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Abril/Junho
2004

Gente
Jamais desistir: Jun Ortiz, Filipinas e Japão

Jun Ortiz nasceu nas Filipinas em 1950. Como músico, começou a viajar ao Japão a trabalho no final da década de 1970. Em 1979, conheceu Yoshiko, com quem se casou em 1981.

Jun conheceu o Budismo Nitiren por intermédio de um senhor japonês que se sentou perto dele no avião, durante uma viagem de volta às Filipinas. Em várias visitas a esse senhor, também residente em Manila, Jun leu diversos livros sobre budismo e a filosofia da Soka Gakkai. Ele ficou particularmente impressionado com a idéia da causalidade — o princípio budista segundo o qual tanto criamos a causa quanto somos ao final responsáveis pelos efeitos que experimentamos em nossa vida. Ficou ainda atraído pela idéia da eternidade da vida e de que sua história é encenada numa continuidade que transcende esta existência.


Jun Ortiz
De volta ao Japão, Jun pediu a Yoshiko que o acompanhasse à sede da Soka Gakkai em Tóquio, sobre a qual ele ouvira nas Filipinas. A impressão de Yoshiko sobre a Soka Gakkai não era positiva. Ela ficou surpresa com o pedido e hesitou em atendê-lo. Mas Jun insistiu que seria importante ao menos descobrir a natureza dessa filosofia e da organização antes de fazer qualquer juízo. Se não gostassem, argumentava ele, sempre poderiam desistir. Em 1980, Jun e Yoshiko se juntaram à Soka Gakkai e iniciaram a prática do budismo.

:: Oposição

Os pais de Yoshiko se opunham à idéia de que ela se casasse com um filipino e não viam a fé budista do jovem casal com bons olhos. O primeiro objetivo deles foi, portanto, convencer os pais de Yoshiko a aceitar tanto o casamento quanto a nova religião.

Ao mesmo tempo, Jun lutava para adaptar-se à vida no Japão. Ele se viu combatendo formas sutis e não tão sutis de discriminação para encontrar um trabalho estável. A advertência dos pais de Yoshiko de que apenas o amor não colocaria comida na mesa foi ficando cada vez mais clara. O casal utilizava então sua crença budista para encontrar força interior e enfrentar esses desafios. Depois de um ano, conseguiram convencer os pais de Yoshiko a aceitar Jun. Casaram-se em 1981 e logo tiveram três filhas.

Yoshiko encontrou trabalho como contadora, e Jun ensinava inglês em casa. Ele foi apresentado a uma agência de talentos e logo começou a interpretar tipos característicos para a televisão e filmes japoneses. Era da natureza de Jun encorajar as pessoas, e ele se tornou um pilar da comunidade filipina na região ocidental de Tóquio. Se encontrasse um filipino enquanto fazia compras, logo se apresentava e passava o número do telefone de sua casa. O lar dos Ortiz tornou-se um local de reunião para filipinos expatriados. Na Soka Gakkai, ele encontrou um lugar onde foi aceito como indivíduo e em que a distinção entre japoneses e não-japoneses não tinha importância.

Em 1995, Jun começou a sentir tonturas e a desmaiar. Ele deu pouca atenção a esses sintomas, mas se viu sofrendo quedas no trabalho, chegando em casa com vários ferimentos. De vez em quando, caía das escadas em casa. Um exame médico detalhado diagnosticou doença neurológica degenerativa. De origem desconhecida e considerada sem tratamento, essa doença o levaria à perda progressiva de seu controle motor, envelhecimento prematuro e morte. Informados de que ele acabaria perdendo a capacidade de andar e que ficaria confinado numa cama, Jun e sua família usaram a prática budista para enfrentar seus medos e ansiedades.

Ele continuou a freqüentar as reuniões budistas, agarrando-se a corrimãos para vencer as escadas. Logo, porém, qualquer escada se tornou uma impossibilidade, e Jun não pôde mais trabalhar. Passou então a ficar em casa, onde sua capacidade de movimentar-se ficava progressivamente mais limitada. Mesmo os movimentos em seu lar tornaram-se um arrastar-se de um lugar para o outro.

Com pouco apetite, ele continuou a perder peso e começou a queixar-se de dor na parte inferior das costas. Como a contínua terapia de massagem não trazia mais alívio, ele foi levado a um centro médico, onde diagnosticaram uma outra doença, não relacionada à primeira: uma infecção tubercular que consumia sua espinha. A infecção foi tratada com sucesso e, na realidade, representou uma oportunidade para que Jun encontrasse um ambiente em uma instituição que lhe dedicava cuidado em tempo integral, que necessitava. Como homem prematuramente aposentado e com uma doença progressiva, Jun estava numa posição mal definida pelo sistema previdenciário. A única instituição privada que se dispôs a aceitá- lo tinha uma lista de espera de um ano.

:: Desafios de comunicação

Na época em que foi hospitalizado, Jun ainda conseguia se fazer compreender verbalmente. Com a perda progressiva de seu controle motor, entretanto, isso logo se tornou impossível. Sua família adquiriu uma tábua alfabética, que serviu de meio de comunicação até que o tremor em suas mãos se tornou tão violento, que era impossível identificar a letra para a qual apontava. A partir daí, a comunicação se tornou unilateral, a ponto de sua família fazer perguntas às quais ele piscava para indicar sua concordância.

Apesar da perda progressiva de sua capacidade física, o espírito de hospitalidade de Jun jamais esmoreceu. Ele sempre recepcionava os visitantes com um largo sorriso e usava seus olhos, grandes e marcadamente expressivos, para comunicar coisas que não podiam mais ser ditas por palavras. Ele utilizava seus olhos para indicar que seus visitantes deveriam receber chá ou outros refrescos, incluindo até sua bebida nutricional especial. Apesar da perda de capacidade verbal, havia uma clara sensação de comunicação, de emoções importantes sendo compartilhadas e trocadas.



Jun, Yoshiko e suas
filhas no hospital
Jun havia encorajado muitos membros da SGI, incluindo os que haviam lutado contra o câncer, e foi seu encorajamento que se refletiu de volta no momento em que ele próprio precisou. Como Yoshiko conta: “Quando ele ficou desanimado, eu lhe assegurei que ele ainda tinha uma missão a cumprir. Acho que o fato de ele não ter desistido, apesar de sua condição, foi um grande encorajamento para muitas pessoas. Jun manteve sua convicção até o fim e dessa forma realizou sua missão.” Enquanto pôde escrever, ele manteve um diário em inglês como uma mensagem para sua família.

Como encorajamento a suas filhas, Jun escreveu: “Se vocês querem entender como será seu amanhã, pensem a respeito do que estão fazendo hoje.”


:: Um tempo para a família

No verão de 2002, Jun expressou um forte desejo de passar algum tempo em casa com sua família. Após muita discussão com os médicos, foram feitos os acertos para que ele passasse o mês de agosto em casa. Yoshiko e suas três filhas organizaram seus respectivos horários entre escola e trabalho de forma a assegurar que uma delas sempre estivesse em casa com Jun. Apesar das dificuldades, isso provou ser uma valiosa oportunidade para que a família estivesse reunida no lar. Ele também usava seus olhos para encorajar os membros de sua família a recitar o mantra budista, cujo som lhe trazia um aparente conforto.

Após seu retorno ao hospital, os membros da família se revezavam para cuidar dele, jamais deixando de se reunir nos aniversários e em outras datas comemorativas.

Ao final, a paralisia começou a afetar sua capacidade de engolir alimentos. Seus médicos recomendaram a inserção de um tubo de alimentação diretamente em seu estômago, mas Jun recusou inflexivelmente. Ele havia indicado anteriormente que não queria que fossem tomadas medidas que garantissem apenas sua existência física. Esse foi um ponto que ele havia estabelecido para si mesmo, e com o qual Yoshiko havia concordado. O impacto negativo de não cumprir seu desejo expresso não compensaria qualquer possível benefício em prolongar sua vida.

A partir daí, sua saúde declinou rapidamente e, em 11 de maio de 2003, Jun Ortiz faleceu em paz, rodeado por sua mulher e filhas.

“Recentemente,” disse Yoshiko, “nossas filhas me disseram: ‘Somos muito felizes de ter pais como você e papai.’ Eu fiquei muito comovida e tenho certeza de que Jun também teria ficado. Foi isso que ele deixou para nossas filhas, a lembrança de sua bondade e um sentimento de orgulho por ser exemplo de alguém que se importava profundamente com os outros. Depois da morte de Jun, encontrei seu diário. Lá está escrito: ‘Muito obrigado por tomarem conta de mim. Espero que, daqui em diante, vocês desfrutem sua vida.’ ”

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