Numerosos exemplos de revoluções políticas que não usaram meios violentos poderiam ser listados: os húngaros ao diminuírem o jugo da soberania da Áustria no século XIX; a revolução do povo que derrubou o presidente Marcos das Filipinas em 1986; ou a Revolução de Veludo na Tchecoslováquia, em 1989, que levou à liderança do escritor e defensor da não-violência Václav Havel. E, mais recentemente, a derrubada do líder Eduard Shevardnaze na Geórgia e a “Revolução Laranja”, alcançada após meses de protesto sob a última neve do inverno na Ucrânia, que deram vestes novas à democracia.
Seguiam o ensino de Mahatma Gandhi: o objetivo
da não-violência é traduzir coragem, dignidade e
positivismo em uma forma de luta efetiva. |
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Um protesto em agosto de 1990
fora da embaixada sul-africana
em Londres contra o sistema de apartheid e a detenção de ativistas
na África do Sul. |
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Para demonstrar as realizações da desobediência civil não-violenta, não é necessário nos basearmos apenas em derrubadas de governo. A história é repleta de grandes desenvolvimentos na qualidade de vida das pessoas, obtidos após protestos nãoviolentos contra políticas sociais opressivas. Na Grã-Bretanha, no século XVIII, o movimento pela abolição dos escravos foi um dramático desafio contra uma das formas mais pesadas de violência. Por toda a Europa no início do século XX, a obtenção do sufrágio das mulheres transformou a participação feminina na vida pública, antes negada a cerca de 50% da população. |
Na Austrália, em 1967, a campanha nãoviolenta para reconhecer os povos indígenas como cidadãos estabeleceu um outro marco na luta pela justiça.
Maior conscientização
Se as descrições de técnicas não-violentas sempre incluem relatos de conseqüências, pode-se facilmente lembrar as pequenas vitórias alcançadas na conscientização das pessoas diante da injustiça e na articulação de alternativas justas. Para explicar os meios de protesto não-violento, Gene Sharp listou mais de 100 técnicas diferentes. Ricos exemplos que incluem referências ao chefe Albert Luthuli queimando suas licenças de circulação em protesto às rígidas leis que regiam a movimentação de pessoas negras no apartheid da África do Sul e referências aos processos semelhantes de oposição ao serviço militar na Guerra do Vietnã. Esses foram mais do que gestos simbólicos. Lembram poetas registrando na história os males das guerras e a grande indiferença dos políticos, aparentemente fascinados pela violência. O poeta australiano A.D. Hope, que geralmente separava poesia de política, escreveu “Inscrição para uma Guerra” na época do conflito no Vietnã. Poema em que há estes versos:
Nós, os jovens convocados
Para as guerras criadas pelas tolices deles.
Digamos a esses velhos,
a salvo em suas camas,
Que obedecemos a suas ordens.
E morremos.
Embora esses exemplos de não-violência pareçam se referir a atividades ocorridas em época específica, a biografia dos que protestaram mostra seu fascínio pela filosofia e pela linguagem da não-violência durante um longo período. Sua atitude era não-destrutiva, fortalecendo a vida de outros e contribuindo para a própria saúde mental. Gandhi foi além, dizendo que não-violência era um modo de vida. Para ele, era a lei da vida, os meios e os fins da existência.
Vida não-violenta
A não-violência requer uma prática constante para se adquirir proficiência — ela não significa apenas uma série de técnicas independentes dos outros aspectos da vida. Reunir força suficiente para participar na defesa da não-violência exige atenção diária na linguagem que respeite a identidade e a dignidade de outras pessoas. A partir dessa base, é preciso convicção e habilidade para ramificar-se em diferentes direções e levar em conta riscos consideráveis.
Gandhi, naturalmente,
disse que a não-violência
requer mais
bravura do que a violência. |
Perguntaram-me numa entrevista de rádio nas semanas antes da invasão do Iraque, em março de 2003, sobre o motivo das pessoas que protestavam e que haviam viajado a Bagdá e a Basra para servirem de escudos humanos, ficando entre as armas da guerra e as instalações não-militares que garantiam a qualidade de vida dos indivíduos. O entrevistador perguntou: “por que eles se arriscam? Por que eles incorreriam em gastos financeiros para o governo que precisa pagar para repatriá-los? O que eles ganham com isso?” Essas questões se baseavam no pensamento de que a não-violência pode ser medida por critérios como os limites de um campo de críquete, os gols numa partida de futebol, as rebatidas no beisebol. Os bravos escudos humanos que foram a Bagdá praticavam um conjunto de crenças de não-violência, ainda que numa zona de guerra e sob as luzes da mídia internacional. Suas ações eram uma manifestação de preocupação, de intervenção humanitária, na qual ninguém seria ferido ou perderia a vida. Seguiam o ensino de Mahatma Gandhi: o objetivo da não-violência é traduzir coragem, dignidade e positivismo em uma forma de luta efetiva. Gandhi, naturalmente, disse que a não-violência requer mais bravura do que a violência.
A defesa da não-violência pressupõe uma visão de como seria uma sociedade não-violenta, embora esse vislumbre seja mais implícito que explícito. É normalmente retrato de uma utopia conduzida em torno da mente das pessoas sem que as características dessa sociedade sejam especificadas — o idealismo pode ser importante e inspirador.
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O rei Christian da Dinamarca
em sua cavalgada diária
durante a ocupação nazista
de seu país. Junto com várias técnicas de não-cooperação com os ocupantes, cartazes públicos que mostravam o orgulho nacional
dinamarquês ajudaram a
minar os objetivos alemães. |
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As qualidades de uma reverência apaixonada e de um amor ativo são exemplos de características que os pesquisadores atribuem a sociedades pacíficas, nas quais — em comum com uma das prescrições-chave da Unesco para uma cultura de paz — a rejeição à violência é um dos traços principais. Exemplos da paz promovendo sociedades encontram-se não apenas nos estudos de tribos indígenas nas colinas do Sudeste da Ásia, mas também em documentos, como a resposta da sociedade norueguesa em 1994 diante da criança que cometeu assassinato. Uma sociedade moderna também rejeitou a punição, o acerto de contas e a violência. |
A reverência à vida e o amor ativo pelo outro foram o cimento social de culturas nas quais o poder foi disperso, as hierarquias niveladas e um consistente desprezo pela punição mantido. Em total contraste com os atuais governos — que se apegam a agendas de lei e ordem e não conseguem pensar em nada mais do que construir prisões e punir os culpados com sentenças cada vez mais severas —, nas sociedades nãoviolentas a reconciliação das diferenças foi alcançada sem a ameaça da punição.
O uso criativo do poder
Se com a não-violência, percebe-se o potencial de promover a saúde e revitalizar a vida, seus valores e linguagem devem influenciar a forma e a implementação das políticas sociais e externas. Não se constrói uma sociedade não-violenta apenas melhorando-se sua imagem ou contandose com alguns poucos líderes carismáticos e melhor psicologia das relações humanas.
Nos termos de Derrida, temos de nos empenhar para criar uma democracia inclusiva e cosmopolita. Em minha opinião, uma sociedade não-violenta deveria ser socialmente justa, caracterizada por serviços e oportunidades que afetem todas as liberdades básicas: acesso a água tratada, moradia e alimentação adequadas, qualidade nos serviços de saúde e educação e leis eqüitativas. Isso pode soar como compromissos esquecíveis pelos governos, na corrida por competitividade e — na violenta imagem da guerra e do terror — mais militarização. Meus objetivos de política social incluem a visão que Daisaku Ikeda tem em mente quando fala da aplicação dos princípios budistas no cotidiano. Na mesma análise, ele identifica a cobiça, a pobreza, a ilusão da eficiência e a irresponsabilidade ambiental como obstáculos dos maiores para se alcançar a paz.
Como um pós-escrito a essa visão de sociedade não-violenta, retorno ao uso do poder de forma criativa, libertadora e revitalizadora. Isso pode ser exercitado e percebido a cada dia, caso se lute para que esse emprego do poder afete toda a sociedade e influencie os objetivos das políticas sociais. Numerosos exemplos vêm à mente: alianças entre organizações de defesa dos direitos humanos na Indonésia, Papua Ocidental e Austrália para investigar os abusos na Papua Ocidental; a decisão da escritora indiana Arundhati Roy de dividir o valor recebido com o Prêmio Sidney da Paz 2004 entre os aborígenes australianos; a criação pelo maestro Daniel Barenboim da Orquestra Divan Ocidente-Oriente, com jovens músicos árabes e israelenses que se apresentam nos territórios ocupados.
A promoção da não-violência requer foco popular e capacitação política. O poeta inglês William Wordsworth tinha esses requisitos em mente ao escrever o poema “Humanidade”, em resposta às tendências de sua época diante da Revolução Cultural e de uma desavergonhada exploração de pessoas e recursos.
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O defensor da não-violência Mkhuseli Jack reúne apoio para o boicote de consumo na África do Sul, em 1986.
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Que mundo justo foi o
nosso para os versos retratarem
Se o poder pudesse viver
tranqüilo, com moderação
(Mas)... uma sede tão grande
sempre guia a vasta máquina
Do trabalho insone, em meio
à engrenagem demente.
O que o Poder menos valoriza
é o que pensa e sente. |
Até o início do século XXI, incansáveis esforços tornaram a violência mais eficiente. O único antídoto para essa política — e, suspeito, para a fascinação sexual pela violência — é abraçar a filosofia, a linguagem e a prática da não-violência, um modo revitalizador de influenciar políticas e conduzir relacionamentos, uma lei da vida.
Stuart Rees é professor emérito da Universidade de Sidney e
diretor da Fundação para a Paz de Sidney.
Seu livro mais recente
é Paixão pela Paz, Exercendo o Poder Criativamente, Sidney, UNSW Press, 2003.
Sua recente
antologia poética é Conte-me a Verdade
sobre a Guerra, Canberra, Ginninderra Press, 2004. |