Sinto-me privilegiada por fazer parte de duas iniciativas comunitárias que começaram em Ottawa, capital do Canadá, e que se tornaram importantes catalisadores para criar uma mudança sistêmica maior, em nível local e nacional.
No dia 3 de julho de 1986, eu era uma das 21 pessoas homossexuais reunidas em uma casa no centro da cidade que decidiram formar a Igualdade para Gays e Lésbicas em Todos os Lugares (Egale, na sigla em inglês). Buscávamos proteção para a nossa orientação sexual na Lei de Direitos Humanos do Canadá.
Após dez anos de esforços, o grupo intensificou seu trabalho de defesa da igualdade, expandiu seu escopo para incluir pessoas transgêneres e mudou seu nome para Egale Canadá.
Respondendo à violência
O assassinato de um jovem em 1989, planejado por seus assassinos contra a comunidade homossexual, exigiu que a polícia de Ottawa realizasse um trabalho de prevenção criminal nesse grupo de pessoas. O diálogo conduziu ao estabelecimento do Comitê de Ligação para a Comunidade de Gays, Lésbicas e Transgêneres (onde trabalhei durante muitos anos) e a planos de ação para lidar com os problemas identificados pela comunidade. Isso transformou o temor
e a desconfiança da comunidade (baseados em experiências anteriores) em confiança baseada em um compromisso genuíno de trabalhar em parceria contra o crime de ódio, o molestamento escolar e outras preocupações.
Crimes de ódio não ocorrem por acaso. Por isso, são os crimes mais fáceis de se prevenir — por meio da educação e por sólidos parâmetros da comunidade com relação aos preconceitos.
Minha prática budista foi valiosa para ajudar a me manter calma e prosseguir todas as vezes que o trabalho estava sob o ataque de indivíduos dentro e fora da polícia (incluindo na mídia).
Agora, estou envolvida com um grupo comunitário que busca uma ação mais abrangente para o novo Museu da Guerra, no Canadá, programado para ser inaugurado este ano no centro de Ottawa. Queremos que o museu acrescente exemplos de esforços de solução de conflitos sem o uso da violência.
As relações de coração a coração, que são a essência do Comitê para uma Ação mais Abrangente do Museu da Guerra, de caráter não-político e multirreligioso, começaram espontaneamente após o diálogo “Uma Visão Inclusiva da Paz”, que reuniu cem pessoas em fevereiro de 2004.
Nossa iniciativa voluntária iniciada há um ano tem hoje apoio em todo o Canadá, além de um corpo de consultores. Nosso processo baseado no diálogo demonstra o tipo de interação humana necessária para criar uma paz genuína. Os próximos passos incluem uma página na internet (que tornará mais fácil manifestar o forte compromisso da nação para com a paz), um workshop sobre desarmamento e outras propostas de exposição para a área de exposições temporárias do museu, além de um evento público.
Nesse trabalho, estou também ciente dos outros projetos populares que ajudaram a criar o inspirador Tributo aos Direitos Humanos do Canadá, em Ottawa, inaugurado em 1990 (eu trabalhei como relações públicas nesse projeto). O arquiteto Melvin Charney projetou o Tributo para ser um diálogo com o Memorial Nacional da Guerra. Ambos se encontram na mesma rua, no centro de Ottawa.
Que caminhos seguiremos agora? O resultado depende de nós.
Iniciativas comunitárias que levam a partilhar a resolução dos problemas, à responsabilidade e à confiança (como no serviço policial), são cruciais para se conquistar dignidade, igualdade e direitos que definem a paz. Cada realização forja a esperança, opondo-se aos sentimentos prevalecentes hoje de desesperança e inércia.