
Edições Anteriores
Destaque
Treinamento para
transformação
Besty Raash-Gilman
|
Miami, Flórida, 20 de novembro de 2003. Emissários vindos desde o Canadá até a Argentina reúnem-se para finalizar — ou assim se espera — o acordo da Área de Livre Comércio das Américas. Uma grande multidão de cidadãos dos países envolvidos, incluindo eu, também se reúne para se oporem ao estilo corporativo da globalização que esse acordo representa. Mantendo os dois grupos separados, uma enorme e bem armada força policial fecha completamente o centro de Miami. |
Com permissão legal, nossa longa marcha e comício poderia ir até às 16 horas. Às 16h15, os policiais decidem que era o suficiente e começam a varrer das ruas, à força, milhares de manifestantes. Atirando gás lacrimogêneo e balas de borracha, eles avançavam sobre a multidão colorida e animada de sindicalistas, ambientalistas, ativistas dos direitos dos imigrantes, estudantes e líderes religiosos. Uns poucos manifestantes tentaram deter o avanço policial erguendo barricadas improvisadas no caminho, mas a grande multidão geralmente recuava, temendo os policiais vestidos de negro, com armaduras e armas que comandavam nosso movimento durante todo o dia. Alguns começaram a gritar e a correr. Era uma confrontação desnecessária e perigosa.
Um grupo de pessoas que obviamente conheciam-se uns aos outros deram as mãos e começaram a caminhar lentamente afastando- se da polícia. Eles recitavam em tom baixo e suave. Sussurrando pelas ruas, fizeram uma majestosa barricada móvel com seus próprios corpos, de forma que os manifestantes que temiam os policiais ficassem em frente deles. Eles conseguiram acalmar as pessoas ao redor, e os outros (incluindo eu) juntaram-se em sua procissão e começaram a recitar.
Praticando para o conflito
Suspeito que os que recitavam pertencessem a um grupo de afinidade e que passaram por algum tipo de treinamento de nãoviolência. Esse tipo de treinamento é usado há pelo menos 60 anos para preparar as pessoas para levantarem-se por suas crenças com coragem, dignidade, criatividade e humor. Mahatma Gandhi deu origem ao treinamento de não-violência para os mais disciplinados de seu grupo de seguidores.
Um manifestante senta-se em frente a uma barreira policial durante as conversações da FTAA, em Miami. |
Um missionário metodista na Índia, James Lawson, observou isso e retornou aos Estados Unidos para desenvolver workshops sobre nãoviolência para seus companheiros americanos que desafiavam a segregação legal. Desde essa época, o treinamento tornou-se um requisito antes de muitas ações não-violentas. |
Em Miami, ajudei nesse treinamento. Isso é algo que venho fazendo há mais de 20 anos. Nessas ocasiões, meus workshops demoram cerca de 3 horas — pouco tempo, realmente, para essa questão gigantesca — e se concentra nas questões mais práticas e imediatas.
Iniciamos com uma meditação que nos leva a nos sentir calmos, focados e determinados, reconhecendo que permanecemos firmemente ao lado da justiça e do equilíbrio ecológico. Eu estimulo os manifestantes a usarem a mesma visualização durante a ação, se necessário. Então, prosseguimos explorando nossas reações a conflitos comuns nas manifestações — contestadores, oponentes e agentes policiais a paisana (que podem nos provocar para agirmos de forma violenta e precipitada). Solicitei a alguns participantes que desempenhassem o papel de opositores, e a outros que desempenhassem eles mesmos. Após um breve intercâmbio, nós “desempacotamos” o exercício, para verificar que comportamentos levavam ao desequilíbrio e à intensificação do conflito. Então, trocamos os papéis, de forma que todos tenham a chance de experimentarem ambos os lados. O simples ato de desempenhar durante cinco minutos alguém de quem discordamos geralmente constrói nossa empatia por essas pessoas — e isso certamente é oportuno quando nos encontramos com um oponente ao vivo.
Praticamos movimentos específicos para resistir à pressão policial e às táticas de dispersão de multidões. E eu explico as diferenças entre ser preso e tentar evitar a prisão. Muitas ações baseiam-se na desobediência civil por sua efetividade, mas no movimento de justiça global, as pessoas normalmente decidem que elas podem avançar melhor a causa se não forem pegas pelo sistema legal.
Finalmente, exploramos a importância dos grupos de afinidade em ações não-violentas. Esses pequenos grupos (normalmente dez pessoas ou menos) reúnem-se porque têm algo em comum — uma afinidade — e permanecem juntas durante a ação. Elas podem planejar uma atividade tal como um teatro de rua, ou bloquear um cruzamento, ou tentar entregar uma petição a uma autoridade. Elas simplesmente podem procurar uns aos outros numa grande multidão. Se qualquer membro do grupo for preso — por acidente ou não — os outros podem se certificar de que a pessoa receba cuidados médicos e jurídicos e tranqüilizar seus amigos e familiares.
Compreendendo as questões
No preparo de outras manifestações, posso explorar questões a respeito da destruição de propriedades. (É violento ou não? É efetivo ou não?) Em Miami, esse debate não assume um papel importante, pois todos concordam que a destruição de propriedades apenas beneficia os nossos oponentes, que já tentam nos desacreditar como terroristas e anarquistas.
Antes e após a grande marcha pública, houve vários dias de workshops e discussões sobre o comércio global. Tem sido assim em todos os casos de ações sobre a globalização de que tenho participado, e de alguma forma, acredito que essas discussões são a parte mais importante das “mobilizações de globalizações”. Fazendeiros do hemisfério Norte e do Sul comparam suas anotações. Desempregados e trabalhadores de empresas automotivas dos Estados Unidos conversam com trabalhadores que constroem automóveis em maquiladoras. Mulheres formam redes contra o comércio de sexo. Pessoas se reúnem nos protestos públicos e o diálogo ao redor delas molda e informa o movimento durante anos.
Em Miami, pela primeira vez, representantes comerciais que trabalhavam no esboço de um acordo vieram do hotel rigorosamente vigiado em que estavam para conversarem com os protestantes em uma igreja próxima. Eles representavam a Argentina, o Brasil e a Venezuela e opunhamse a propostas que favoreciam as ricas e poderosas corporações americanas em detrimento das propostas que beneficiavam a maioria de seus próprios povos. Ouvimos com surpresa quando nos disseram que, em essência, estávamos vencendo, e que eles haviam derrubado muitas das propostas apresentadas. “Seu protesto nas ruas faz diferença”, disseram. “Continuem assim!”
O treinamento de não-violência é a minha humilde contribuição para isso. E eu me sinto orgulhosa por poder oferecê-lo.
Betsy Raasch-Gilman é ativista da paz e ambientalista com
25 anos de experiência como treinadora. |
|