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Janeiro/Março
2005

Destaque
Curando a África em nós
Ben Okri

África, com seu formato de coração, é o centro dos sentimentos do mundo. Continentes são metáforas, tanto quanto são locais. E os povos são estados espirituais de humanidade tão distinguíveis no que representam quanto os lírios, as rosas e os narcisos.

Será que esquecemos o que é a África? A África é a nossa terra dos sonhos, nossa terra natal espiritual.

Há um reino em cada ser humano que é a África. Todos temos a África dentro de nós. E assim, quando a África exterior está doente e com problemas, a África dentro de nós adoece de neurose. A quantidade total de neurose, de anorexia, de doenças psíquicas inexplicáveis no mundo possivelmente está ligada de forma indireta às doenças e problemas da África. Temos de curar a África em nós se quisermos ser completos novamente.

Temos de curar a África fora de nós se é para que a raça humana fique em paz de novo e de forma dinâmica. Há uma relação entre os problemas de um povo e os problemas no mundo e na atmosfera. Os problemas na África contribuem imensamente para o peso e o tamanho totais dos sofrimentos no mundo. E esse mundo em sofrimento envolve todos no planeta: afeta as crianças e sua saúde, afeta nosso sono, nossa ansiedade, nosso sofrimento desconhecido... Por isso, é possível sofrer sem saber.

Então, temos de curar a África em nós. Temos de redescobrir a verdadeira África, a África do riso, da alegria, da originalidade, do improviso; a África das lendas, das histórias, das brincadeiras; a África
das cores brilhantes, da generosidade, da hospitalidade e da gentileza aos forasteiros; a África da imensa benevolência; a África da sabedoria, dos provérbios, da adivinhação, do paradoxo; a África da ingenuidade e da surpresa; a África da postura em quatro dimensões em relação à época; a África da magia, da fé, da paciência, da resistência, de um profundo conhecimento dos caminhos da natureza e dos ciclos secretos do destino.

Temos de redescobrir a África. A primeira descoberta da África pelos europeus foi errada. Não foi uma descoberta. Foi um ato sem discernimento. Eles viram e transmitiram às futuras gerações uma África baseada no que achavam ser importante. Eles não viram a África. E essa não-visão da África é parte dos problemas de hoje. A África foi considerada do ponto de vista da ganância, do que poderia ser tirado dela. E o que você vê é o que você faz. O que você vê num povo é o que eventualmente você cria neles. É chegado o momento de uma nova visão. É tempo de limpar as trevas dos olhos do mundo ocidental.

O mundo precisa agora ver a luz da África, ver seu nascer do sol, sua luminosidade, seu brilho, sua beleza. Se virmos essas coisas, elas serão reveladas. Somente vemos o que queremos ver. E somente quando vemos mais uma vez, é que os detalhes se revelam a nós. AÁfrica está aguardando há séculos para ser descoberta pelos olhos do amor, pelos olhos de um amante. Não há visão verdadeira sem amor. Se é para que a humanidade comece a conhecer a verdadeira felicidade nesta Terra, temos de aprender a amar a África em nós.

Nós amamos a América em nós. Amamos a Europa em nós. Estamos começando a respeitar a Ásia em nós. Apenas a África em nós ainda não é amada, não é vista nem apreciada. O primeiro passo para a regeneração da humanidade é fazer de todos esses continentes em nós um todo novamente. Nós somos a soma total da humanidade. Cada indivíduo é toda a humanidade. É a vez de a África sorrir. Esse será o mais amado presente do século XXI: fazer a África sorrir novamente.

A humanidade pode começar a pensar no Universo, mesmo nas mais remotas estrelas, como seu verdadeiro lar.

Bem Okri, poeta e novelista nigeriano, é vice-presidente do Centro
Inglês do PEN Internacional. Sua novela The Famished Road
conquistou o Booker Prize do Reino Unido em 1991.


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