Destaque
Um brado pela vida
Dra. Helen Caldicott
Dra. Helen Caldicott, australiana, participou pela primeira vez de uma campanha contra os testes nucleares da França no Pacífico Sul em 1970, em seu país. Depois, ela levou seu trabalho nessa campanha para os Estados Unidos e para o cenário internacional. Em 1979, fundou o Physicians for Social Responsability (PSR, Médicos pela Responsabilidade Social), o que a levou à campanha para o término dos testes nucleares na atmosfera. Em 1995, a Dra. Caldicott fundou o Instituto de Pesquisas de Políticas Nucleares. Ela já escreveu vários livros sobre questões nucleares e meio ambiente.
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SGI Quarterly: Como ser uma médica influenciou sua perspectiva sobre armas nucleares?
Helen Caldicott: Eu tenho uma perspectiva biológica. Sei o que a radiação causa e o que os isótopos nucleares fazem ao corpo. E sei o que uma guerra nuclear acarreta. Isso tudo é medicina. Vejo as campanhas como uma forma de medicina preventiva — como fazemos com que as pessoas parem de fumar porque isso as mata. A indústria nuclear é um caso muito mais sério do que a indústria do fumo, pois ela afetará pessoas nas próximas gerações que ainda nem existem, e isso é realmente perverso. |
Eu não estou sozinha. Por exemplo, falei recentemente em Harvard, no Hospital para Crianças de Boston. As pessoas ficaram completamente atônitas com o que tive de dizer sobre as conseqüências médicas da cadeia do combustível nuclear. Escrevi certa vez um artigo para o New England Journal of Medicine sobre as conseqüências da energia nuclear. Passei um ano pesquisando o assunto. Não se ensina essas informações nas faculdades de medicina. Mas quando eu palestro em hospitais em todo o mundo, os médicos ficam extremamente preocupados. E ninguém discorda sobre os fatos médicos, ninguém.
Os médicos têm o papel imperativo de bradar. A questão é como mobilizálos efetivamente para isso.
SGIQ: A senhora deve ter visto muitas situações mudarem, e antes achar que pareciam imutáveis.
HC: Eu fiquei orgulhosa quando a França foi forçada a fazer testes no subsolo, quando vi todo o povo australiano se levantar contra os testes franceses, e quando vi os sindicatos australianos proibirem a mineração de urânio por cinco anos por compreenderem seus perigos. Senti-me muito realizada e aliviada, e também por saber que havia ainda mais trabalho a ser feito em outras áreas.
Sempre soube, desde que era garotinha, que tudo é possível. Mas, quando se é médico e curamos um paciente, vamos para o próximo. Nunca paramos. É assim que me sinto sobre meu engajamento.
SGIQ: Como a senhora vê a situação atual?
Cerca de dez mil australianos protestam em Sidney em julho de 1995 contra os testes nucleares franceses no Pacífico Sul |
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HC: Há mais perigo agora do que no auge da Guerra Fria. O apertar de um botão pelos presidentes Bush ou Putin destruirá toda a vida na Terra porque os Estados Unidos e a Rússia ainda apontam milhares de bombas de hidrogênio um para o outro. Essa situação potencialmente catastrófica é de fato muito mais séria do que o aquecimento global e poucos percebem. |
Há o que se chama renascença do poder nuclear, pois a indústria nuclear afirma que sua energia não produz gases que afetam o aquecimento global, o que é uma mentira. Em uma instalação nuclear, se contarmos quanto diesel e
combustível fóssil é usado para minerar o urânio, para construir um reator, transportar o lixo e armazená-lo com segurança por centenas de anos, isso produz uma grande quantia de dióxido de carbono, quase tanto quanto as usinas elétricas movidas a gás. Fico muito aborrecida quando os cientistas mentem, e a indústria nuclear gasta centenas e milhares de dólares em propagandas para convencer as pessoas de que a energia nuclear é livre de emissões e segura.
“Vejo as campanhas como uma
forma de edicina preventiva— como fazemos com que as
pessoas parem de fumar
porque isso as mata. A indústria
nuclear é um caso muito mais
sério do que a indústria do
fumo, pois ela afetará pessoas
nas próximas gerações...” |
SGIQ: A senhora vê alguma forma de médicos e físicos trabalharem juntos?
HC: Não acredito que a comunidade nuclear esteja interessada em ouvir a verdade sobre as conseqüências da cadeia de energia nuclear. Eu me concentraria no público em geral e, para mim, isso sempre resulta em mudanças. Em primeiro lugar, quando procurei educar o público australiano sobre os efeitos médicos dos testes nucleares franceses na atmosfera em 1971 e 1972. Em segundo, quando procurei educar o movimento sindical australiano sobre as conseqüências da mineração de urânio. Em terceiro, quando conduzi o movimento de médicos nos Estados Unidos e internacionalmente para ensinar as pessoas sobre os efeitos médicos da energia nuclear e da guerra nuclear. Essas três campanhas tiveram grandes resultados, foram muito bem-sucedidas. Elas aconteceram devido à cooperação da mídia em muitos países. E é disso que precisamos para continuar. A mídia necessita ser educada, se envolver e estar pronta para divulgar a verdade, e não ser usada como uma ferramenta que promova a propaganda da energia nuclear.