Setembro
2007

Gente
Quebrando o silêncio
Ayako Kozuka, Japão

No dia 6 de agosto de 2005, no 60º aniversário de lançamento da bomba atômica em Hiroshima, viajei de minha casa em Quioto para lá a fim de participar de uma cerimônia em memória das vítimas da bomba atômica e da guerra. Ofereci minhas orações e renovei o juramento de trabalhar pela abolição das armas nucleares.

Após a cerimônia, conversei com os estudantes locais e partilhei com eles minhas memórias daquele dia, 60 anos atrás.

Nasci em Hiroshima. Minha mãe me criou sozinha depois que meu pai faleceu quando era criança. Eu estava a três quilômetros do marco zero quando a bomba foi lançada. Tinha 16 anos e trabalhava como assistente administrativa na sede da Marinha. Havíamos encerrado nossa reunião matinal.

Houve um clarão e me senti sendo lançada pela sala. Quando me recuperei, vi meus colegas de trabalho caídos ao meu redor e todo o horizonte em chamas. Miraculosamente, eu não estava ferida; tentei de forma desesperada ajudar as pessoas que estavam perto de mim.

Uma jovem mãe veio me pedir ajuda. Tinha o corpo inteiro queimado e, em suas costas, havia um bebê sem cabeça. Quando ela se inclinou e agarrou minha mão, a pele das mãos dela se soltou. Eu estava tão apavorada que não conseguia parar de tremer.

Levei três dias para chegar em casa, caminhando entre as chamas. O inferno que testemunhei jamais deixará minha mente.

No meio do entulho do que seria nossa casa, encontrei minha mãe, completamente absorta. Chorando de alívio ao me ver, ela correu para o nosso jardim e apanhou algo para mim. Levei um tempo para perceber que o que ela havia colocado nas minhas mãos eram tomates. A chuva radioativa os havia deixado negros. Devorei-os avidamente, a primeira refeição em três dias.

Enquanto contava minha história aos estudantes, lacrimejando ao falar sobre a preciosidade da paz, pensei em meus longos anos de silêncio.

Envergonhada

Muitos sobreviventes da bomba atômica guardam as experiências da tragédia para si, com receio de preconceito ou discriminação. Eu era uma dessas pessoas. Quando me casei em 1947, não podia contar à família de meu marido que eu era uma sobrevivente da bomba atômica. Minha mãe faleceu logo depois. A radiação destruiu sua saúde. Ela tinha apenas 43 anos.

Eu também sofria com os efeitos da radiação. Meus glóbulos brancos diminuíram para metade do nível normal. O medo da morte estava sempre comigo. Eu também fiquei com medo de ter filhos, desconhecia os efeitos que eles poderiam herdar. Mas me tornei mãe de um garoto e de três meninas.

Em 1958, um amigo me apresentou ao Budismo Nitiren. Comecei a recitar o mantra com o objetivo de viver e ver meus filhos crescerem. Aos poucos, os temores deram lugar a uma determinação férrea para viver.

Um ano depois, a contagem dos glóbulos brancos já era normal. Minha vida pessoal e as circunstâncias financeiras também começaram a melhorar.

No entanto, todos os anos, no dia 6 de agosto, eu caía em prantos, aterrorizada por memórias horríveis. “Mãe, por que a senhora está chorando?” Meus filhos me perguntavam com os olhos atônitos. Mas eu não podia lhes contar. Não queria que eles fossem discriminados quando se casassem ou fossem procurar emprego.

Um momento decisivo ocorreu em 1965, quando aceitei uma posição de responsabilidade na associação budista de nossa localidade. Por coincidência, era o dia do 20o aniversário do lançamento da bomba atômica de Hiroshima.

Refletindo sobre como minha vida havia revivescido por meio da prática budista, senti-me cheia de gratidão e tomei uma importante decisão. Eu viveria, disse a mim mesma, em prol da paz e da felicidade dos outros.

Não muito tempo depois, partilhei, pela primeira vez, a experiência de ser uma sobrevivente da bomba atômica. Era uma reunião de jovens associados da Soka Gakkai. Rompendo os vinte anos de silêncio, descrevi a atrocidade das armas nucleares como eu as experimentara e falei sobre a sacralidade da vida.

Estava preocupada sobre como meus próprios filhos reagiriam após descobrirem o que eu mantivera escondido. Mas depois eles me disseram: “Mãe, por favor, partilhe sua história com os outros. E não se preocupe conosco porque estamos bem e saudáveis”.

Após isso, comecei a me engajar em trabalhos voluntários, desde falar acerca da minha própria experiência, contribuir para a proteção ambiental, até ler livros sobre paz para crianças. Também me tornei presidente da Liga das Senhoras de Quioto e viajei para a China em 1980.

Hoje, eu e meus quatro filhos atuamos na causa da paz. Cada um deles construiu uma família feliz. Minha filha estava preocupada com os efeitos genéticos da bomba atômica, mas deu à luz a um bebê saudável que já cresceu e hoje trabalha. Eu tenho oito netos e dois bisnetos, o que jamais imaginaria possível.

Sinto uma profunda gratidão de estar viva hoje, de ter vivido. Continuarei a bradar pela paz.

Jamais devemos permitir que a tragédia de Hiroshima se repita.

Os hibakusha — sobreviventes do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki — são as únicas pessoas na história que experimentaram diretametne o horror da bomba atômica. Dentre eles, incluem-se japoneses, coreanos, chineses e outros que estavam nas cidades bombardeadas.


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