Apalavra islã é de origem árabe e significa “submissão” à vontade de Deus. Também significa “paz”, já que sua raiz silm tem o significado de “estar em paz”. “Submissão” à vontade do Deus Todo-Poderoso também significa a aceitação de Um e Único Deus (Alá) como a Fonte de todos os benefícios que os humanos desfrutam como criaturas de Deus. Paz significa paz interior (paz consigo próprio) e paz com o Criador, bem como paz com todas as criações. É por meio da submissão total à vontade de Deus que se alcança essa forma de paz. Um muçulmano é uma pessoa que acredita em Alá como Um e Único Deus e em Maomé como seu último Profeta e Mensageiro.
:: O relacionamento entre Deus e a humanindade
O ser humano, assim como todas as criações de Deus, está em uma condição de total submissão (Islã) à vontade de Alá. A diferença entre os humanos e as outras criações, entretanto, é que aos humanos foi dada a habilidade de pensar. Quando a mente humana se submete a Alá, ela se submete completamente a Deus. Sob essa perspectiva, a pessoa é considerada “muçulmana”. Nesse nível de total e completa submissão, o relacionamento entre Deus e a humanidade é de completa paz. Assim, ser muçulmano é ter completa obediência a Alá e aceitação de Sua vontade e ordens.
O relacionamento entre Deus e os humanos no Islã é direto, sem mediadores. O Islã também ensina que a verdadeira crença e as ações concretas são os elementos-chave para se obter o favor e a aceitação de Deus.
Uma crença islâmica fundamental é a de que fomos criados para servir (adorar) a Deus. Deus nos confiou a grande responsabilidade de sermos Seus delegados e representantes nesta Terra. Como Ele nos deu vida, nossa aparência física, nossa riqueza e nossa família, Ele também nos deu nossa comunidade, nosso ambiente e nossa Terra.
Uma escola que ensina o Alcorão, em uma comunidade muçulmana sufi, na Etiópia
Os muçulmanos acreditam que a vida na Terra é somente um período de transição que precede a residência permanente no futuro. Conquistar os favores de Deus nesta e na próxima vida é o objetivo de todo muçulmano. Por isso, o Islã ensina que o indivíduo necessita buscar o desenvolvimento moral e espiritual a fim de depositar toda a sua confiança em Deus e conduzir os deveres prescritos no Sagrado Alcorão e em outros ensinos do Profeta. Quando uma pessoa cumpre esses deveres, então Deus a recompensa com benevolência e clemência. Aqueles que desobedecem às leis de Deus são punidos e levados ao inferno. O Profeta Maomé aconselha os muçulmanos a trabalhar para esta vida como se fossem viver para sempre e a trabalhar pela vida futura como se fossem morrer amanhã.
:: O Islã é um modo de vida
O Islã oferece uma mensagem tanto aos indivíduos quanto às comunidades. Ele surgiu como um farol para toda a humanidade. Como conseqüência, seus ensinos cobrem aspectos que influenciam a vida privada e pública da existência humana. O Profeta do Islã foi, além de um líder religioso, o fundador da ordem política e social de sua comunidade. Por isso, o Islã não separa a religião das questões humanas. Política, economia, leis e todos os outros aspectos das questões humanas estão integrados em um único sistema a serviço de Deus. Esse é o significado geral de “adoração” no Islã. Ele ensina as pessoas a orar e as ordena a criar uma sociedade justa. Para esse fim, o Islã fornece, tanto aos indivíduos quanto aos Estados, diretrizes abrangentes e leis que regulam a ética, a piedade e a governança. Esses e outros fundamentos similares estão bem definidos e fornecem senso de união na comunidade — o Ummah.
Mas o Islã acredita que o indivíduo precisa de uma boa família para receber os valores necessários e para criar essa comunidade ideal. De fato, no Islã, o comprometimento religioso humano se torna efetivo por meio da criação e da manutenção de fortes laços familiares e relacionamentos sociais. Ele encoraja as relações íntimas na sociedade, baseadas na justiça, na sensibilidade, na sinceridade e no sacrifício. Por meio desses relacionamentos, o Islã atinge seu objetivo de comunidade ideal.
:: Bioética
A partir dessa concepção, o Islã se preocupa com a ética em todos os aspectos que afetam o bem-estar social dos indivíduos e da comunidade. A ética social é um importante componente da lei religiosa islâmica, a Sharia. O Alcorão e a vida exemplar do Profeta fornecem as duas principais fontes do que derivam as diretrizes éticas e legais — os parâmetros da vida muçulmana. Parte dessa ética social regula a saúde, baseada na justiça distributiva e no pleno bem-estar daqueles que necessitam de cuidados médicos.
Um importante compromisso que o muçulmano
deve considerar seriamente é com a vida.
A bioética trata das implicações éticas tanto das pesquisas biológicas como de suas aplicações, especialmente na medicina. Embora as questões éticas sejam encontradas na medicina e na biologia desde tempos antigos, a introdução atual em larga escala de novas tecnologias trouxe à tona antigas questões e apresenta novas indagações, como a interrupção do tratamento médico de sustentação da vida, o diagnóstico pré-natal, o armazenamento de embriões humanos congelados e o uso de órgãos humanos e de animais na pesquisa científica. Desnecessário dizer que essas são questões complexas que necessitam da análise profunda de pesquisadores especializados.
No Islã, por exemplo, é permitido o tratamento para a infertilidade, visto como essencial por envolver a preservação da procriação. Na sociedade muçulmana, para um homem e uma mulher terem uma criança, precisam estar legalmente casados. Hoje, com o avanço da reprodução tecnicamente assistida, pesquisadores éticos e legais de origem muçulmana permitem a um casal normalmente infértil buscar tratamento para procriarem por meio de fertilização in vitro ou inseminação artificial. A única condição é de que a fertilização do esperma e do óvulo seja rigorosamente dentro do legítimo relacionamento matrimonial. Introduzir esperma de outra pessoa, que não o do marido, é proibido.
É importante enfatizar o papel que a intenção (niyyat) desempenha no pensamento religioso muçulmano. A ação humana é julgada de acordo com a intenção. Ela determina o propósito de um empreendimento e a recompensa ou punição que resultam para a pessoa. O Profeta afirmou claramente: “A recompensa das ações depende das intenções, e cada pessoa obterá a recompensa de acordo com o que pretender.”
Em vista disso, é possível considerar a questão das pesquisas de células-tronco no Islã. A produção de células-tronco embriônicas para fins de pesquisa, por exemplo, especialmente a produção em escala comercial, com o propósito de explorar outros para seu próprio benefício comercial, é algo que o Islã proíbe claramente. Contudo, embriões excedentes em clínicas de fertilização in vitro podem se tornar uma fonte de abastecimento de células-tronco para fins terapêuticos bem definidos e limitados à cura de doenças graves, contanto que as pesquisas sejam reguladas e controladas sob a lei. Da mesma forma, a clonagem humana simplesmente para o fortalecimento da espécie humana em sua aparência física, para o crescimento populacional ou para tornar o Estado mais poderoso é proibida. Entretanto, terapia genética e exames genéticos são permitidos se o propósito limitar- se a indicações terapêuticas que possam amenizar o sofrimento humano.
:: Velhice
Na sociedade muçulmana, a velhice é sempre respeitada e, tradicionalmente, os membros da família, como os filhos mais velhos, cuidam dos pais idosos. De fato, toda a comunidade considera como seu dever coletivo cuidar dos velhos e incapacitados. Na moderna sociedade muçulmana, encontra-se meios institucionais para cuidar dos mais idosos cujas famílias não são capazes de fornecer os cuidados necessários, visto a crescente demanda do estilo de vida moderno em que marido e esposa precisam trabalhar.
O Profeta Maomé aconselha os muçulmanos a trabalhar para esta vida como se fossem viver para sempre e a trabalhar
pela vida futura como se fossem morrer amanhã.
Os muçulmanos se consideram em missão nesta Terra e estão comprometidos com sua missão pela crença no Criador Benevolente e Piedoso. Têm responsabilidades a cumprir e expectativas a corresponder em todas as etapas de sua existência. Um importante compromisso que o muçulmano deve considerar seriamente é com a vida. Cabe a ele cuidar da vida de todas as formas possíveis: fisicamente, mantendo a si e os outros fora de perigo, e cuidando da saúde. E, espiritualmente, mantendo sua fé e adorando a Deus com sinceridade, a fim de purificar a alma e assegurar a tranqüilidade espiritual e a realização.
:: A santidade da vida
O Islã considera a vida humana sagrada e defende sua preservação. De acordo com seus ensinos, a agressão à vida humana é o segundo pior pecado para Alá, atrás apenas do pecado de negar o próprio Alá. O Alcorão declara: “Se alguém mata uma pessoa por qualquer razão, exceto se essa pessoa já tenha matado ou semeado a corrupção na terra, será como se tivesse matado toda a humanidade.” (5:32)
O que se aplica ao crime de assassinato, aplica-se também ao suicídio. Qualquer um que tire sua própria vida, independentemente da maneira que o fez, tirou injustamente uma vida que Alá tornara sagrada. Como essa pessoa não pode se criar, nem mesmo uma única célula de seu corpo, a vida de um indivíduo não lhe pertence; ela lhe é confiada por Deus. Não é permitido encurtá-la, feri-la ou destruí-la.
Não determinamos ou controlamos nossa permanência aqui na Terra. Um muçulmano acredita que ele não tem o direito nem o poder de determinar quando ele ou qualquer outra pessoa morrerá. Nossa vida pertence ao Criador e não a podemos encurtar ou prolongar. Embora pareça que uma pessoa que comete suicídio está terminando com sua própria vida ou que uma equipe de resgate ou os tratamentos médicos prolongaram uma outra vida, é uma crença islâmica básica que a vida somente acaba quando Deus decide pelo seu fim.
:: Podemos parar o sofrimento?
Atualmente, está ocorrendo uma discussão controversa relacionada ao direito de os indivíduos terminarem com a própria vida sob certas circunstâncias. É importante ter em mente que o sofrimento não é visto como um mau em todas as situações. Algumas vezes, o sofrimento funciona como uma fonte para a auto-purificação e uma lição para os outros. Entretanto, há uma questão crítica em particular referente à capacidade de os procedimentos médicos agressivos prolongarem a vida de indivíduos em estado terminal. Isso coloca uma enorme pressão sobre a família e sobre aqueles que prestam cuidados médicos que são caros e algumas vezes fúteis. No Islã, essa controvérsia é considerada à luz de três critérios básicos.
Devemos fazer o máximo para manter a confiança de Deus em nós, uma vez que Ele nos deu a vida. Fazer o máximo para manter a vida implica fazer o máximo possível dentro dos limites do conhecimento e dos recursos financeiros. Temos de assegurar que, quaisquer que sejam nossas ações, não causemos dor ou sofrimento insuportáveis à pessoa em consideração. Em outras palavras, se for possível um determinado tratamento médico, ele deve ser administrado ao paciente e de forma que não fique exposto a uma dor ou sofrimento incomum. Por outro lado, usar drogas ou aparelhos que visem terminar a vida de uma pessoa não é permitido no Islã, não importando o quão grande seja a doença ou o sofrimento.
Não devem ser usados fatores emocionais ao se tomar a decisão pelo tratamento, já que a crença na Vontade e na Piedade de Deus fornece ao paciente, à sua família e aos seus amigos o apoio necessário. Os muçulmanos consideram essas dificuldades como um teste de Deus. Paciência, persistência e esperança na Piedade de Alá não são apenas indicados para o paciente, sua família e amigos, mas também são a melhor recompensa de Deus.
As decisões quanto ao tratamento são geralmente discutidas entre o médico e os familiares imediatos. Confia-se que o médico tenha o conhecimento necessário. Enquanto os esforços feitos forem sinceros e as intenções estiverem dentro das regras islâmicas e dos mandamentos de Deus, ninguém é responsável pelos resultados.
Em suma, ao saber que todas as pessoas morrerão quando Deus assim o desejar, somos solicitados apenas a fazer o melhor, dentro dos regulamentos islâmicos, em qualquer decisão de tratamento que tomarmos.
Em vista da velocidade dos atuais desenvolvimentos médicos e científicos, não é possível estabelecer regras definitivas para todas as questões éticas. Em vez disso, podemos traçar uma abordagem básica e princípios orientadores que possam ser usados para direcionar essas questões.
É importante manter um diálogo aberto e franco entre pesquisadores cientistas e religiosos e estabelecer estruturas para as discussões sobre essas importantes questões. Recentemente, o Comstech tomou a iniciativa de estabelecer um comitê internacional sobre bioética para lidar com questões complexas a partir de uma perspectiva islâmica. Dessa forma, debates e diálogos contínuos entre acadêmicos, pesquisadores e especialistas em religião tornam-se cada vez mais necessários.
O Dr. Anwar Nasim é consultor científico do secretariado
do Comstech, em Islamabad, no Paquistão. Ele foi recentemente nomeado representante do Paquistão no comitê de bioética da Unesco
e
também é presidente da Comissão Nacional de Biotecnologia.
O Comstech é um
Comitê Ministerial sobre Cooperação Científica e Tecnológica, estabelecido pela
Terceira Conferência Islâmica, em 1981.
máscara mortuária
Essa matéria não pretende de forma alguma ser abrangente. As visões expressas aqui são de indivíduos de várias tradições religiosas comentando a partir de suas experiências pessoais e não necessariamente falando em nome de sua tradição. As visões das pessoas de outras crenças, incluindo os indígenas, e as perspectivas humanistas seculares não foram incluídas. Espera-se, entretanto, que esses artigos estimulem o pensamento e aumentem a compreensão sobre como outros abordam questões complexas a respeito da bioética, as quais colocam dilemas comuns para todos nós e exigem que cada um trace suas próprias fontes de sabedoria e benevolência.
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