Ateologia cristã retirou seus fundamentos das antigas histórias de Israel e da Igreja, algumas delas são vagamente baseadas em eventos históricos, e outras são pura lenda. Assim, a ética cristã, sendo uma ética teológica, também encontra suas origens nessas narrativas, e não nas formulações do que é certo ou errado. Ou seja, ela não se fia nas formulações legais do senso comum, mas na interpretação da narrativa. Mesmo os Dez Mandamentos, embora certamente se assemelhem a um código jurídico, estão incorporados na história entre Israel e Deus.
O mesmo ocorre com o Novo Testamento: Jesus não elaborou um código jurídico para ser transformado num código de ética; em vez disso, ele contou histórias. Estas e a história de sua vida são os temas da investigação teológica.
Por exemplo, as histórias da criação no início do Velho Testamento estabelecem os relacionamentos entre a humanidade, o mundo e Deus. Tanto os seres humanos quanto o mundo são criações de Deus; eles devem sua existência a Ele. Embora os seres humanos sejam criaturas como as outras, foram criados à imagem de Deus e lhes foi dado o domínio sobre as outras criaturas. Essa ordenação orienta a teologia e, por sua vez, a ética teológica. Deus não é o mundo, o mundo não é Deus. Os seres humanos estão no mundo mas possuem uma relação especial com ele e responsabilidade por ele, e os seres humanos não são Deus. Qualquer confusão nessa ordem acabará na miséria dos seres humanos, na destruição da criação e na dor de Deus. Podemos dizer que esses textos são a revelação, mas isso não significa que possuam autoridade primariamente porque vieram de Deus, pois a teologia cristã não opera necessariamente com uma compreensão teísta de Deus na qual Ele declara sua lei, e os humanos obedecem.
De particular importância para uma
bioética cristã é a preservação da ordenação dos seres humanos como
sendo criados à imagem de Deus.
Qualquer atividade humana que manche essa imagem é proscrita.
Ao contrário, as antigas histórias preservadas por Israel e pela Igreja são o produto de um longo e profundo pensamento sobre a natureza do mundo e a humanidade no contexto de uma tradição religiosa. Quando alguém as ouve, elas são vistas como histórias verdadeiras e, assim, elas são a palavra de Deus. As antigas histórias assombram-nos e confrontam-nos, revelando o verdadeiro estado das coisas. Essa é a razão de as chamarmos revelação, da mesma forma que um bom poema pode revelar algo que não vemos.
A ciência e a tecnologia fluem da vontade de Deus de que os seres humanos devem dominar a Terra e ter responsabilidade por ela. Somos responsáveis pelo nosso próprio bem-estar e pelo da Terra e não podemos nos deixar levar pelo fatalismo. Fomos criados para trabalhar e ganhar nosso pão. Os escritores do Velho Testamento reconhecem isso, mas são cautelosos quanto à arrogância humana que enche os homens de orgulho para que se esforcem pelas coisas de Deus, numa tentativa de tornarem- se deuses. Assim, embora a tecnologia e a civilização sejam atividades legítimas dos seres humanos, há ainda uma advertência.
De particular importância para uma bioética cristã é a preservação da ordenação dos seres humanos como sendo criados à imagem de Deus. Qualquer atividade humana que manche essa imagem é proscrita. Isso obviamente inclui qualquer espécie de violência que diminua a imagem de Deus em qualquer indivíduo. De fato, isso fornece uma boa visão de violência, a de que a imagem de Deus seja apagada. A Igreja Cristã acredita que Jesus foi a imagem de Deus entre nós. É nas características de sua vida que vemos a imagem mais claramente. Ele amou incondicionalmente o perverso e o proscrito, recebeu sua vida e a ofereceu, sabendo que era um presente de seu Pai.
Vamos exemplificar de que forma a ordenação da criação produz julgamentos éticos no campo da bioética.
:: A possibilidade da última geração mortal
Com as recentes pesquisas no processo de envelhecimento, a substituição de órgãos por similares mecânicos e a cura de todas as formas de doença, alguns cientistas começaram a falar sobre a eliminação da morte humana. Esta é uma clara anulação da ordem da criação: os seres humanos, sendo criaturas, estão sujeitos à morte. Qualquer tentativa de eliminar a morte remove um aspecto crucial da criação, no sentido de que uma pessoa imortal não pode ser considerada verdadeiramente humana. Não temos idéia de como seria uma vida assim. Será que nossos espíritos conviveriam com o pensamento do interminável, de uma aquisição sem fim de lembranças e de um futuro que se estendesse por um tempo inimaginável? Será que nós, depois de centenas de anos, não ansiaríamos por um fim? Problemas espirituais à parte, como a sociedade lidaria com uma população imortal? E onde encontraríamos lugar para os recém-nascidos?
Já vimos a confusão causada às pessoas cuja vida foi “salva” pela ciência médica e que continuaram a viver muito tempo após o interesse pela vida haver expirado.
O princípio da profissão médica, às vezes aparente, em que a morte é um inimigo que precisa ser extinto, mesmo naqueles em idade avançada, também quebra a ordem da criação. A morte na velhice é algo esperado. Lembrome de uma senhora idosa que se recuperava de uma cirurgia no quadril, mas forçada pelos fisioterapeutas a caminhar, dizendome: “Eu não deveria estar aqui.” Quando reconhecemos a ordem da criação, reconhecemos que a morte é um chamado final, não um demônio para ser derrotado. Somente quando a morte é incorporada no esquema de nossa vida é que seu poder sobre nós será limitado.
:: A possibilidade do controle genético definitivo
Aqueles que vivem toda a vida com a consciência de que foram criados à imagem de Deus sabem que a vida é um dom. A vida não é para ser administrada, como se surgisse uma nova espécie de administração; a vida é uma jornada para um futuro incerto. Somos equipados para seguir nessa jornada com todos os tipos de características genéticas que transmitem talentos e fraquezas. Nossa vocação é usar esses talentos e fraquezas para a glória de Deus, independentemente de sermos um cientista, um administrador civil, um trabalhador, um artista ou uma mãe. Todos esses são aspectos da imagem de Deus e, assim, todos são nobres. O que aconteceria à diversidade de talentos que constituem a sociedade e contribuem com ela se os pais pudessem selecionar os genes que seus filhos herdariam? Ao fazê-lo, anulariam o papel do criador, com conseqüências sociais desastrosas. Os homens se esforçariam pelas coisas de Deus não necessariamente por meio da tecnologia, mas em suas decisões sobre o que é certo e o que é errado. Eles decidiriam que características pessoais seriam valiosas e as que não seriam. Novamente, encontramos uma ameaça à ordem da criação.
:: O humano como fonte
Desde que todos os seres humanos foram criados por Deus para abrigar Sua imagem, nenhum deles pode se tornar uma fonte para outros. É propósito da vida humana refletir a imagem do criador e render-lhe glória. Quando seres humanos são usados para propósitos de outros, o propósito original desaparece. Esse é o argumento primário cristão contra a escravidão, o trabalho infantil e a exploração econômica e sexual.
É também o argumento contra a criação de seres humanos para servirem como fontes de órgãos compatíveis. É aqui que nos encontramos em dificuldade, pois isso levanta a questão de o que constitui um ser humano nesse contexto.
Podemos realmente dizer que um embrião congelado, que tem o potencial de se tornar um ser humano, é um ser humano? A solução para esse debate não está na biologia, pois os vários estágios do embrião, considerados por alguns como a transição para a humanidade, são todos eles conceitos arbitrários. Se as pesquisas com células-tronco guardam uma promessa de cura para muitos, seria moral interromper as pesquisas porque um conjunto de células num tubo são consideradas um ser humano? Elas mostram a imagem do criador? Esses argumentos são férteis e não parece que serão resolvidos facilmente.
A prática de transplante de órgãos de uma pessoa morta, ou de uma pessoa viva que tenha consentido, não recai sob a acusação de que a ordem da criação foi quebrada, muito embora essas práticas de forma alguma sejam “naturais”. Elas não apagam a imagem de Deus na pessoa, mas a embelezam, já que esses são atos de amor e de ajuda ao outro.
:: Aborto
Não há questão mais polêmica do que essa, pois atinge as profundezas do que significa refletir a imagem de Deus em nossa ética sexual, em termos do prejuízo que isso causa tanto aos pais quanto à ordem social e, naturalmente, ao feto. A ética do aborto não pode ser decidida com base nos argumentos de quando o feto torna- se humano, pois, como foi dito, todos eles parecem ser arbitrários, exceto talvez pelo evento da implantação. Muitos abortos são realizados porque a mãe não tem uma vida estável ou um parceiro para ajudar a educar a criança. Esse é um problema da comunidade e diz respeito a como a comunidade cuida de seus filhos. Uma parte do atributo de ter a imagem de Deus é uma necessidade da comunidade; nós não somos criados para ficarmos sozinhos, mas para vivermos em uma relação de amor para com o nosso vizinho. É responsabilidade da comunidade treinar os jovens a esperar por fidelidade sexual e pela criação de uma vida familiar estável, e ajudá-los nisso.
Tudo isso são exemplos de como a ética cristã pode proceder. Entretanto, é apenas visão parcial, pois o comportamento surge de raízes mais profundas do que meramente as intelectuais. Esse é o porquê de a adoração ser um ingrediente essencial para a vida cristã, pois é nesse ato que nosso “coração de pedra transforma-se em coração de carne”. A ética cristã requer treinamento na história cristã desde o seu início, e isso ocorre na comunidade nas manhãs de domingo. É necessário ouvir as histórias, orar e participar da Eucaristia, para que o crente seja transformado em uma pessoa que age de acordo com a imagem de Deus sem ter de pensar nisso.
O reverendo Dr. Peter Sellick é pesquisador sênior no Departamento
de Fisiologia da Universidade do Oeste da Austrália. Antes disso, ele
foi capelão ecumênico no Hospital Sir Charles Gardiner. Exerceu várias funções nas Igrejas Anglicanas e Unida, além de ter trabalhado em
várias universidades do oeste da Austrália.
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