Setembro
2007

Destaque
Por que me oponho às armas nucleares
Por David Krieger

Eu me oponho às armas nucleares porque elas são máquinas de matar a longa distância, incapazes de diferenciar soldados de civis, idosos de recém-nascidos, homens de mulheres e crianças.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas ameaçam a destruição de tudo o que é sagrado, de tudo o que é humano, de tudo o que existe.


Eu me oponho às armas nucleares porque elas ameaçam excluir o futuro.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas são armas covardes e em seu uso não pode haver honra.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas são um falso deus, dividindo as nações entre “possuidoras” e “não-possuidoras”, concedendo um falso prestígio e privilégio àqueles que as possuem.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas são uma distorção da ciência e da tecnologia, confundindo nosso conhecimento da natureza para fins destrutivos.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas zombam das leis internacionais, estabelecendo em seu lugar a submissão ao poder bruto.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas desperdiçam nossos recursos no desenvolvimento de instrumentos de aniquilação.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas concentram poder e destroem a democracia.

Eu me oponho às armas nucleares porque elas corrompem nossa humanidade.

Pouco após me graduar na faculdade, visitei os Museus Memoriais da Paz de Hiroshima e Nagasaki. Nesses locais, despertei para o sofrimento humano causado pelo uso dessas armas. Tal sofrimento não é parte das tradições americanas sobre o uso de bombas. Esses museus me fizeram perceber as diferenças de perspectiva entre aqueles que estavam acima das bombas e aqueles que estavam abaixo.

Aqueles acima das bombas, os vitoriosos, celebravam a tecnologia do triunfo e continuaram a se engajar em uma louca corrida pelas armas nucleares. Aqueles abaixo das bombas, as vítimas, aprenderam uma lição simples: “Jamais! Não devemos repetir o mal.”

A visão de futuro mantida por aqueles acima das bombas e aqueles abaixo das bombas pode ser a luta decisiva de nossa época. Do lado das armas nucleares está a arrogância do poder que deseja pôr em risco o futuro da civilização, se não o da própria vida. Do lado dos sobreviventes, os hibakusha¸ está a claridade espiritual de chamar o mal pelo seu nome.

Resolver essa luta é o desafio apresentado à humanidade pelas armas nucleares. Cada um de nós deve escolher. Ignorância, apatia e negação são, de fato, votos para a continuação da ameaça nuclear. Somente opondose inflexivelmente às armas nucleares e trabalhando ativamente pela sua eliminação pode o indivíduo alinharse com aqueles que experimentaram em primeira mão a devastação absoluta causada por essas armas. Essa é a minha escolha. Busco sem reservas a eliminação de todas as armas nucleares de nosso planeta único, o único que conhecemos no Universo que sustenta a vida.

David Krieger é presidente da Fundação da Paz da Era Nuclear (www.waging peace.org) e conselheiro do Conselho do Futuro do Mundo.


Povos da bomba


Começou pelo medo, não pela fome.
O que faltava
Era compreender as conseqüências.

Mesmo assim, o céu mantinha sua inocência azul e branca.
Ainda faltavam muitos anos
Antes que a luz se tornasse tão intensa
Que se podia ver os ossos através da pele translúcida.

Silos ainda tinham grãos, não mísseis.
Montanhas cobertas de neve tocavam o céu,
Nas alturas. Povos da bomba

A bomba pode ter terminado a guerra,
Mas somente se a história for lida de uma estrela distante.

O que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki
Jamais pode ser esquecido, jamais perdoado.

Se o tempo não tivesse avançado e mudado seu curso.
Se as bandeiras brancas tivessem sido hasteadas
antes da estranha tormenta.
Se houvesse menos Einsteins e mais Vonneguts.

O céu se tornou branco e velho.
E, então, as cores da aurora derreteram nosso coração.


Extraído de The Doves Flew High, uma coleção de poemas de David Krieger.


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