Edições Anteriores  
Abril/Junho
2004

Destaque
Viver e morrer com dignidade: uma visão budista
Yoichi Kawada


Yoichi Kawada
Ao auxiliar as pessoas a tomar decisões éticas difíceis, o budismo não oferece um conjunto de regras fixas.No caso das decisões relacionadas à medicina, regras desse tipo poderiam se mostrar ultrapassadas ou perder seu sentido diante dos avanços tecnológicos. Em vez disso, o budismo procura fazer com que as pessoas desenvolvam uma compreensão mais profunda e clara da natureza de sua vida e a dos outros, como base para essas decisões. Em particular, o budismo procura ajudar as pessoas a desenvolver a sabedoria e a benevolência que lhes possibilitem experimentar satisfação e felicidade duradouras.

Nesse sentido, os “preceitos” budistas são mais bem compreendidos como uma ética internalizada de benevolência que nos leva a ser participantes ativos e colaboradores na evolução criativa do Universo.

:: A visão budista de vida

Como filosofia, o ponto de partida do budismo na Índia antiga foi o esforço de Sakyamuni (literalmente, “o sábio do clã Sakya”) para solucionar a questão do sofrimento humano, representado pelos “quatro sofrimentos” — nascimento, velhice, doença e morte. (A inclusão do nascimento como um dos sofrimentos pode parecer inusitada, mas a tradição budista, confirmada pela experiência, sustenta que a passagem do aconchegante e seguro ventre da mãe para o frio mundo externo é um sofrimento imensamente doloroso. O nascimento também simboliza o sofrimento inerente ao processo de viver).

Para solucionar a questão do sofrimento humano, Sakyamuni engajou-se em várias práticas meditativas, aprofundandose nos domínios interiores de sua vida, onde descobriu uma consciência que transcende o puramente individual, uma esfera da consciência partilhada por todas as pessoas. Além disso, Sakyamuni experimentou a união com todas as formas de vida. Posteriormente, a expansão de sua consciência interior possibilitou-lhe experimentar a unicidade com a própria Terra, com os planetas e as estrelas, os quais, assim como o ser humano, passam por ciclos de vida e morte — formando-se, agregando- se, dissolvendo-se e extinguindose. Finalmente, ele pôde experimentar uma dimensão maior, que se pode chamar de vida universal ou cósmica — a essência
fundamental da sabedoria que sustenta e está subjacente a todas as existências. A vida, qualquer que seja, repete ciclos de nascimento e morte amparada pela ação benevolente da força vital cósmica.

As imensas nuvens de gás e poeira no espaço intergaláctico são formadas quando as estrelas morrem. Mas elas também são o material do qual novas estrelas nascem.

O despertar para essa realidade fez com que Sakyamuni recebesse o título de “Buda”, ou iluminado. Numa linguagem mais filosófica, ele descobriu uma verdade interior, imanente e, ao mesmo tempo, transcendental e universal. O cosmo interior que descobriu pôde, em outras palavras, ser também observado no mundo ao seu redor; percebendo a vida universal de sabedoria e benevolência em seu íntimo, Sakyamuni também a reconheceu em todas as pessoas. Compreendeu que todos os seres eram tão capazes quanto ele de despertar e reconhecer a verdadeira natureza da vida. A partir desse momento, suas ações e ensinos foram dedicados ao trabalho do despertar de todas as pessoas para essa natureza eterna e imaculada. Esses ensinos formaram a essência e a base do desenvolvimento posterior do budismo como um sistema filosófico e como um movimento para o aprimoramento do ser.

O objetivo do budismo é a felicidade. Pelo fato de o budismo ver todas as formas de vida como inter-relacionadas, nossos esforços para alcançar a felicidade devem incluir a ação benevolente para com os outros. O budismo nega a validade de qualquer forma de felicidade alcançada com o sofrimento ou sacrifício de outros, incluindo aí a destruição desenfreada da natureza. Nas primeiras escrituras budistas do Dhammapada, encontramos esta passagem: “Todos os seres vivos tremem diante da violência. Todos os seres vivos temem a morte. Colocando-se na posição desses outros seres vivos, não se deve matar, nem permitir que outros matem.” Proteger a vida da violência e da degradação é o objetivo essencial do budismo.

:: O continuum da vida

A dignidade humana é a preocupação principal de qualquer discussão bioética. Deve-se respeitar todos os estágios da vida. Sentir concretamente e experimentar a própria dignidade, tê-la reconhecida e respeitada, são aspectos cruciais da felicidade. No budismo, a base da dignidade humana é a nossa identidade com a vida cósmica e universal e nossa capacidade de despertar para a sabedoria e benevolência inerentes a qualquer ser. É natureza fundamental da vida evoluir para a auto- realização e para a autoperfeição. Essa é uma verdade mesmo nas pessoas com capacidades extremamente reduzidas. Nesse sentido, a dignidade humana é, em essência, independente de parâmetros como a habilidade de tomar decisões racionais ou de contribuir ativamente para a sociedade.

No budismo, a vida individual é vista como surgindo da vida cósmica e universal
(o processo do nascimento)
e retornando a ela no processo da morte.

A unicidade do ser individual com o cosmo significa que as dimensões física — mental e concreta — espiritual estão também em unicidade. (“Dois mas não dois” é o termo usado no budismo para descrever o que é distinto e separado no nível fenomenal, mas uno numa dimensão mais profunda.) Da mesma forma, nossa vida estende-se e abrange o ambiente com o qual também somos “dois mas não dois”. Para os que prestam assistência, isso significa que é preciso atentar, de forma cuidadosa e equilibrada, tanto aos aspectos físicos quanto aos espirituais do ser humano — um não pode ser priorizado em relação ao outro. Também significa que os que exercem a medicina, quando cuidam de alguém, também estão trabalhando e “cuidando” de sua família, dos amigos e da comunidade que são partes integrantes da vida desse indivíduo. A visão budista quanto à experiência do nascimento e morte corre em paralelo às preocupações centrais da bioética. No budismo, a vida individual é vista como surgindo da vida cósmica e universal (o processo do nascimento) e retornando a ela no processo da morte. Governados pela lei de causa e efeito, repetimos ciclos intermináveis de vida e morte, cada um deles é uma oportunidade única de criar valor (felicidade) para nós e para outros.

Quanto ao processo do nascimento, o budismo vê os pais e seus filhos como manifestações da vida cósmica que partilham uma profunda conexão desde o passado, bem como um propósito, ou missão, a ser concretizado no presente e no futuro. Em termos mais simples, a criança não pertence aos pais, não existe como uma extensão deles, nem é um presente ou uma posse de um agente externo absoluto. Na visão budista, o esperma e o óvulo dos pais fornecem o ambiente ou a oportunidade para que uma terceira vida autônoma se torne manifesta, cresça e desenvolva seu potencial único no contexto dos profundos laços que partilham. Esses laços não são um fato biológico e frio que combina identidade genética com posse. Eles são desenvolvidos e aprofundados por meio de um processo que envolve cuidar e educar, e é diante desse cenário que terapias reprodutivas específicas devem ser consideradas, e feitas as difíceis escolhas pessoais.


:: Dignidade da morte


Bodh Gaya, Índia,
onde Sakyamuni experimentou sua iluminação
Na outra ponta do continuum da vida, o budismo vê o processo da morte como uma valiosa oportunidade para manifestar plenamente a dignidade humana. O budismo não vê a morte como uma experiência intrinsecamente negativa; assim, geralmente não defende o uso de intervenções “heróicas” que apenas prolonguem a existência física de um paciente. Sob o mesmo ponto de vista, também não defende qualquer intervenção que deliberadamente encurte a vida de uma pessoa.

Como sugere a experiência de Sakyamuni na meditação, o budismo vê a consciência como algo não limitado a aspectos superficiais, como sensação, percepção e pensamento racional. Em vez disso, ele afirma a existência de camadas mais profundas da consciência, partilhadas pelos indivíduos, que ao mesmo tempo os conectam (ou seja, um relacionamento “transpessoal”, para emprestar um termo moderno) e que definitivamente unificam todos os seres.

Proteger a vida da violência e da degradação é o objetivo essencial do budismo.

Assim como os processos de concepção, gestação, nascimento e posterior crescimento podem ser entendidos como um continuum de surgimento e desenvolvimento das fontes comuns da vida universal, o processo da morte pode ser visto como uma forma pela qual a consciência individual retrocede a níveis mais profundos, até se fundir completamente à consciência cósmica. Esse processo não é marcado por estágios abruptamente delineados; antes, é um continuum no qual a “morte” pode ser mais bem compreendida como o ponto a partir do qual esse processo se torna irreversível. A atual tecnologia médica é incapaz de reviver pessoas que já atingiram o estágio de “morte cerebral”, e a compreensão do budismo pode aceitar isso como o atual significado de morte.

Essa visão requer que as pessoas no processo de morte sejam tratadas, sempre, com respeito. Mesmo muito tempo após a perda da habilidade de se expressarem, parece que ainda continuam a ouvir e a sentir o que lhes ocorre ao redor. E, mesmo após a perda da capacidade de organizar sensações em pensamentos racionais ou impressões, os níveis mais profundos de consciência continuam a funcionar, percebendo diretamente o amor e a preocupação dos familiares e amigos. Alguns textos budistas fornecem recomendações específicas quanto ao comportamento que se deve ter com as pessoas prestes a morrer — por exemplo, evitar falar alto ou sobre questões que elas achem perturbadoras. Já que a morte é vista como um processo, esses textos afirmam que tais recomendações devem ser observadas por algum tempo, mesmo após a “morte”.

Nesse sentido, o estado interior dos indivíduos é a chave para a idéia budista de morte com dignidade. Como as condições físicas declinam e a consciência retrocede até o ponto da irreversibilidade, que tipo de determinação e drama são vivenciados no íntimo do indivíduo? Como essa pessoa lida com seus arrependimentos e satisfações? Como faz seu balanço final sobre tudo o que foi doloroso e amargo, bom e recompensador em sua vida? No ideal que o budismo oferece para o estágio final da vida, a sabedoria e a benevolência são pontos centrais. Uma morte ideal é aquela em que, auxiliados por outros e comprometidos com eles de forma benevolente até o último momento, podemos perceber a realidade fundamental de nossa dignidade e apreciar o dom da vida com profunda gratidão.

E assim, realizamos uma nova e esperançosa partida rumo ao futuro.


O Dr. Yoichi Kawada é PhD em imunologia e autor de vários livros sobre o budismo e a medicina. Desde 1988, é diretor do Instituto de Filosofia Oriental, em Tóquio, fundado por Daisaku Ikeda em 1962, para tornar a herança filosófica da Ásia mais acessível ao mundo


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.