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Abril/Junho
2004

Ensaio
Revolução interior:
Desenvolvendo uma consciência global pela paz



Daisaku Ikeda
presidente da SGI
Nos primeiros anos do século XXI, a sociedade internacional foi perturbada por novas ameaças e por um acirrado debate sobre a melhor maneira de enfrentá-las, fundamentado principalmente em medidas políticas e militares.

Há, porém, uma outra perspectiva, geralmente negligenciada. As grandes questões globais, como guerra e paz, não podem estar separadas da nossa realidade diária. Pois é nela que cada um de nós pode iniciar uma ação, dando o primeiro e crucial passo para acabar com as reações em cadeia da violência que destroem nosso mundo.

Gostaria de enfatizar especificamente a importância de um espírito de autodomínio enraizado em uma consciência empática sobre os outros. Considero essa a essência de uma civilização genuína. Seja no nível micro ou no nível macro, perder de vista o outro é se tornar profundamente dessensibilizado diante do sentimento humano.

Em seu nível mais elementar, o “eu” requer existência do outro. Uma sociedade superficial ou sem identidade, em que se evitam encontros desagradáveis com outros, pode parecer livre, mas não é. Nossa ênfase moderna na eficiência e conveniência pode acabar nos privando de um aspecto vital da experiência humana — o conflito interno e o crescimento que esses encontros podem gerar. Reconhecendo a existência do outro e do que é externo a nós, somos inspirados a desenvolver o autodomínio que leva a humanidade à realização. Ignorar o outro é, portanto, minar totalmente nosso ser.

Eliminar a palavra “miséria” do vocabulário humano era o grande desejo de meu mestre, Jossei Toda. Em setembro de 1957, sete meses antes de sua morte, ele fez uma declaração pela abolição das armas nucleares.

:: Abolição Nuclear

Nessa declaração, Toda condena as armas nucleares como uma ameaça ao direito coletivo de a humanidade existir, declarando sua determinação de “expor e arrancar as garras” que residem nas profundezas dessas armas. Essa impressionante frase expressa a necessidade de transformar nosso interior. Toda enfatizava a importância de combater e eliminar a maldade fundamental em nós, o que o budismo define como o desejo de submeter os outros à nossa própria vontade. Nesse sentido, não é algo fora de nós que deve ser arrancado.

Forjar uma consciência profunda do sofrimento de outras pessoas é a principal preocupação do budismo. Diz-se que a decisão de Sakyamuni de procurar a verdade foi motivada pelo seu confronto com os “quatro sofrimentos” de nascimento, velhice, doença e morte. Isso significava não apenas o impacto direto desses sofrimentos na vida das pessoas, mas — e talvez em um nível ainda mais fundamental — a indiferença, a arrogância e a consciência discriminatória profundamente arraigadas que nos impedem de sentir a dor dos outros como se fosse nossa. Assim, o ponto de partida do budismo é a insistência de que a verdadeira felicidade pode ser alcançada somente quando resistimos ao impulso de desviar nossos olhos do sofrimento dos outros.

Se ao menos pudéssemos aprender a sentir o ferimento e a dor dos outros como se fossem nossos... Até mesmo creio que essa conscientização e sensibilidade representam simplesmente a melhor forma de impedir a guerra.

A morte é o sofrimento que a civilização moderna mais parece determinada a esquecer, tratando-a como o “sofrimento de alguém”. De fato, o ato de afastar a coletividade humana do confronto pessoal com a morte tem enfraquecido todas as restrições contra a violência, resultando no massacre de duas guerras mundiais e de incontáveis conflitos regionais. Esse é o significado real da declaração de Toda pela abolição das armas nucleares, que são a manifestação demoníaca de uma civilização que trata a morte como problema de outros.

Assim como não pode existir miséria estritamente limitada a outros, a felicidade não é algo que podemos acumular ou manter para nós mesmos. Somos colocados diante de um desafio e da oportunidade de superar o nosso limitado egoísmo, de nos reconhecermos nos outros, assim como perceber os outros em nós, para realizar a difícil, porém recompensadora, tarefa de empenhar-se por uma felicidade que pode ser partilhada por todos.

A paz não é algum conceito abstrato longe de nossa vida diária. É uma questão de como cada um de nós planta e cultiva as sementes da paz nas profundezas do próprio ser e por toda a vida. Tenho certeza de que nisso se encontra o caminho mais seguro para a paz duradoura.

Os temas desse ensaio são explorados com mais detalhes na
Proposta de Paz de 2004 do Sr. Ikeda. Veja em www.sgi.org.


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