Destaque
A busca pela paz global
Um diálogo entre Sir Joseph Rotblat e o presidente da SGI, Daisaku Ikeda
Sir Joseph Rotblat (1908–2005) foi um dos cientistas recrutados para trabalhar no projeto americano que construiu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. Ele deixou o projeto quando se tornou claro que a Alemanha nazista não conseguiria construir sua própria bomba atômica. Posteriormente, Rotblat se tornou um incansável defensor da abolição das armas nucleares e foi co-fundador das Conferências Pugwash sobre Ciências e Questões Mundiais, em 1957. Ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1995. Daisaku Ikeda é presidente da Soka Gakkai Internacional e lidera as atividades dessa organização voltadas à paz e à abolição das armas nucleares desde 1960. Este diálogo foi extraído do livro A Quest for Global Peace: Rotblat and Ikeda on War, Ethics and the Nuclear Threat (Uma Busca pela Paz: Rotblat e Ikeda sobre a Guerra, Ética e a Ameaça Nuclear, I.B. Tauris, 2007).
Joseph Rotblat e Daisaku Ikeda se encontraram em Okinawa, em fevereiro de 2000 . |
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Ikeda: Professor Rotblat, o senhor participou inicialmente do projeto americano para o desenvolvimento de armas nucleares, o Projeto Manhattan, mas depois o abandonou. Gostaria de perguntar onde estava o senhor quando foi lançada a bomba atômica em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945? E como o senhor ficou sabendo do lançamento? |
Rotblat: Naquela época, eu vivia em Liverpool, Inglaterra. Já havia deixado o Projeto Manhattan e partido dos Estados Unidos. Quando ficou claro que eu poderia voltar para a Inglaterra, apresentaram-me a condição de que eu não deveria contatar meus antigos colegas que trabalhavam no laboratório em Los Alamos [no Novo México]. Todas as cartas eram fotografadas e guardadas. Dessa forma, eu não podia me corresponder com meus colegas. Tinha receio de colocá-los em perigo. Assim, após deixar Los Alamos em dezembro de 1944 e retornar para
Liverpool, não tinha idéia do que acontecia lá. Esse era o contexto quando soube das notícias sobre o bombardeio atômico. No dia 6 de agosto de 1945, soube das notícias ouvindo a BBC.
“Nosso dever como cidadãos
do século XXI é
trabalhar para
um mundo sem guerras.” |
Ikeda: Como o senhor se sentiu quando soube das notícias?
Rotblat: Fiquei chocado porque, na época, ainda tinha esperanças. Era uma esperança pequena de que os americanos não tivessem sucesso na construção da bomba. Eu pensava que, como as pesquisas haviam sido conduzidas totalmente baseadas em cálculos teóricos, talvez o palco real da fabricação da bomba falhasse. Eu também esperava que, mesmo que conseguissem fabricar a bomba, não a usariam, especialmente contra civis.
Em outras palavras, mesmo que uma bomba fosse criada com sucesso, em primeiro lugar, teria de ser testada em algum local remoto, como uma ilha desabitada. E assim, eu esperava que os americanos dissessem aos japoneses: “Olhem! Temos uma superarma”. E, com isso, encerrariam a guerra.
Infelizmente, a realidade se mostrou bem diferente. A primeira bomba atômica dos homens foi lançada em civis.
Ikeda: As notícias sobre o lançamento da bomba atômica foram transmitidas em Los Alamos pelo sistema de radiofonia pública. [Disseram- nos] que naquele momento, todo o laboratório de Los Alamos irrompeu em júbilo. Contudo, mais tarde naquela noite, um clima melancólico cobriu as celebrações. Após o entusiasmo e o sentimento de realização terem se desvanecido, pairava um senso de arrependimento e de presságios ruins.
Rotblat: Fiquei completamente tomado pela desesperança. Foi uma sensação de choque indescritível, da qual demorei para me recuperar, pois eu sabia que o lançamento da bomba em Hiroshima era apenas o primeiro passo de um programa mais amplo de desenvolvimento de armas nucleares.
Naquela época, sabia que a bomba de hidrogênio existia, mas era algo extremamente secreto. Sabia que seria desenvolvida, a seguir, uma arma com um poder destrutivo milhares de
vezes maior.

Joseph Rotblat, prêmio Nobel de 1995, abandonou o Projeto
Manhattan em vez de continuar as pesquisas com bombas atômicas. |
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Ikeda: Se eu fosse classificar a história humana em períodos, traçaria uma linha entre as eras pré e pós-nuclear. Com a criação das armas nucleares, pela primeira vez, a extinção da raça humana se tornou uma realidade concebível. Jamais devemos perder de vista o fato de que os seres humanos criaram as armas nucleares. |
Esforços prementes
Rotblat: Tornei-me um obcecado com a necessidade de encontrar um caminho para evitar a extinção humana. Deixe-me esclarecer como fiquei tomado por esse objetivo. Quando olho para trás agora, imagino como me surgiu essa idéia maluca. Pensando como cientista, procurava uma forma de deter as pesquisas sobre física nuclear. Queria fazer o que fosse possível para interromper o desenvolvimento da bomba de hidrogênio. Pensava que isso aconteceria se todos os cientistas concordassem em parar temporariamente as pesquisas. Assim, passei a contatar os cientistas, primeiramente os físicos nas universidades inglesas, para convencê-los de que era necessário fazer algo e evitar o extermínio da raça humana.
Ikeda: Que tipo de resposta o senhor recebeu dos cientistas?
Rotblat: Muitos deles não percebiam a natureza do problema e, por isso, não tiveram muita reação. Alguns dos físicos foram simpáticos à minha posição, mas outros se opuseram completamente. Percebi que era impossível parar todas as pesquisas e, falando de modo realista, tudo apontava para a progressão das pesquisas nucleares em todo o mundo.
Ikeda: Professor Rotblat, eu me simpatizo completamente com seu senso de urgência e preocupação. Qualquer que seja a circunstância, o senhor está propenso a agir. O valor de uma pessoa não é determinado pelos seus pensamentos, mas por suas ações. Muitos dos envolvidos nas pesquisas de armas nucleares em Los Alamos estavam emocionalmente em conflito sobre seus papéis. E após o lançamento da bomba atômica, alguns sentiram remorsos. Mas o senhor foi o único que agiu baseado em suas convicções e desistiu do Projeto Manhattan antes que a bomba fosse lançada.
Traído pela bomba
Os participantes da primeira Conferência Pugwash, em 1957. Joseph Rotblat é o sétimo a partir da esquerda. |
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Rotblat: Falando francamente, a bomba atômica não apenas me encheu de pavor mas também me fez questionar a sobrevivência da raça humana. Também me fez ficar mais determinado a devotar o resto da minha vida para assegurar que as armas nucleares jamais fossem usadas novamente. |
Para começar, em 1946, eu fundei a Associação de Cientistas Atômicos, na Inglaterra, com o objetivo de organizar os cientistas para lutarem contra qualquer esforço no sentido de usar as armas nucleares. A seguir, me senti impelido a partilhar a realidade das armas nucleares com o público em geral, pois as pessoas comuns não tinham idéia dos perigos e ameaças das armas nucleares.
Devotei todas as minhas energias para montar exposições que explicassem os usos benéficos da energia nuclear, bem como seus abusos nas campanhas militares.
Ajudei a patrocinar uma exposição itinerante que era levada em um trem com dois vagões. Nós o chamamos de Trem Atômico. Essa foi a nossa primeira tentativa de divulgar informação e educar o público. Esse trem-exibição viajou por todas as ilhas britânicas e depois pela Europa, chegando até o Oriente Médio.
Ikeda: Que aventura emocionante!
Rotblat: Senti como se eu tivesse sido traído pela bomba atômica. Considerome um cientista que luta pelo benefício da humanidade, não pela sua destruição. Achava que, se minha pesquisa científica seria usada, queria decidir como ela seria usada e ver com meus próprios olhos que fosse usada de forma benéfica. A física nuclear estava sendo utilizada de diversas formas no campo da medicina, então, decidi abandonar minhas pretensões no campo da física nuclear e me especializar em aplicações médicas da física.
Ikeda: O senhor visitou tanto Hiroshima quanto Nagasaki. O senhor experimentou uma mudança em suas percepções após visitar Hiroshima?
Rotbalt: Certamente. Após ver com meus próprios olhos a devastação que assolou Hiroshima pude expressar mais claramente aos outros a magnitude da miséria infringida pelas armas nucleares.
Quando eu vi as fotos no Museu Memorial da Paz, mal pude conter minhas lágrimas. Desde então, venho clamando ao museu que estabeleça uma exposição permanente em outros locais além de Hiroshima. Cada cidade deveria ter uma exposição sobre bombas atômicas para lembrar constantemente as pessoas sobre os horrores delas.
Ikeda: Nesse sentido, que lições o senhor acha que a humanidade aprendeu de Hiroshima e Nagasaki?
Rotblat: Adquiri uma visão mais ampla do potencial dessas cidades nos esforços que vão mais além de apenas abolir as armas nucleares. Em outras palavras, acredito que devemos nos empenhar para construir um mundo sem guerras. Eu estabeleci para mim mesmo dois objetivos na vida, um a curto e outro a longo prazo. Meu objetivo de curto prazo é abolir as armas nucleares. E meu objetivo de longo prazo é eliminar as guerras totalmente. Não creio que eu viva para ver esses meus dois objetivos alcançados, mas acredito absolutamente que eles serão concretizados.
Uma agenda maior
Ikeda: Nosso dever como cidadãos do século XXI é trabalhar para um mundo sem guerras. Em primeiro lugar, temos a responsabilidade com o passado. Vivemos com o conhecimento de que mais de 100 milhões de pessoas foram sacrificadas nas guerras do século XX. Temos uma responsabilidade com essas pessoas. Em segundo, precisamos considerar nossa responsabilidade com o presente. No mundo de hoje, centenas
de milhões de pessoas vivem em extrema pobreza e estão à beira da fome. A guerra apenas agrava esses problemas e, além disso, faz surgir outras guerras. A humanidade precisa interromper esse ciclo vicioso.
“Tornei-me um obcecado com a necessidade
de encontrar um caminho para evitar a
extinção humana.” |
Em terceiro lugar, gostaria de salientar nossa responsabilidade com o futuro. No mundo de hoje, as guerras e a produção de armamentos não apenas provavelmente conduzirão à guerra nuclear, mas certamente ameaçam a humanidade com seu poder massivo de devastar sistemas de vida e ambientes em escala global. Se uma guerra nuclear fosse iniciada, a continuação da existência da humanidade estaria em xeque.
Rotblat: O que me preocupa é o pensamento de que as armas nucleares não serão as últimas armas inventadas pelos cientistas. Com o avanço das pesquisas, novos tipos de armas, com um poder destrutivo ainda maior, serão desenvolvidas. Portanto, até a humanidade aprender a coexistir sem recorrer à guerra, não estaremos seguros.
Ikeda: O desenvolvimento das armas nucleares teve início em resposta às ameaças dos nazistas. Depois, o raciocínio passou a ser “conter a União Soviética”. Em seguida, mudou para um papel de intimidação, que assegurava a ameaça da “retaliação massiva” e mantinha o conceito de “destruição mútua assegurada”.
O final da Guerra Fria ofereceu uma oportunidade dourada de terminar com a era nuclear de uma vez por todas, mas as armas nucleares foram mantidas e hoje seu uso chega a ser considerado em conflitos convencionais. Em outras palavras, as armas nucleares continuam a existir sem necessidade. Mas há aqueles que precisam justificar a existência das armas nucleares e tentam encontrar algum argumento convincente.
Rotblat: A vitória jamais será alcançada opondo-se o mal com o mal. Não faz sentido tentar evitar uma guerra usando a ameaça da guerra. Devemos aprender a resolver nossos conflitos sem usar o recurso dos meios militares. Não podemos levar a civilização humana, um resultado miraculoso de anos de evolução, para um fim trágico e prematuro.
Ikeda: Quando olhamos a dura realidade da situação internacional, alguns dizem que é impossível abolir as armas nucleares. Essas pessoas estão cometendo o erro de predizer o futuro baseadas nas condições de nossa realidade atual.
Como o senhor sempre comenta, durante o período antes da Segunda Guerra Mundial, a França e a Alemanha eram inimigas. Hoje, entretanto, ambos os paiíses formam o núcleo da União Européia. Exemplos como esses são abundantes em toda a história. Uma das maiores fraquezas humanas é assumir que a realidade diante de nossos olhos continuará imutável no futuro. Jamais devemos nos esquecer que o sucesso do movimento para abolir as armas nucleares será determinado pela vontade humana.