Setembro
2007

Vocação
A física da vida e da morte

Após deixar o Estabelecimento das Armas Atômicas, na Grã-Bretanha, há mais de 20 anos, a física e professora Sheila Holmes juntou-se recentemente ao programa Retorno das Mulheres à Física, da Universidade Aberta, determinada a voltar para a pesquisa científica e usar seu conhecimento e compreensão como uma força do bem.

Poshak Gandhi é um astrofísico de observatório especializado em propriedades de buracos negros. Nascido na Índia, conseguiu seu PhD na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e participa atualmente de um intercâmbio no Instituto de Pesquisa em Física e Química (Riken) em Saitama, no Japão.

As entrevistas foram conduzidas separadamente.

SGI Quarterly: Como se interessou pela primeira vez pelo seu campo?

Sheila: Queria me tornar física desde os 15 anos, quando soube pela primeira vez da existência de partículas subatômicas chamadas quarks, que constituem o núcleo do átomo. Todo o mundo das miríades de partículas dentro do núcleo me fascinava, e decidi trabalhar em Física de partículas.


Acima: Trilhas deixadas por partículas subatômicas sobre uma superfície Esquerda: A galáxia de Andrômeda, a dois milhões de anos-luz da Terra
Poshak: Quando tinha 5 anos, li que o Universo era tão grande que mesmo a luz da estrela mais próxima leva 4 anos para chegar a nós. A galáxia grande mais próxima de nós está a dois milhões de anos-luz. E há centenas de bilhões de galáxias no Universo. Lembro-me de ter ficado espantado com a escala das coisas, e esse sentimento de admiração permaneceu comigo.

O excitante é que, sentado aqui na Terra, somos capazes de olhar as fronteiras distantes do Universo e traçar inferências sobre grandes questões, sobre como se formou o Universo e como surgiu a vida na Terra.

SGQ: Como você descreveria o relacionamento entre a astrofísica e a física nuclear?

Poshak: A astrofísica é o estudo do macrocosmo, a física nuclear trata de quase todas as pequenas partículas que conhecemos — o núcleo dos átomos e sua estrutura. Os estudos na astrofísica também nos têm ajudado a fazer avanços no campo da física nuclear, simplesmente porque as reações nucleares são uma parte fundamental de tudo o que acontece, por exemplo, no Sol e nas estrelas distantes. Toda energia do Sol vem desse processo de fusão nuclear, no qual os elementos mais leves, como o hidrogênio e o hélio, são forçados a se fundirem sob uma pressão imensa para se combinarem e formarem elementos mais pesados. Também há as grandes explosões conhecidas como supernovas, que marcam o fim da vida das estrelas. Nessas explosões, todos os elementos mais pesados que o ferro — urânio, por exemplo — são produzidos e depois dispersos pelo Universo em explosões imensas.

SGIQ: Como você vê o relacionamento entre o budismo e a ciência?

Sheila: O budismo possui uma forma diferente de olhar o Universo, diferente da forma reducionista de pensar. Os cientistas tentam compreender as coisas quebrando-as em peças menores. Mas então, há o conceito budista de que o microcosmo é o macrocosmo, o qual acho que a ciência ignora. Tento levar em consideração os princípios budistas em minha compreensão da física subatômica, ao mesmo tempo em que olho a física quântica, que é parte física e parte filosofia, de uma perspectiva budista.

A física de partículas tem a ver com as diferentes forças entre as partículas. O Santo Graal da física é unificar as forças numa grande teoria, o que Einstein tentava fazer e no que as pessoas estão trabalhando muito agora.

De uma perspectiva budista, o Universo é vida. Dessa forma, até essas partículas subatômicas são vida. Um físico veria essa matéria subatômica como algo separado da vida; mas como um budista, acho que sempre há algum aspecto ali que tem as características de vida. Eu estou tentando entender isso por meio do conceito de que o microcosmo é o macrocosmo.

Poshak: Budismo e ciência são maneiras complementares de explorar os mundos interno e externo. Por exemplo, o budismo — especialmente o Budismo Nitiren — enfatiza a verdade e busca uma prova real constantemente questionando. Essas atitudes são o âmago do método científico, e qualidades que eu continuamente tento cultivar em mim.

O conceito budista é de que todos os fenômenos são transitórios e mutáveis, e isso é algo que as observações durante o século passado demonstraram ser verdade — que tudo, incluindo as próprias estrelas e galáxias, nascem e eventualmente morrem.

Da mesma forma, já citei o processo de fusão nuclear pelo qual os elementos são criados — todos os elementos no seu e no meu corpo e tudo ao nosso redor foi provavelmente criado no centro de uma grande estrela, logo depois da morte dela, em uma explosão de supernova. Então, em um nível muito físico, em um nível fundamental, não há diferença entre nós. O budismo afirma que todas as pessoas são fundamentalmente iguais, e temos um embasamento na ciência para isso.

Curiosamente, o processo de fusão nuclear que cria os elementos da vida é o mesmo processo que aproveitamos para efeitos destrutivos, como as bombas de hidrogênio.

SGIQ: Como foi sua experiência trabalhando em uma fábrica de armas nucleares?

Sheila: Eu monitorava níveis de radiação, na fábrica de Aldermaston, na Inglaterra.

Naquela época, acreditava no conceito da intimidação pelas armas nucleares. Viver e trabalhar com a realidade dessas armas era muito diferente de ter uma compreensão intelectual sobre o assunto. Morei nas próprias instalações da fábrica, com pessoas que trabalhavam lá. Toda a área de trabalho estava contaminada com poeira de plutônio, porque era lá que manufaturavam o plutônio para fazer as bombas. Naquela época, as mulheres grávidas não eram proibidas de trabalhar na fábrica. Tudo parecia um pesadelo, ver as bombas e o plutônio tomarem forma. Eu tinha uma repulsão física pelas armas nucleares. Não podia viver tão próxima a elas.

Quando parti, não acreditava mais no poder de intimidação das armas nucleares porque me posicionei contra elas, contra as próprias armas — aquilo me transformara. Eu não trabalharia na indústria de defesa.

SGIQ: O que você considera como a maior contribuição do seu campo?

Sheila: A física médica tem avançado muito usando a tecnologia nuclear em, por exemplo, scanners para diagnosticar precisamente o câncer e outras doenças. O uso da radioterapia no câncer tem aumentado significativamente a taxa de sobrevivência.

Poshak: A visão de mundo que nos tem dado. Para mim, é muito mais interessante saber que vivemos num pequeno e frágil planeta que circula na galáxia a 220 quilômetros por segundo numa pequena região de um dinâmico e possivelmente infinito Universo do que o ponto de vista da Terra como o centro do Universo, onde tudo acontece para os seres humanos. O primeiro ponto de vista é muito mais cheio de curiosidade e preciosidades.


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