Destaque
Manifestar o poder da paz
Angie Zelter
Angie Zelter é uma ativista da paz que vive no Reino Unido. Ela já liderou diversos movimentos de conscientização e campanhas de ação direta não-violenta, incluindo o movimento antiarmas nucleares Ploughshaves (Relhas de Arar). Em 1999, foi presa por danificar equipamentos a bordo de um navio de pesquisas na base de submarinos nucleares Faslane, na Escócia, Reino Unido. Ela foi considerada inocente em um julgamento posterior com o argumento de que o uso ou o preparo do sistema de armas nucleares Trident era um crime de guerra, e que os que protestavam estavam autorizados pelas leis de guerra a evitar que esse crime ocorresse. Angie agora lidera a Faslane 365, um protesto pacífico de um ano na base naval de Faslane organizado por grupos de cidadãos do Reino Unido e de todo o mundo. Seu livro Trident on Trial (Trident em Julgamento) descreve a dedicação de uma mulher para evitar o uso de armas nucleares.

Angie Zelter (centro), Ulla Roder (esq.) e Ellen Moxley celebram a vitória no julgamento de 1999. |
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SGI Quarterly: Em seu livro, a senhora fala sobre “o anseio pela paz e criatividade que está em cada um de nós e que é um poder real e vital que apenas necessita ser manifestado para brotar”. Pode nos explicar isso?
Angie Zelter: Temos um grande sentimento de alienação em relação ao mundo da forma como ele se encontra hoje. |
Sabemos que podemos viver de modo diferente e que há um grande potencial em cada ser de onde pode surgir a criatividade e o amor. Mas as estruturas básicas de nossa sociedade nos impedem que sejamos plenamente humanos. Isso nos deixa todos intranqüilos, causa doenças e desassossego em nosso meio. Também ficamos frustrados por não saber como tornar real essa outra sociedade. Com a mudança climática, poluição, pobreza, destruição ambiental, refugiados, guerras, sabemos que não podemos continuar a abusar de nosso planeta dessa forma por muito mais tempo; do contrário, não teremos mais um lar.
SGIQ: Como a senhora vê a sociedade se transformando?
AZ: O que eu vi transformar nesses 35 anos em que venho me empenhando é que muito mais pessoas hoje estão conscientes. Não me sinto sozinha. Acho que, devido às possibilidades de informação, um maior número de indivíduos adquire essa conscientização, e ela é o primeiro passo. Essa é a principal mudança.
SGIQ: A senhora já mudou atitudes locais na Grã-Bretanha em relação às armas nucleares?
AZ: Não é que as pessoas não saibam sobre as armas nucleares, mas nossas ações despertaram novamente uma discussão real acerca do assunto. Temos muitos estudantes envolvidos, mas, se formos às ruas, ficaremos surpresos com a quantidade de pessoas que não sabem que nosso programa de armas nucleares é chamado Trident ou que ele está baseado em Faslane.
Isso pode ser bem desanimador. As pessoas não querem saber de coisas sobre as quais acreditam que não possam fazer nada. Mas cabe a cada um definir quais são as prioridades em qualquer momento. Isso também cabe ao nosso sistema educacional, incrivelmente distorcido
pelas agendas do Estado.
SGIQ: A senhora já se imaginou levantando-se sozinha na corte, defendendose por desafiar a política de intimidação nuclear do Reino Unido?

Policiais em um barco inflável retiram o caiaque de um manifestante diante do submarino nuclear Trident, na costa da Escócia |
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AZ: Em nossa sociedade, penso que quando não somos especialistas e não temos um certo grau de conhecimento em determinado tema, receamos ajudar de forma adequada. Mas, numa democracia, temos o dever e o direito de nos engajarmos nas questões de nossa época, compreendê-las e tentarmos influenciar nossos líderes o máximo possível. |
Eu não estava sozinha na corte, tanto no julgamento de 1999 quanto no julgamento da promotoria real em 2000. Eu impetrei uma ação de desarmamento junto com duas outras mulheres, foi um esforço conjunto, e havia uma multidão nos apoiando todo o tempo, como em muitos dos movimentos pela paz. No início da campanha, confiei em meu próprio instinto e geralmente estava sozinha. E sempre descobria um vazio entre o que eu sentia e o que realmente estava sendo feito.
Nos anos 1980, iniciei a campanha “Desobediência Bola de Neve”. Eu visualizava uma bola de neve: se conseguisse o apoio de mais duas pessoas, então nós três cortaríamos a cerca ao redor de uma base americana e, depois, nós três tentaríamos conseguir o apoio de mais duas ou três pessoas. Então, seríamos nove e depois 27. Mas foi muito difícil encontrar os primeiros três. Minha sogra fez isso para mim. Eu acreditava que esse começo era o complicado. E depois prosseguimos e milhares de pessoas tomaram parte nos protestos e foram presas. Isso se propagou para outras bases americanas. O fato de uma pessoa cortar apenas uma cerca e escrever uma carta ao governo pedindo pelo desarmamento significava que o movimento estava estruturado para tornar a desobediência civil fácil. A idéia era de que se tivéssemos pessoas o suficiente cortando cercas, estas sumiriam. Já era um ato de fé iniciar este movimento, mais ainda era visualizar seu sucesso. O mesmo ocorreu com o Faslane 365. As pessoas diziam: “Não se pode fazer uma barricada todos os dias”. Mas eu precisava dessa visão inicial, mesmo que ela se transformasse em outra realidade à medida que cada pessoa se juntasse e trouxesse sua própria visão e energia.
SGIQ: A idéia de transformar armas em relhas [na campanha Plougshaves] foi tirada da Bíblia. Como os aspectos negativos de nossa natureza podem ser realmente transformados?
AZ: O meio ambiente e as questões humanas têm de vir antes do lucro. Isso não acontece atualmente e várias questões menores se interpõem a essa condição. Não se encontra muitos partidos políticos ou pessoas conversando sobre como podemos reestruturar nossa economia de modo diferente. Por exemplo, em relação às mudanças climáticas, um dos aspectos que não é tratado devidamente é que os exércitos e o comércio de armas usam cerca de 50 por cento das fontes do nosso planeta e, assim, têm um imenso papel na emissão de carbono. O impacto do complexo industrial militar na mudança climática é enorme, mas raramente se ouve alguém falar a respeito disso.
“Mas, numa democracia, temos o dever e o direito de nos engajarmos nas questões de nossa época, compreendê-las e tentarmos influenciar nossos líderes o máximo possível.” |
SGIQ: Como podemos propagar a consciência básica sobre as armas nucleares?
AZ: Acho que há falta de imaginação. Penso que nossos sentimentos e pensamentos são influenciados por aquilo que vemos e quem vemos. Por isso, os japoneses hibakusha estão indo a Faslane nesse verão para se encontrar com as pessoas comuns que não tiveram a oportunidade de ir a Nagasaki ou Hiroshima.
O fato de estarmos dispostos a usar armas de destruição em massa nos distorce de formas diferentes e possui um grande impacto negativo em nós enquanto integrantes de nossa sociedade.