Setembro
2007

Destaque
O fator humano — Einstein revisto
Alyn Ware


Marinheiros americanos protegendo os olhos no deque de um navio durante um teste com bomba atômica no atol de Biquíni, nas Ilhas Marshall, em 1947
No dia 6 de novembro de 1995, Lijon Eknilang, uma senhora tranqüila e modesta da ilha de Rongelap, no Pacífico, fez o que provavelmente foi a mais longa viagem no mundo para participar de uma corte. Ela levou mais de dois dias viajando para chegar na Corte Internacional de Justiça, em Haia, Holanda, o mais alto organismo judicial do mundo. Ela transmitiu aos 14 juízes da corte o testemunho revoltante dos efeitos dos testes nucleares no Pacífico:

“Algumas mulheres chegaram a experimentar vários cânceres nos órgãos reprodutivos e nascimentos de bebês com doenças e defeitos congênitos. Particularmente, elas deram à luz não a crianças da forma como as conhecemos, mas a seres que foram descritos como ‘polvos’, ‘maçãs’ e ‘tartarugas’.

“O defeito mais comum ocorrido em Rongelap e nas ilhas vizinhas foi descrito como ‘bebês água-viva’. Esses bebês nasciam sem ossos e com uma pele transparente, sendo possível ver o cérebro e o coração batendo. Os bebês normalmente viviam um dia ou dois antes do coração parar. Muitas mulheres morreram de gravidez anormal e as que sobreviviam davam à luz ao que pareciam uvas púrpuras, que escondíamos rapidamente e queimávamos.”

Lijon, ela própria tendo passado por oito abortos, comentou que o sofrimento que ela e outras das Ilhas Marshall haviam experimentado jamais deveria ser repetido em qualquer outro lugar do mundo.

Os juízes concluíram que as armas nucleares são únicas em seu poder destrutivo, seu impacto não podia ser contido no tempo e no espaço e era uma obrigação universal aboli-las.

Esse julgamento de forma alguma é o primeiro pronunciamento de alto nível contra as armas nucleares. A própria primeira resolução das Nações Unidas estabelece uma comissão para considerar o controle e a eliminação dessas armas. Contudo, o término da Guerra Fria conduziu o mundo a uma direção oposta.

Sonhadores

Em 1987, o presidente americano Ronald Reagan e o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev foram caminhar juntos em Reykjavik, na Islândia. Lá, concordaram que as armas nucleares eram uma grave ameaça a ambos os países, bem como ao mundo, e que essas armas do terror deveriam ser abolidas. Mesmo assim, esses dois líderes foram informados pelos seus consultores especializados que seus sonhos pela abolição nuclear eram irreais e que as armas nucleares estavam lá para ficar.

Avançando no tempo 20 anos, parece que os “realistas” estavam corretos. Os principais países com armas nucleares — China, França, Israel, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos — ainda detêm 20 mil armas nucleares e expandiram — não reduziram — suas políticas nucleares. A esses países se juntaram também Índia, Paquistão, Coréia do Norte e talvez, logo, o Irã. Em janeiro deste ano, o Bulletin of Atomic Scientists respondeu à crescente ameaça do uso catastrófico de armas nucleares — por acidente, erro de cálculo ou por intenção — adiantando seu Relógio do Juízo Final para cinco minutos para meia-noite.


Lijon Eknilang
Em 1945, Albert Einstein lamentou que nosso pensamento político e ético não havia mudado com a nova realidade científica da capacidade humana para a auto-destruição: “O poder liberado pelo átomo mudou tudo, exceto nosso modo de pensar. Assim, nos dirigimos para uma catástrofe sem precedentes”.

Durante os últimos 60 anos, Einstein quase se provou correto. As armas nucleares quase foram usadas por acidente, erros de cálculo ou intencionalmente cerca de 15 vezes.

Mas, apesar desse cenário perigoso, creio que mudanças fundamentais na política, na tecnologia e na consciência humana transformaram a aspiração pela abolição nuclear de um sonho para um objetivo prático e alcançável.

Um indicativo dessa mudança na consciência é o artigo publicado no The Wall Street Journal, em janeiro de 2007, “Um Mundo Livre de Armas Nucleares”, no qual os republicanos George Shultz e Henry Kissinger deixam de apoiar a intimidação nuclear e clamam que a liderança americana facilite o desarmamento global.


Teste nuclear no Atol de Biquíni, 1947
“... creio que mudanças fundamentais na política, na tecnologia e na consciência
humana transformaram a
aspiração pela abolição nuclear
de um sonho para um objetivo prático e alcançável.”

Muitos países rejeitaram a posse de armas nucleares em 1970 ao assinarem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). Muitos desses países — 113 até o momento — também constituíram Zonas Livres de Armas Nucleares, tomando assim medidas mais fortes contra elas. Essas zonas englobam a África, Ásia Central, o Pacífico, o Sudeste da Ásia, a América Latina e o Caribe.

Essas zonas incluem alguns países que possuíam armas nucleares e desistiram delas (África do Sul, Cazaquistão, Ucrânia e Belarus) e alguns países que tinham programas para desenvolver armas nucleares, os quais foram interrompidos (Líbia, Argentina e Brasil).

Reunindo força

Pesquisas realizadas em quase todos os países que possuem, ou são “defendidos” por armas nucleares indicam que a opinião pública se volta contra a bomba e a favor de um mundo livre de armas nucleares. Isso inclui 87% nos Estados Unidos, 87% no Reino Unido, 72% na Bélgica, 87% na Alemanha, 61% na Rússia e 63% na Índia.

Os Estados com Armas Nucleares (grupo cuja sigla em inglês é NWS), em conjunto com a TNP, aceitou trabalhar pelo desarmamento nuclear. Entretanto, sua abordagem para o desarmamento nuclear sempre foi de um passo para frente e dois para trás. Até recentemente, a maioria dos países era por demais confiante, ingênuo ou fraco para chamar o NWS a essa tarefa. Mas isso está mudando. Mais de 125 países hoje apóiam uma resolução das Nações Unidas que clama pelo início das negociações sobre uma convenção das armas nucleares, que as proibiria e forneceria um cronograma para a supervisão de sua destruição.

Uma comissão especial sobre Armas de Destruição em Massa, chefiada por Hans Blix, recentemente solicitou que o NWS desenvolvesse planos para a completa destruição de seus arsenais nucleares.

Mais de duas mil organizações apóiam a campanha Abolição 2000, que clama pela abolição das armas nucleares por meio de uma convenção internacional. As Nações Unidas divulgaram um tratado modelo que demonstra a praticabilidade do desarmamento nuclear. Essa campanha também foi incentivada por ações inovadoras da parte de alguns países. A Nova Zelândia, por exemplo, adotou uma legislação em 1987 que torna crime qualquer cidadão ou autoridade governamental se engajar na aquisição de armas nucleares, fazer ameaças com elas, usá-las ou auxiliar alguém nessas iniciativas. Trezentos bilhões de fundos de pensão da Noruega recentemente foram retirados de qualquer empresa envolvida na manufatura ou transporte de armas nucleares.

Outras atitudes positivas:

• Um apelo das cidades de Hiroshima e Nagasaki clamando pela completa proibição e eliminação das armas nucleares assinado por mais de 80 milhões de pessoas.

• Uma declaração do general Lee Butler (ex-chefe do comando nuclear dos Estados Unidos) e de mais 50 outros generais e almirantes aposentados de 17 países clamando pela eliminação abrangente das armas nucleares.

• Uma declaração de 117 líderes civis, entre eles, 47 ex ou atuais chefes de Estado (incluindo da França, Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, Alemanha, Japão e Coréia do Sul) clamando pela eliminação das armas nucleares.

• Mais de 1.600 prefeitos, entre eles, muitos das principais cidades dos NWS, se juntaram à campanha Prefeitos pela Paz, que clama pelas negociações de uma Convenção das Armas Nucleares em 2010.

Para a maior parte do mundo, a segurança não se refere à capacidade militar de defender um território, mas à capacidade de prover as necessidades humanas de forma sustentável. Isso está ameaçado pela degradação ambiental, pelo impacto econômico das armas nucleares e pelas ameaças políticas perpetuadas pelas políticas nucleares. Há também uma compreensão maior de que o papel tradicional das armas nucleares — isolar e defender os países uns dos outros — é menos relevante num mundo que se tornou interconectado e interdependente, e de que a alternativa para a abolição nuclear é certamente um desastre.

Se utilizarmos essa oportunidade para abolir as armas nucleares, construiremos uma ordem mundial melhor e mais cooperativa, mais capacitada a direcionar as necessidades da segurança humana e onde essa cooperação substitua a prática obsoleta da guerra como forma de responder aos conflitos e à busca de interesses. Assim, seremos capazes de revisar Einstein, e afirmar que a partição do átomo realmente nos estimulará a uma nova forma de pensar e agir que previna não somente um holocausto nuclear mas também a própria guerra.

Alyn Ware é consultor do Comitê de Advogados sobre Política Nuclear (nos EUA), educador da Fundação para Estudos da Paz de Nova Zelândia-Aoteara e coordenador global da Rede Parlamentar para o Desarmamento Nuclear. Ele foi coordenador das Nações Unidas para o Projeto Corte do Mundo.


Textos e imagens pertencentes à Associação Brasil SGI. Direitos Reservados.