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Abril/Junho
2005

Destaque
Um modo de vida
Di McDonald

O Campo da Paz Greenham para Mulheres foi estabelecido em 1981 em Greenham Common, próximo a Newbury, no sul da Inglaterra, como uma forma de protesto nas cercanias de uma base militar usada pelos Estados Unidos, um dos cinco centros europeus de lançamento de mísseis nucleares. Algumas mulheres viviam no campo e, no auge do protesto, em 1983, 30 mil mulheres ofereceram seu apoio, dando as mãos ao redor da cerca em volta da base. O protesto das mulheres foi um dos fatores que levou à ratificação do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, de 1988, entre a então União Soviética e os Estados Unidos. Por volta de março de 1991, o último dos mísseis deixou Greenham Common.

Algo comum a todas as mulheres de Greenham é que nós somos e permanecemos pouco convencionais. Como em qualquer cultura, isso nos levou a conflitos com a sociedade conservadora, que se sentia ameaçada por qualquer pessoa “diferente”. Éramos desprezadas e muitas lojas se recusavam a nos atender... mas, foi nas mãos da polícia que enfrentamos as maiores violências físicas. As mulheres eram geralmente arrastadas com violência pela polícia, empurradas, golpeadas e algemadas.

“Não-violência” é um termo usado para significar ações muito diferentes — ignorar o conflito, buscar uma vida tranqüila, colaborar com o mal para evitar confrontá-lo...

Quando compreendida apropriadamente, a não-violência
se torna a mais poderosa força para a mudança.

Normalmente, é definida juntamente com um espectro de significados, como “não ser o primeiro a começar a lutar”, “não responder à provocação com força”, “evitar medir força com força”, “não atacar em auto-defesa” ou “não retaliar”. Não-violência também significa não agredir verbalmente quando sob ataque físico ou verbal e pode ser necessário ver além da palavra ou da ação de ódio, além da pessoa por trás dela, que não é odiosa, mas cheia de ódio. Ser verdadeiramente não-violento significa não humilhar ou ferir qualquer um.

Não apenas uma tática

A não-violência é normalmente vista como uma tática que deve ser descartada quando não consegue deter a violência. Quando compreendida apropriadamente, a não-violência se torna a mais poderosa força para a mudança. Se nós a abandonarmos e decidirmos pelo confronto, perpetuaremos o ciclo de violência, e então, teremos de começar novamente: saindo do campo de batalha e dirigindo-se para a zona neutra que queremos construir.

Mas violência é uma reação espontânea à ameaça. Requer tempo, diálogo e reflexão para desenvolver alternativas e respostas não-violentas.

Por trás da violência, encontramos ódio e temor. Antes de poder abraçar a não-violência com confiança, portanto, temos de lidar com o nosso próprio temor. É preciso ter certeza absoluta de que não estamos procurando o “poder” sobre alguém.

Nossos primeiros princípios são um compromisso apenas com a nãoviolência e com as mulheres. Não clamamos por qualquer outra mulher, apenas por nós mesmos. Não há representantes, “porta-vozes” ou líderes. Nós nos empenhamos em descobrir novas formas de respeitar e valorizar cada uma, de interconectar e desfrutar a solidariedade das mulheres em todos os lugares e de obter uma verdadeira compreensão do que é a não-violência, e usá-la.

Centenas de mulheres aprenderam os princípios e praticam a não-violência em Greenham. Usada como tática, ela passou a ser um modo de vida, um sistema sustentável de reconhecimento do outro não baseado em religião ou regras. As mulheres têm a oportunidade de tentar esse novo modo de pensar, de errar e de observar outros errando, sabendo que objetivamos a mesma direção. Algumas mulheres descobrem ser incrivelmente doloroso ver seus sentimentos de ódio irromperem em direção às armas do exército ou da polícia. Mas podemos confiar umas nas outras para nos resgatarem com palavras tranqüilizadoras enquanto nos distanciamos do conflito.

Todos em Greenham sempre procuraram se conscientizar de como a não-violência nos afetava. Esse martírio, essa auto-negabemção e auto-sacrifício, não foram encorajados. As pessoas respiravam ressentimento e raiva e eram inconscientemente violentas.

Não aceitávamos as opiniões dos outros. A base para a ação não-violenta deve ser voluntária. O outro lado dessa moeda é que se espera que todos sejam responsáveis por suas próprias ações.

Lições aprendidas

Três pontos se tornaram claros em Greenham. Primeiro: a não-violência é um compromisso em tempo integral, não um casaco que se pode colocar quando for apropriado. Diz respeito a todos os aspectos da vida. Segundo: pudemos aprender a não-violência e colocar em prática contra o exército. Terceiro: combinar as forças naturais de diferentes mulheres geralmente conduz às ações mais negabem- sucedidas. As mulheres cuja não-violência aflora mais facilmente propagam sua calma, enquanto os estrategistas da ação utilizam uma vantagem tática (como invadir os veículos que transportam mísseis, se as portas estiverem destravadas). Acrescente a essa mescla de perspicácia um certo humor e uma dose de desrespeito pela autoridade, e você terá uma receita ideal para minar o sigilo e a essência odiosa do planejamento de uma guerra nuclear.


Bloqueio de um portão em Greenham Common, em 1983.
As ações são práticas e simbólicas ao mesmo tempo. Por exemplo, a partir de 1983, a cerca de Greenham foi repetidamente cortada pelas mulheres, algumas vezes pequenos pedaços, outras, grandes extensões. Centenas de mulheres foram presas, acusadas e multadas por danos criminais. Muitas se recusaram a pagar e foram para a prisão. Sensores, luzes, polícia militar e civil, soldados britânicos e americanos, vigias e espiões — todos não conseguiram solucionar esse simples problema.

Aprendemos ainda algo extraordinário: tornarmo-nos nossos próprios advogados. O processo mais importante vencido pelas mulheres foi provar que a base havia sido construída ilegalmente em terras públicas. Foi o início do fim da ocupação militar de Common.

As mulheres de Greenham estão envolvidas em muitas campanhas diferentes agora. Ainda nos organizamos em grupos pequenos, ligados a uma rede informal, conscientemente rejeitando uma estrutura maior de uma organização. A história é normalmente escrita pelos vencedores, mas não há vitória maior do que saber que tentamos.

Di McDonald visitou o Campo da Paz Greenham para Mulheres regularmente com suas crianças a partir de 1982, e viveu lá em 1984. Este artigo foi extraído de um relatório que apareceu pela primeira vez
em Mulheres, Violência e Transformação Não-Violenta, publicado pelo Conselho Mundial de Igrejas, o qual representa sua visão pessoal.


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