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A Marcha do Sal — a de Gandhi e a minha
Jan Øberg
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No dia 2 de março de 1930, Gandhi enviou uma carta ao Lorde Irwin, vice-rei inglês na Índia, para adverti-lo de que iniciaria um ato de insubordinação civil.
Gandhi estava decidido a fazer do imposto sobre o sal o ponto principal de seu protesto político nãoviolento. O monopólio britânico do comércio do sal na Índia ditava que a venda e a produção de sal por qualquer um, exceto o governo britânico, era crime. |
“O sistema britânico parecia ter sido estruturado para esmagar a própria vida dos camponeses. Mesmo o sal usado para a alimentação era taxado de forma a se tornar o mais oneroso possível para eles...”, escreveu Gandhi. “Tome como exemplo seu próprio salário. É cerca de 21 mil rúpias (o equivalente a 7 mil dólares) por mês... O senhor recebe cerca de 700 rúpias por dia em comparação a um salário médio na Índia de menos de 2 anas (4 centavos) por dia... Provavelmente quase todo o salário do senhor vai para a caridade. Mas um sistema que possibilita isso merece ser sumariamente descartado... Nada, a não ser uma nãoviolência organizada, pode coibir a violência organizada do governo britânico....”
Gandhi inicia a Marcha do Sal com 78 de seus seguidores, há 75 anos. |
Gandhi explicou que aqueles que participavam daquele movimento poderiam “ignorar” o imposto do sal e aceitariam prontamente serem presos. Se Irwin estivesse preparado para discutir o assunto, eles cancelariam o protesto. |
A Marcha do Sal começou em 12 de março de 1930, às 6h30. Não mais que 80 dos seguidores de Gandhi partiram de Sabarmati e caminharam até a vila costeira de Dandi, 385 quilômetros ao sul, uma jornada que duraria no máximo 23 dias. Em cada vila, Gandhi reunia adeptos para a sua causa. Ao chegar à costa, ele pegou um punhado de lama e sal e disse: “Com isso, estou abalando as bases do império britânico.” Ele, então, mergulhou a mão na água do mar para extrair o sal que nenhum indiano poderia produzir legalmente.
No dia 12 de março de 2001, às 6h30, eu caminhei pelo portão do ashram Sabarmadi, cobrindo a pé os primeiros poucos quilômetros da rota da Marcha do Sal de Gandhi. Então, tomei um trem, e planejei guiar os 50 quilômetros finais, visitando os templos e outros locais pelos quais os participantes da marcha passaram anos atrás.
Na pequena vila de Dharam, encontrei uma casa simples com uma estátua de Gandhi em frente. Soube que lá vivia um homem que estava com Gandhi na marcha. O sr. Baktha está agora com 94 anos. “Eu tinha 23 anos e lutava pela liberdade quando ocorreu a marcha. Eu estudava história em Gujarat Vidyapith, que Gandhi havia fundado. Nós viajávamos na frente de Gandhi e planejávamos acomodações para a noite e os comícios. Estávamos prontos a morrer pela independência da Índia. É assim que deve ser se você quer conseguir algo!”
Memórias vívidas
Disse-lhe que estávamos indo para a vila de Dandi e depois iríamos ver a extração de sal em Dharasana. “Gostaria muito de ir junto com o senhor. Seria possível?”, perguntou ele. Então, partimos, guiando por um caminho estreito ao longo da costa.
Finalmente chegamos nas minas de sal. No filme sobre Gandhi, podemos nos lembrar das filas dos que protestavam desarmados e que eram brutalmente agredidos pela polícia. Dois morreram e centenas foram levados ao hospital, com seus ferimentos ainda sangrando. O sr. Bakhta era um deles. Hoje, ele nos conta um pouco de tudo: como estavam mortalmente cansados, como estavam preparados para serem presos a qualquer momento, sobre o temperamento de Gandhi...
Trabalhadores descalços cavavam o sal e o amontoavam. Pedimos um pouco de sal como souvenir e pegamos um pouco para o sr. Bakhta. Vi uma lágrima escorrendolhe pela face. Ele disse: “Estou muito feliz de ter chegado aqui. É a primeira vez que volto aqui desde que tudo aconteceu.”
Quando retornamos à noite, o sr. Bakhta estava muito cansado, mas muito feliz. Nós agradecemos um ao outro sinceramente. O sal nos recorda que símbolos políticos e a não-violência podem ser mais fortes que a realpolitik e a violência.
Jan Øberg é cofundador da Fundação Transnacional de Pesquisas
sobre Paz e Futuro (TFF), com sede na Suécia.Veja um relato mais abrangente em www.transnational.org. |
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