Naturalmente, a visão de história vem sendo questionada por epresentantes de culturas e grupos cujas perspectivas foram silenciadas ou ignoradas. No entanto, uma rica narrativa de não-violência pode ser tecida a partir dessa “outra história”.
Parte disso é um redescobrimento do comum. O padrão normal da vida diária em qualquer grupo social ativo de humanos é repleto de exemplos nos quais conflito e contradições são discutidos, negociados e resolvidos sem o recurso da força. Desnecessário dizer: as mulheres geralmente são as protagonistas mais engajadas nesse trabalho de negociação e resolução.
Ao nos afastarmos dos “grandes homens e seus grandes feitos”, a história nos dá uma visão das possibilidades de verificar mais honestamente os processos graduais e cumulativos pelos quais as sociedades são realmente formadas e transformadas.
Finalmente, o século XX — que experimentou espasmos massivos de violência organizada na forma de duas Guerras Mundiais, uma Guerra Fria de 50 anos e inumeráveis insurgências e revoltas armadas — foi também o século em que um empenho não-violento e organizado surgiu espontaneamente como uma força capaz de transformar as sociedades e fazer avançar a história.
Nenhum outro nome é mais amplamente associado aos ideais de uma luta nãoviolenta do que o de Mohandas K. Gandhi, conhecido como Mahatma, ou “Grande Alma”. Influenciado pela profunda tradição védica da ahimsa, ou “não ferir”, Gandhi formulou um estilo pró-ativo de desafio não-violento à injustiça que denominou graha, termo este derivado das palavras “verdade” e “sustentar com firmeza”. Sua estratégia era confrontar e despertar a humanidade daqueles que implementavam a política da administração colonial britânica com ações de resistência não-violenta. É emblemática a Marcha do Sal de 1930, na qual ele conduziu um grupo de voluntários numa caminhada até o mar em contravenção ao monopólio britânico do produto e da venda desse produto necessário à vida.
O padrão normal da vida diária em qualquer
grupo social ativo de humanos é repleto de exemplos
nos quais conflito e contradições são discutidos,
negociados e resolvidos sem o recurso da força. |
Nas décadas seguintes, cidadãos afroamericanos nos Estados Unidos foram bem-sucedidos ao desafiarem a política desumana de segregação e discriminação conduzida sob as infames leis “Jim Crow”. Arriscando e aceitando serem presos por usarem instalações reservadas aos brancos e boicotando aquelas destinadas à segregação, os proponentes dessas mudanças não-violentas desafiaram a consciência tanto da nação quanto do mundo, ao mesmo tempo em que impuseram um custo inaceitável nos negócios que lucravam com as políticas de discriminação. Assim como Gandhi, o Movimento pelos Direitos Civis dos Estados Unidos elaborou estratégias práticas e empreendeu ações na base espiritual — igrejas afro-americanas e congregações eram sua força motriz.
Da mesma forma, as transformações democráticas que varreram a Europa Oriental foram alcançadas em sua essência por meios não-violentos. No mesmo período, o movimento do “poder do povo” nas Filipinas conduziu a um fim pacífico décadas de ditadura. Mesmo a África do Sul foi capaz de realizar eleições democráticas em 1994, superando uma longa história de racismo institucionalizado reforçado pela brutalidade selvagem. Uma guerra civil ou uma retaliação violenta por parte do novo governo também foi evitada, em um processo que poderia ser considerado miraculoso.
Denominar essas transformações de “miraculosas” é, por um lado, notar suas significativas realizações. Mas, ao mesmo tempo, coloca-as fora do campo da experiência comum. Permanecem a exceção, com a sugestão não expressa de que a violência ainda é a regra.
Essa espécie de admiração à distância pode explicar porque transformações não-violentas continuam a ter menos pesquisas e atenção analítica do que sua importância para a sobrevivência humana realmente merece. Parte dessa pesquisa precisa ser direcionada para se avaliar as conseqüências das transformações violentas versus as nãoviolentas no longo prazo.
É hora de estudar e aprender com a miraculosa história da humanidade. Esta edição do SGI Quarterly busca contribuir para esse processo. Ao fazê-lo, buscamos cumprir com os propósitos da SGI descritos pelo seu presidente, Daisaku Ikeda: “Travar uma luta espiritual, a partir das profundezas da própria vida, contra todas as forças coercivas externas — seja a violência, o autoritarismo ou a riqueza — que continuam a ameaçar a dignidade da vida.”