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A experiência colonial que introduziu
as percepções e práticas ocidentais
de gênero afetaram o relacionamento
tradicional e social das mulheres
africanas, levando-as à marginalização
e ao enfraquecimento político e econômico.
A abordagem do gênero e do progresso
no discurso desenvolvimentista pós-colonial
procura reafirmar a importância social das mulheres, ao mesmo tempo em que reconhece
os efeitos destrutivos da
pobreza e das doenças para qualquer
indivíduo. |
Mesmo que as mulheres se
tornassem mais visíveis e aumentassem
sua capacidade de
produção econômica, seu trabalho
e esforços não deixariam
de ser explorados, a menos que
houvesse mudanças nas estruturas
desiguais de governo. Precisamos
de parcerias e do partilhamento
do poder para transpormos
o impasse de gêneros a
fim de construir um futuro alternativo,
inclusivo e benevolente.
Mulheres xhosa na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentado, em Johannesburgo. |
Muitos de nós vêem a educação e o acesso ao capital como as soluções definitivas contra a discriminação das mulheres em todos os aspectos da construção nacional pós-colonial na África. Entretanto, padrões mais recentes de participação de gêneros na política e nos gabinetes ministeriais, na maioria das nações do mundo, apontam para soluções mais complexas, indicando que a cultura também deve integrar essa equação. |
Os sistemas de conhecimento e de
cultura também estão relacionados à economia.
Dessa forma, acredito ser necessário
examinar as tradições culturais das
mulheres e sua contribuição criativa para
o desenvolvimento da África.
Espiritualidade, literatura e
desenvolvimento
Quando olhamos para as contribuições
femininas e as iniciativas de desenvolvimento
na África, vemos que as mulheres
geralmente são guiadas por ensinos que
derivam do que eu chamo “princípio de
relação matriarcal” que nos considera seres
humanos e filhos de uma única mãe, umunne. Acredito ser essa uma ética de
parentesco geral e básica na África. Ela
pode se tornar uma base não-racista e nãopatriarcal
para uma cidadania global alternativa
na luta pelos direitos humanos,
na justiça social e no desenvolvimento inclusivo.
É uma honra e uma afirmação da África
como mãe da humanidade o fato de uma
africana, Wangari Maathai, ter ganho o
Prêmio Nobel da Paz de 2004 pelo seu
ativismo ambiental. Maathai e as mulheres
do Movimento Cinturão Verde, que
ela fundou em 1977, já plantaram 30 milhões
de árvores na África. Ações que tornam
clara a importância de reconhecer as organizações e culturas femininas como
poderosos veículos para o crescimento
nacional, particularmente com relação à
sua capacidade de mobilizar as mulheres.
Nas tradições folclóricas das mulheres
e na literatura de resistência das africanas
vemos que as vítimas da colonização
e do imperialismo ainda são capazes de
inventar alternativas para subverter os desejos
de seus opressores no pensamento
e na ação. Venho considerando
essa produção criativa como
uma literatura de relação matriarcal
que emprega a própria
originalidade da África na construção
e na reconstrução de
idéias e culturas a partir de sua
própria e rica herança.
As escritoras africanas não
estão evitando uma perspectiva
de gênero na modernização,
dando uma luz às tensões entre
a tradição e a modernidade no
casamento, nas relações familiares
e na maneira pela qual
suas vozes e escolhas são freqüentemente
subjugadas pelos
preconceitos masculinos. São
mulheres que têm lidado com a dominação
patriarcal no poder econômico-político
e vêm se engajando em temas polêmicos
do feminismo, da opção e da sexualidade.
Elas questionam as promessas
não cumpridas de educação e mobilidade
social, dada a persistência do imperialismo
cultural eurocêntrico e da ditadura
do capitalismo financeiro incorporado pelo
Banco Mundial e pelo Fundo Monetário
Internacional e suas condições para
ajustes estruturais. E, além de tudo, elas
ainda encorajam formas mais complexas
de pensamento, em vez de uma moralização
fácil.
As sociedades africanas tradicionais utilizavam certa flexibilidade para resolver
as situações em que o gênero biológico
seria uma restrição para as
mulheres ocuparem posições políticas
e econômicas. Postura que promove
a igualdade social e promove a inclusão
necessária para se atingir um desenvolvimento
eqüitativo.
Em meu livro Male Daughters, Female
Husbands, examino a influência do gênero
na estrutura e dinâmica do poder précolonial
e mostro que os papéis não eram
nem rigidamente masculinos nem femininos.
A flexibilidade no gênero africano
ensina-nos que a cultura pode escrever e
reescrever a biologia em direção à inclusão.
Um homem pode desempenhar o papel
de mãe e as mulheres podem ser filhos
e maridos. Aqui, a linguagem do parentesco
e da descendência torna-
se um modelo para a administração
governamental e o Estado.
Por meio do conceito de filha-
macho, homem ou mulher
pode chefiar o grupo de descendentes,
e isso se traduz simbolicamente— e também literalmente — em uma mulher como chefe
de Estado. Pelo conceito de
maridos-fêmea, as mulheres podem
ser chefes de empresas e
corporações. Esse é um excelente
uso da metáfora, do imaginário
e do simbolismo no pensamento
criativo para uma sociedade
progressista. É isso o que a
literatura faz melhor — liberalizar a cultura
e a sociedade.
Há tantas e importantes realizações das
chamadas mulheres “primitivas” na África
ainda hoje não conquistadas por mulheres
das nações mais poderosas. Por que as
mulheres que já foram faraós, líderes, rainhas
e imperatrizes na África pré-colonial
não podem ser presidentes, primeiras-ministras
no período pós-colonial moderno?
“A produção econômica e
social era centralizada na figura feminina
desde o início da história da África...” |
Se olharmos a história cultural, a economia
e a política africanas, podemos dizer
que o colonialismo trouxe uma regressão
para as mulheres das nações africanas.
A produção econômica e social era
centralizada na figura feminina desde o
início da história da África até o começo do colonialismo. Sob a atual situação de
imperialismo e dependência que está remoldando
as nações e as sociedade africanas,
queremos voltar para trás e nos
agarrar aos legados positivos usados para
centralizar as mulheres no desenvolvimento
com o apoio dos homens.
Vozes dos vilarejos
Membros do Movimento do Cinturão Verde, no Quênia. |
Não podemos mais prescrever apenas a educação e o acesso ao capital sem também engajar a personalidade e a composição do gênero na estrutura nacional em desenvolvimento. A nação é uma rede de diversas culturas e sistemas de relações sociais interconectadas nos níveis local, nacional e internacional. A camponesa que faz cultura e produz riqueza na vila tem igualmente o direito de moldar a política nacional. |
Tivemos de transpor muitos obstáculos
até chegar a teorias mais apropriadas de
gênero e desenvolvimento. Primeiro o reconhecimento
de que o modelo de gênero
da colonização vitoriano-cristã é estranho às mulheres africanas. Foi então necessário
lançar um argumento para a assistência,
significando o acesso a educação,
tecnologia, crédito e também a partilha
do poder. Percorremos um longo caminho
desde a época em que as atividades
econômicas das mulheres não
eram vistas como relevantes para o
desenvolvimento econômico até se
defender a necessidade de um futuro democrático
consciente da importância feminina.
As mulheres afirmam agora que
estão prontas a partilhar o poder, têm de
se sentar à mesa das conversações de paz.
O envolvimento das mulheres é necessário
em todos os níveis da sociedade civil,
desde as comunidades locais até o topo
do governo, para que suas iniciativas de
paz no desenvolvimento sejam efetivas.
O atual modelo patriarcal ocidental se
mostrou completamente antidemocrático
quanto a gênero. Entretanto, no passado,
era até mesmo possível delegações de paz
formadas por grupos de mulheres
que se encontraram com facções
opostas. As delegações de
paz femininas costumavam ocupar
as áreas em disputas antes de
as guerras começarem. As mulheres
igbo e ibibio usaram esse
tipo de estratégia na Guerra das
Mulheres, de 1929, contra a colonização.
Elas queriam usar seus
corpos respeitados e reverenciados
para acalmarem os locais em
conflito.
Enquanto os povos pobres e
enfraquecidos do mundo continuam
a sofrer com o neoliberalismo
e a globalização negativa,
devemos por meio da resistência e da luta
exigir o direito de redefinir nossas comunidades
como verdadeiramente inclusivas,
livres e iguais em nosso planeta,
com base na democracia do gênero e em
um intercâmbio econômico justo.
Ifi Amadiume viveu na Nigéria e no Reino
Unido e atualmente é professora no
Dartmouth College,em Hanover,nos Estados
Unidos,
onde ensina no Departamento de
Religião e no Programa de Estudos Africanos
e Afro-Americanos. Seu livro Male
Daughters, Female
Husbands (Zed Books,
1988) ganhou o Choice Outstanding
Academic Book of the Year em 1989. |