Destaque
Esperança pelo degelo nuclear
Entrevista com Jayantha Dhanapala
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O embaixador do Sri Lanka, Jayantha Dhanapala, foi subsecretário- geral para Assuntos O de Desarmamento de 1998 a 2003 e presidente da Conferência de Revisão e Extensão do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, em 1995. Ele foi membro da Comissão de Canberra sobre Eliminação de Armas Nucleares, em 1996, e da Comissão sobre Armas de Destruição em Massa, que divulgou um importante relatório em 2006. |
SGI Quarterly: O senhor disse no passado que era otimista quanto às perspectivas sobre desarmamento nuclear. Ainda se sente dessa forma?
Jayantha Dhanapala: Este ano marca o 200o aniversário da abolição do comércio de escravos. Acho que o caminho para a abolição das armas nucleares é análogo ao caminho para a abolição da escravatura. Algum dia teremos sucesso.
Em nossa existência, também vimos o desmantelamento do apartheid e do comunismo internacional. Essas situações, que pareciam imutáveis, de fato renderam-se às mudanças.
No entanto, é verdade que passamos por um longo e tenebroso inverno de descontentamento. Vimos a maravilhosa oportunidade do fim da Guerra Fria ser dissipada e nenhum desarmamento nuclear significativo ocorrer. A Conferência para Revisão do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares de 2005 foi um desastre. O documento da 60a Assembléia Geral das Nações Unidas não contém nenhuma referência ao desarmamento, pois não houve nenhum acordo. Esse, talvez, tenha sido o ponto mais negativo nessa questão.
Novos desenvolvimentos
Desde então, vimos um artigo muito importante escrito por George Shultz, William Perry, Henry Kissinger e Sam Nunn, publicado no The Wall Street Journal no dia 4 de janeiro deste ano. Foi uma mudança fundamental e revolucionária para pessoas que já tiveram posições de destaque no governo americano e permanecem influentes. Eles clamam pelo desarmamento nuclear e acreditam que a intimidação nuclear já não é mais uma política válida a se buscar. Pouco depois, no mesmo jornal, foi publicado um artigo do ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev, que pediu por uma iniciativa conjunta entre Estados não-nucleares e Estados nucleares para se livrarem das armas nucleares.
“...quanto mais países adquirem armas nucleares, maior o perigo de elas caírem em mãos de grupos terroristas e do uso real
dessas armas.” |
Outra iniciativa foi o relatório da Comissão de Armas de Destruição em Massa, presidida por Hans Blix, divulgado em junho de 2006, com importantes propostas para o banimento de todas as armas de destruição em massa.
Já banimos as armas biológicas e químicas, mas oito países (nove, se contarmos a Coréia do Norte) ainda possuem armas nucleares. O resto do mundo, porém, com base na idéia de que a proliferação nuclear é algo ruim, está sendo proibido de possuir o material. A proliferação nuclear certamente não é algo bom, mas, se temos países com armas nucleares que se arrogam o direito de tê-las, enquanto a outros é negada a posse, então é quase certo que se está estimulando os outros países a querê-las.
Por outro lado, quanto mais países adquirem armas nucleares, maior o perigo de elas caírem em mãos de grupos terroristas e do uso real dessas armas. Temos evidências da rede de A.Q. Khan (cientista nuclear paquistanês) fornecendo material e tecnologia para Estados que queriam adquiri-los no mercado negro. Outros desses vazamentos ocorrerão porque nem todos mantêm uma custódia adequada de seus materiais e tecnologia nuclear como deveriam. As penalidades imputadas às três únicas pessoas punidas pela lei na rede de A.Q. Khan são comparáveis às que homens de negócios corruptos e spammers na internet receberiam. O mundo ainda não está levando a sério a proliferação nuclear.
A não-proliferação e o desarmamento são duas faces da mesma moeda. Por isso, é importante a abolição das armas nucleares. Se não houver armas, elas não poderão proliferar.
Agora, temos uma oportunidade única, pois quatro dos cinco Estados nucleares que assinaram o TPN estão passando por mudanças em sua cúpula. Temos um novo presidente na França e um novo primeiro-ministro na Grã-Bretanha. No próximo ano, teremos um novo presidente na Rússia e nos Estados Unidos.
Esta é uma oportunidade de deixarmos de ter as armas nucleares como uma moeda válida no mundo do poder e caminharmos em direção à eliminação de todas as armas de destruição em massa.
Mudança de paradigmas
SGIQ: Que tipo de mudança de paradigma o senhor vê na dramática transformação que presenciamos em pessoas como George Shultz e Henry Kissinger?
“Esta é uma oportunidade de deixarmos de
ter as
armas
nucleares como uma moeda
válida no mundo do poder e caminharmos em direção à eliminação de todas as armas de destruição em massa.” |
JD: Acredito que haja dois aspectos. Um é o repensar normal de posições e atitudes que as autoridades têm em certos estágios de sua carreira. Vimos isso acontecer com Robert McNamara, que hoje argumenta muito fortemente contra as armas nucleares, tendo já sido chefe do Pentágono e responsável pela doutrina de Destruição Mútua Assegurada durante a Guerra Fria. Temos várias outras pessoas que estiveram em posições de liderança militar em diferentes países, hoje aposentadas, e que passam por um processo de reconsideração de suas opiniões.
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Comício antiarmas nucleares na Califórnia, em 1982, no auge da Guerra Fria |
Mas também acredito que, da parte de Kissinger, Nunn, Shultz e Perry, há uma compreensão de que o mundo mudou radicalmente a partir da Guerra Fria.
Além disso, com a mudança climática, há uma nova ênfase na energia nuclear como fonte de energia limpa. Mas com uma margem muito pequena entre o uso da força nuclear para fins pacíficos e para fins não-pacíficos. Uma vez que o urânio é enriquecido, sempre se pode utilizá-lo para armas nucleares. Em última instância, é uma questão das intenções dos países, e é muito difícil para qualquer organismo internacional, por mais que seus métodos de verificação sejam precisos, se certificar de que as intenções são de fato pacíficas.
Assim, numa situação como essa, muitas pessoas chegam à conclusão de que é necessário o total banimento das armas nucleares. Os Estados Unidos não precisam de armas nucleares; eles possuem hoje a supremacia das armas convencionais. E não há uma grande rivalidade de superpotências, entre os Estados Unidos ou qualquer outro Estado. A China tem indicado claramente que deseja ter uma influência pacífica em relação ao seu crescimento econômico. Os chineses também querem o espaço exterior livre de quaisquer armas.
Essas são, creio eu, algumas considerações em questão nos dias atuais. E espera-se que elas tenham algum tipo de influência na tomada de decisões políticas, particularmente após a mudança de liderança política nos EUA ano que vem.
Ao mesmo tempo, há tendências negativas: a Ogiva de Reposição Confiável (RRW) está sendo desenvolvida pelos Estados Unidos — a primeira arma nuclear gerada após um longo tempo. Há ainda o programa de defesa de mísseis que continua a ser incentivado pelos políticos da oposição russa.
Assim, há uma ênfase de parte do espectro político pela renuclearização da política internacional; por outro lado, há os Kissingers e outros que dizem que é hora de olhar de novo para a validade das armas nucleares. Elas não são mais necessárias, então, por que não nos livramos delas? Pois, quanto mais tempo as tivermos, maiores as chances de caírem nas mãos de terroristas e de serem utilizadas. E sabemos que a detonação de uma arma nuclear moderna será milhares de vezes pior do que Hiroshima e Nagasaki, e deixará efeitos genéticos e ecológicos que ferirão não somente a raça humana mas também a ecologia que a apóia.
O poder da opinião pública
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Turistas visitam o sítio Trinity, no Novo México, onde
um monumento marca o local do primeiro teste de
uma bomba atômica, no dia 16 de julho de 1945 |
SGIQ: O que pode ser feito para engajar novamente a opinião pública nessa questão?
JD: No auge da Guerra Fria, tivemos uma demonstração de mais de um milhão de pessoas em Nova York caminhando para protestar contra as armas nucleares. Mas, após o término da Guerra Fria, havia uma forte percepção de que a probabilidade do uso das armas nucleares havia diminuído, e as pessoas eram mais encorajadas a se sentir complacentes a respeito delas.
Hoje, isso não é mais possível. E depois do 11 de Setembro, as pessoas foram lembradas de que, se as armas de destruição em massa forem usadas pelos terroristas, os danos serão catastróficos. Não podemos mais assumir esse risco com as armas nucleares. Há uma conscientização cada vez maior, creio eu, tanto no nível dos Estados quanto no nível público. Precisamos encorajar a opinião pública global. A sociedade civil foi descrita como a “outra superpotência”, e acredito que ela é capaz da mesma influência que uma superpotência convencional teria nas questões internacionais, desde que se una. Precisamos, portanto, mobilizar a opinião pública internacional para pressionar suas lideranças.
“É interesse da
segurança nacional de
qualquer país não ficarà beira de uma catástrofe
nuclear, seja causada
por uma nação, seja
por um grupo terrorista.” |
Os países da Ásia Central, diante da oposição dos três Estados nucleares do Ocidente — França, Grã- Bretanha e Estados Unidos — decidiram que queriam uma zona livre de armas nucleares. Eles assinaram um tratado em setembro do ano passado, em Semipalatinsk, no Cazaquistão, local de muitos testes de armas nucleares nos dias da antiga União Soviética. Então, temos países mudando suas posturas nucleares convencionais do passado para uma nova forma de pensamento. Mas, ao mesmo tempo, temos um elemento residual da antiga forma de pensar, e isso ficou evidente quando o governo do Reino Unido decidiu que queria renovar seu sistema de armas nucleares Trident. Houve muita opinião contrária a isso e vários amigos meus do Reino Unido disseram-me que, embora tivessem perdido a batalha, estavam confiantes de que venceriam a guerra nessa questão do Reino Unido abandonar sua postura nuclear.
É interesse da segurança nacional de qualquer país não ficar à beira de uma catástrofe nuclear, seja causada por uma nação, seja por um grupo terrorista.
A norma moral
SGIQ: Que fontes pessoais de esperança o senhor utiliza para sustentar- se em um trabalho que muitas pessoas considerariam desanimador?
JD: Culturalmente, eu não posso deixar de ser influenciado pelo fato de que cresci num país predominantemente budista, onde a mensagem do Buda e, em minha existência, as mensagens de Mahatma Gandhi e de Martin Luther King Jr. e o exemplo de Nelson Mandela, inspiram a necessidade do otimismo e da esperança nas relações internacionais e de um futuro melhor para a humanidade. Como disse antes, acredito que há paralelos com o sucesso da abolição da escravatura. A escravidão ainda existe em várias partes do mundo em uma forma moderna odiosa, mas foi claramente estabelecida a norma de que a escravidão é errada, imoral e ilegal. E o que precisamos fazer é deslegitimizar as armas nucleares.
As pessoas dizem que as armas nucleares não podem ser “desinventadas” e que o conhecimento delas sempre existirá. Certamente, sempre existirá o conhecimento da fabricação de armas biológicas e químicas, mas, uma vez que seja estabelecida uma norma, será mais fácil buscar a eliminação de um mal pernicioso do que continuar a existir nas mãos de algumas pessoas, enquanto afirmamos a outras que é errado possuir as mesmas armas nucleares que temos.