
Destaque
Curando a África em nós
Ben Okri
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África, com seu formato de coração, é o centro dos sentimentos do mundo. Continentes são metáforas, tanto quanto são locais. E os povos são estados espirituais de humanidade tão distinguíveis no que representam quanto os lírios, as rosas e os narcisos.
Será que esquecemos o que é a África? A África é a nossa terra dos sonhos, nossa terra natal espiritual. |
Há um reino em cada ser humano que é a África. Todos temos a África dentro de
nós. E assim, quando a África exterior está
doente e com problemas, a África dentro
de nós adoece de neurose. A quantidade
total de neurose, de anorexia, de
doenças psíquicas inexplicáveis no mundo
possivelmente está ligada de forma
indireta às doenças e problemas da África. Temos de curar a África em nós
se quisermos ser completos novamente.
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Temos de curar a África fora de nós se é para que a raça humana fique em paz de novo e de forma dinâmica. Há uma relação entre os problemas de um povo e os problemas no mundo e na atmosfera.
Os problemas na África contribuem imensamente para o peso e o tamanho totais dos sofrimentos no mundo. E esse mundo em sofrimento envolve todos no planeta: afeta as crianças e sua saúde, afeta nosso sono, nossa ansiedade, nosso sofrimento desconhecido... Por isso, é possível sofrer sem saber. |
Então, temos de curar a África em nós. Temos
de redescobrir a verdadeira África, a África do
riso, da alegria, da originalidade, do improviso; a África das lendas, das histórias, das brincadeiras; a África
das cores brilhantes, da generosidade, da hospitalidade e da
gentileza aos forasteiros; a África da imensa benevolência;
a África da sabedoria, dos provérbios, da adivinhação, do
paradoxo; a África da ingenuidade e da surpresa; a África
da postura em quatro dimensões em relação à época; a África
da magia, da fé, da paciência, da resistência, de um profundo
conhecimento dos caminhos da natureza e dos ciclos secretos
do destino.
Temos de redescobrir a África. A primeira descoberta da África pelos europeus foi errada. Não foi uma descoberta.
Foi um ato sem discernimento. Eles viram e transmitiram às
futuras gerações uma África baseada no que achavam ser importante.
Eles não viram a África. E essa não-visão da África é parte dos problemas de hoje. A África foi considerada do
ponto de vista da ganância, do que poderia ser tirado dela.
E o que você vê é o que você faz. O que você vê
num povo é o que eventualmente você cria
neles. É chegado o momento de uma nova
visão. É tempo de limpar as trevas dos
olhos do mundo ocidental.
O mundo precisa agora ver a luz da África, ver seu nascer do sol, sua luminosidade,
seu brilho, sua beleza. Se virmos
essas coisas, elas serão reveladas. Somente vemos o que queremos ver. E
somente quando vemos mais uma vez, é que os detalhes se revelam a nós. AÁfrica está aguardando há séculos para
ser descoberta pelos olhos do amor, pelos
olhos de um amante. Não há visão verdadeira
sem amor. Se é para que a humanidade comece
a conhecer a verdadeira felicidade nesta Terra,
temos de aprender a amar a África em nós.
Nós amamos a América em nós. Amamos a Europa
em nós. Estamos começando a respeitar a Ásia
em nós. Apenas a África em nós ainda não é amada,
não é vista nem apreciada. O primeiro passo para a
regeneração da humanidade é fazer de todos esses
continentes em nós um todo novamente. Nós somos
a soma total da humanidade. Cada indivíduo é toda
a humanidade. É a vez de a África sorrir. Esse será o
mais amado presente do século XXI: fazer a África sorrir
novamente.
A humanidade pode começar a pensar no Universo, mesmo
nas mais remotas estrelas, como seu verdadeiro lar.
Bem Okri, poeta e novelista nigeriano, é vice-presidente do Centro
Inglês do PEN Internacional. Sua novela The Famished Road
conquistou o Booker Prize do Reino Unido em 1991. |
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