Destaque
A ameaça nuclear
Mikhail Gorbachev

Mikhail Gorbachev é recepcionado por Ronald Reagan durante visita aos EUA em maio de 1992. |
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Este artigo foi publicado no The Wall Street Journal em 31 de janeiro deste ano. The Wall Street Journal Asia © Dow Jones & Company, Inc. Todos os direitos reservados.
O ensaio “Um Mundo Livre de Armas Nucleares”, publicado neste jornal em 4 de janeiro, foi assinado por um grupo de quatro in- O fluentes americanos de dois partidos políticos — George Shultz, William Perry, Henry Kissinger e Sam Nunn — não conhecidos por pensamentos utópicos e com uma experiência singular em moldar políticas de administrações anteriores. Ele levanta uma questão de importância crucial no mundo de hoje: a necessidade da abolição das armas nucleares. |
Como alguém que assinou os primeiros tratados sobre reduções reais de armas nucleares, sinto que é meu dever apoiar esse clamor por uma ação urgente.
A estrada rumo a esse objetivo iniciou- se em novembro de 1985, quando Ronald Reagan e eu nos encontramos em Genebra. Nós declaramos que “uma guerra nuclear não pode ser vencida e jamais deve ser lutada”. Isso foi dito em uma época em que muitos militares e pessoas ligadas ao establishment consideravam uma guerra envolvendo armas de destruição em massa algo concebível e aceitável, e desenvolviam vários cenários de deflagração nuclear.
Foi preciso vontade política para transcender o velho pensamento e alcançar uma nova visão. Pois, se uma guerra nuclear era inconcebível, então as doutrinas militares, os planos de desenvolvimento das forças armadas e as negociações nas conversações sobre controle de armas deveriam se transformar na mesma medida. Isso começou a acontecer, particularmente, após Reagan e eu concordarmos sobre a necessidade de eliminar definitivamente as armas nucleares, em Reykjavik, em outubro de 1986. Paralelamente, ocorriam grandes transformações políticas no mundo: vários conflitos internacionais eram neutralizados e processos democráticos ganhavam força em muitas partes, levando ao fim da Guerra Fria.
Enquanto as negociações sobre armas entre os EUA e a União Soviética avançavam, um impasse foi superado — o tratado sobre eliminação de mísseis de médio e curto alcance, seguido pelo acordo sobre a redução em cinqüenta por cento das armas estratégicas ofensivas. Se as negociações continuassem da mesma forma e no mesmo passo, o mundo estaria livre da maior parte dos arsenais de armas mortais. Mas isso não ocorreu, e as esperanças por um mundo melhor e mais democrático não foram realizadas. De fato, vimos um fracasso nas lideranças políticas, que se mostraram incapazes de aproveitar as oportunidades surgidas com o fim da Guerra Fria. Esse evidente fracasso
permitiu que as armas nucleares e sua
proliferação continuassem, aumentando a ameaça à humanidade.
O Tratado Antimísseis Balísticos (ABM) foi anulado; os requisitos para uma verificação efetiva e a irreversibilidade das reduções das armas nucleares foram enfraquecidos; o tratado sobre o fim abrangente dos testes com armas nucleares não foi ratificado por todas as potências nucleares. O objetivo da eliminação eventual das armas nucleares foi essencialmente esquecido. E mais, as doutrinas militares das grandes potências, primeiro os EUA e então, em alguma extensão, a Rússia, reenfatizaram as armas nucleares como um meio aceitável de guerrear, para serem usadas em um primeiro ataque ou em um ataque preventivo.
Violação de compromissos
Tudo isso é uma gritante violação dos compromissos das potências nucleares sob o Tratado de Não-Proliferação, que é claro e sem ambigüidades: nações capazes de produzir armas nucleares devem renunciar a essa responsabilidade em troca da promessa feita pelos membros do Clube Nuclear de reduzir e eventualmente abolir seus arsenais nucleares. Se essa reciprocidade não for observada, então, toda a estrutura do tratado entrará em colapso.
O Tratado de Não-Proliferação já está sob considerável estresse. O surgimento da Índia e do Paquistão como Estados nucleares, o programa nuclear da Coréia do Norte e a questão do Irã são apenas o prenúncio de problemas ainda mais perigosos que enfrentaremos, a menos que superemos essa situação. Uma nova ameaça — armas nucleares caindo nas mãos de terroristas — é um desafio à nossa habilidade de trabalhar juntos, internacionalmente e usando nossa inventividade tecnológica. Mas não podemos nos iludir: numa análise final, esse problema somente pode ser resolvido com a abolição das armas nucleares. Enquanto elas continuarem a existir, o perigo estará conosco, como o famoso “rifle no muro”, que cedo ou tarde disparará.
Passos avante
Em novembro [de 2006], o Fórum dos Laureados com o Prêmio Nobel da Paz, em encontro realizado em Roma, divulgou uma declaração especial sobre essa questão. O mundialmente conhecido cientista, Joseph Rotblat, falecido ganhador do Prêmio Nobel, iniciou uma campanha de conscientização mundial sobre o perigo nuclear, da qual participei. A Iniciativa da Ameaça Nuclear Ted Turner fornece um importante apoio com medidas específicas para reduzir as armas de destruição em massa. Junto com todas essas pessoas, estamos unidos por uma compreensão comum quanto à necessidade de salvar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e a responsabilidade primária dos membros do clube nuclear.
“Torna-se cada vez mais claro
que as armas nucleares
deixaram de ser um meio de se
alcançar a segurança; de fato,
com o passar
dos anos, nossa
segurança se torna
gradativamente mais precária.” |
Devemos colocar o objetivo de eliminar
as armas nucleares de volta no
centro das discussões, não em um futuro distante, mas tão logo quanto possível. Isso liga o imperativo moral — a rejeição dessas armas de um ponto de vista ético — com o imperativo da segurança. Torna-se cada vez mais claro que as armas nucleares deixaram de ser um meio de se alcançar a segurança; de fato, com o passar dos anos, nossa segurança se torna gradativamente mais precária.
A ironia — e uma crítica à atual geração de líderes mundiais — é que, duas décadas após o fim da Guerra Fria, o mundo ainda está repleto de vastos arsenais nucleares dos quais apenas uma fração já seria suficiente para destruir a civilização. Como nos anos 1980, enfrentamos o problema da vontade política — a responsabilidade dos líderes das grandes potências de preencher o espaço entre a retórica da paz e da segurança e a real ameaça que paira sobre o mundo. Embora concorde com o artigo de 4 de janeiro de que os Estados Unidos devem tomar a iniciativa e desempenhar
um papel ativo nessa questão, acredito que também haja a necessidade de maiores esforços por parte da Rússia e dos líderes europeus por uma posição responsável e de pleno envolvimento de todos os Estados que possuem armas nucleares.
Clamo por um diálogo que seja travado dentro do sistema do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, envolvendo tanto os Estados nucleares quanto os não-nucleares, e que cubra uma ampla gama de questões relacionadas à eliminação dessas armas. O objetivo é desenvolver um conceito comum de mudança rumo a um mundo livre de armas nucleares.
A chave para o sucesso é a reciprocidade de obrigações e ações. Os membros do Clube Nuclear devem reiterar formalmente seu compromisso de reduzir e eliminar definitivamente as armas nucleares. Como uma prova da seriedade de suas intenções, devem, sem demora, seguir dois caminhos essenciais: ratificar o Tratado Abrangente de Abolição de Testes e mudar suas doutrinas militares, tirando as armas nucleares da condição de alerta máximo da era da Guerra Fria. Ao mesmo tempo, os Estados que possuem programas nucleares devem se comprometer a parar as etapas desses programas que tenham uso militar.
Os participantes do diálogo devem reportar seu progresso e o resultado alcançado no Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao qual deve ser dado o papel de coordenador do processo. Durante os últimos 15 anos, o objetivo da eliminação das armas nucleares tem estado em um plano secundário, de forma que serão necessários uma verdadeira reviravolta política e um grande esforço intelectual para se chegar ao sucesso nesse empreendimento. Será um desafio para a atual geração de líderes, um teste para a sua maturidade e habilidade. É nosso dever ajudá- los nesse desafio.
Mikhail Gorbachev foi líder da União
Soviética de 1985 a 1991. |
O The Wall Street Journal não se responsabiliza
pela versão em português.