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Abril / Junho
2007

Gente
Caminhando no fogo
Sipho Ndabambi, África do Sul


Sipho, o segundo agachado a partir da esquerda, com colegas de seu comitê de paz regional
O início da década de 1990, período que levou à primeira eleição democrática na África do Sul em 1994, foi caracterizado por incerteza e instabilidade. Enquanto partidos políticos formados por negros, antes banidos, e o governo da minoria branca desenvolviam o processo eleitoral, muitas regiões do país eram assoladas pela violência entre os correligionários dos partidos em disputa.

Nesse contexto político conturbado, iniciei a prática do Budismo Nitiren, em Johanesburgo, em 1992. Na época, trabalhava como assistente em uma galeria de arte e era líder do diretório regional de um partido político.
Fiquei intrigado com a filosofia budista e impressionado com os membros da SGI, que oravam sinceramente pela paz e por um processo eleitoral tranqüilo. Eles me incentivaram a orar com o sentimento de tornar possível o impossível, e eu o fazia com a convicção de que teríamos paz e democracia em nosso país.

Em 1993, todos os partidos políticos se comprometeram com um acordo de paz nacional mas, entre o povo, lutas e cisões continuavam em meio a uma atmosfera de medo e desconfiança. O acordo de paz propiciou o estabelecimento de comitês de paz regionais. Em nossa localidade, meus amigos e eu tomamos a iniciativa.

Devido à quantidade de partidos políticos e trabalhadores migrantes, nossa região era considerada uma área de tensão e violência em potencial.

Seguindo o conselho de meus colegas no comitê, passei a visitar os líderes de outros partidos políticos para ver se estavam dispostos a dialogar. Além disso, aproximamos líderes religiosos e organizações que trabalhavam pela paz e desenvolvimento — qualquer um que pudesse transmitir uma mensagem em prol da paz que começava a ser difundida. Quando me aproximava das pessoas, não o fazia com base em minha filiação política, mas como um membro da comunidade.

Retirando os rótulos

Minha prática budista proporcionou-me confiança e ímpeto para tomar a iniciativa. De repente, comecei a ver as pessoas sob outro prisma e me vi indo a lugares que antes não teria ido. Tinha certeza de que, por meio do diálogo, poderíamos solucionar os problemas. As pessoas também pareciam corresponder de forma diferente. Mesmo sabendo que eu era um líder político, todos, em qualquer lugar, me aceitavam como eu era.

Muito da violência no país naquela época vinha dos aliados do Congresso Nacional Africano, o mais numeroso, e do Partido da Liberdade Inkatha. Em muitas áreas onde as pessoas temiam ou estavam inseguras sobre com se aproximar do Inkatha, o partido foi deixado de lado nas iniciativas pela paz. Em nossa região, descobrimos com quem dialogar e conseguimos nos aproximar dos líderes.

Lembro-me da tensão que marcou nosso primeiro encontro. Ninguém tinha certeza do que aconteceria. Porém, quando nos sentamos, percebemos que todos estavam preocupados com o que viria. Após tomar chá e dialogar, percebemos que “todos são apenas pessoas comuns”.

Estabelecemos reuniões semanais onde as pessoas pudessem expressar suas reclamações e alguém analisaria os casos. Em vez de conversar sobre nossas organizações políticas e cargos, tentávamos dialogar com cada indivíduo, como seres humanos e pessoas preocupadas com todos os moradores da região. Nós nos chamávamos pelos nomes de nossos clãs, pois assim podíamos quebrar as barreiras políticas e étnicas, o que ajudou a criar um senso de fraternidade.

Devido a esses esforços, houve poucos incidentes de violência e nenhuma morte. Uma história diferente foi escrita. Estima-se que aproximadamente vinte mil pessoas morreram em virtude da violência motivada por razões políticas naquele ano. As lições que aprendemos auxiliaram ativistas em outras áreas.

Minha prática budista e a filosofia de diálogo da SGI ajudaram-me a contribuir com a solidificação da paz em minha comunidade. Hoje, 12 anos depois da primeira eleição democrática da África do Sul, sinto que o princípio de “confiança por meio da amizade” ainda é uma arma poderosa para enfrentar muitos dos desafios da nossa nova nação.


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