tornar uma base não-racista e nãopatriarcal para uma cidadania global alternativa na luta pelos direitos humanos, na justiça social e no desenvolvimento inclusivo.

É uma honra e uma afirmação da África como mãe da humanidade o fato de uma africana, Wangari Maathai, ter ganho o Prêmio Nobel da Paz de 2004 pelo seu ativismo ambiental. Maathai e as mulheres do Movimento Cinturão Verde, que ela fundou em 1977, já plantaram 30 milhões de árvores na África. Ações que tornam clara a importância de reconhecer as organizações e culturas femininas como poderosos veículos para o crescimento nacional, particularmente com relação à sua capacidade de mobilizar as mulheres.

Nas tradições folclóricas das mulheres e na literatura de resistência das africanas vemos que as vítimas da colonização e do imperialismo ainda são capazes de inventar alternativas para subverter os desejos de seus opressores no pensamento e na ação. Venho considerando essa produção criativa como uma literatura de relação matriarcal que emprega a própria originalidade da África na construção e na reconstrução de idéias e culturas a partir de sua própria e rica herança.

As escritoras africanas não estão evitando uma perspectiva de gênero na modernização, dando uma luz às tensões entre a tradição e a modernidade no casamento, nas relações familiares e na maneira pela qual suas vozes e escolhas são freqüentemente subjugadas pelos preconceitos masculinos. São mulheres que têm lidado com a dominação patriarcal no poder econômico-político e vêm se engajando em temas polêmicos do feminismo, da opção e da sexualidade.

Elas questionam as promessas não cumpridas de educação e mobilidade social, dada a persistência do imperialismo cultural eurocêntrico e da ditadura do capitalismo financeiro incorporado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional e suas condições para ajustes estruturais. E, além de tudo, elas ainda encorajam formas mais complexas de pensamento, em vez de uma moralização fácil.

As sociedades africanas tradicionais utilizavam certa flexibilidade para resolver as situações em que o gênero biológico seria uma restrição para as mulheres ocuparem posições políticas e econômicas. Postura que promove a igualdade social e promove a inclusão necessária para se atingir um desenvolvimento eqüitativo.

Em meu livro Male Daughters, Female Husbands, examino a influência do gênero na estrutura e dinâmica do poder précolonial e mostro que os papéis não eram nem rigidamente masculinos nem femininos.

A flexibilidade no gênero africano ensina-nos que a cultura pode escrever e reescrever a biologia em direção à inclusão. Um homem pode desempenhar o papel de mãe e as mulheres podem ser filhos e maridos. Aqui, a linguagem do parentesco e da descendência torna- se um modelo para a administração governamental e o Estado. Por meio do conceito de filha- macho, homem ou mulher pode chefiar o grupo de descendentes, e isso se traduz simbolicamente— e também literalmente — em uma mulher como chefe de Estado. Pelo conceito de maridos-fêmea, as mulheres podem ser chefes de empresas e corporações. Esse é um excelente uso da metáfora, do imaginário e do simbolismo no pensamento criativo para uma sociedade progressista. É isso o que a literatura faz melhor — liberalizar a cultura e a sociedade.

Há tantas e importantes realizações das chamadas mulheres “primitivas” na África ainda hoje não conquistadas por mulheres das nações mais poderosas. Por que as mulheres que já foram faraós, líderes, rainhas e imperatrizes na África pré-colonial não podem ser presidentes, primeiras-ministras no período pós-colonial moderno?

“A produção econômica e
social era centralizada na figura feminina
desde o início da história da África...”

Se olharmos a história cultural, a economia e a política africanas, podemos dizer que o colonialismo trouxe uma regressão para as mulheres das nações africanas. A produção econômica e social era centralizada na figura feminina desde o início da história da África até o começo do colonialismo. Sob a atual situação de imperialismo e dependência que está remoldando as nações e as sociedade africanas, queremos voltar para trás e nos agarrar aos legados positivos usados para centralizar as mulheres no desenvolvimento com o apoio dos homens.

Vozes dos vilarejos


Membros do Movimento do Cinturão Verde, no Quênia.
Não podemos mais prescrever apenas a educação e o acesso ao capital sem também engajar a personalidade e a composição do gênero na estrutura nacional em desenvolvimento. A nação é uma rede de diversas culturas e sistemas de relações sociais interconectadas nos níveis local, nacional e internacional. A camponesa que faz cultura e produz riqueza na vila tem igualmente o direito de moldar a política nacional.

Tivemos de transpor muitos obstáculos até chegar a teorias mais apropriadas de gênero e desenvolvimento. Primeiro o reconhecimento de que o modelo de gênero da colonização vitoriano-cristã é estranho às mulheres africanas. Foi então necessário lançar um argumento para a assistência, significando o acesso a educação, tecnologia, crédito e também a partilha do poder. Percorremos um longo caminho desde a época em que as atividades econômicas das mulheres não eram vistas como relevantes para o desenvolvimento econômico até se defender a necessidade de um futuro democrático consciente da importância feminina. As mulheres afirmam agora que estão prontas a partilhar o poder, têm de se sentar à mesa das conversações de paz. O envolvimento das mulheres é necessário em todos os níveis da sociedade civil, desde as comunidades locais até o topo do governo, para que suas iniciativas de paz no desenvolvimento sejam efetivas.

O atual modelo patriarcal ocidental se mostrou completamente antidemocrático quanto a gênero. Entretanto, no passado, era até mesmo possível delegações de paz formadas por grupos de mulheres que se encontraram com facções opostas. As delegações de paz femininas costumavam ocupar as áreas em disputas antes de as guerras começarem. As mulheres igbo e ibibio usaram esse tipo de estratégia na Guerra das Mulheres, de 1929, contra a colonização. Elas queriam usar seus corpos respeitados e reverenciados para acalmarem os locais em conflito.

Enquanto os povos pobres e enfraquecidos do mundo continuam a sofrer com o neoliberalismo e a globalização negativa, devemos por meio da resistência e da luta exigir o direito de redefinir nossas comunidades como verdadeiramente inclusivas, livres e iguais em nosso planeta, com base na democracia do gênero e em um intercâmbio econômico justo.

Ifi Amadiume viveu na Nigéria e no Reino Unido e atualmente é professora no Dartmouth College,em Hanover,nos Estados Unidos,
onde ensina no Departamento de Religião e no Programa de Estudos Africanos e Afro-Americanos. Seu livro Male Daughters, Female
Husbands (Zed Books, 1988) ganhou o Choice Outstanding
Academic Book of the Year em 1989.


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